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JULIO CESAR, ATO V, Cena V

Outra parte do campo de batalha. Entram Bruto, Dardânio, Clito, Estrato e Volúmnio.

BRUTO - Vinde, resto minguado dos amigos; descansai nesta pedra.

CLITO - Houve quem visse a tocha de Estatílio; no entretanto, senhor, ele não veio; ou ficou preso, ou já
se encontra morto.

BRUTO - Clito, senta-te. "Matar" é a senha; o feito está em moda. Escuta, Clito.
(Fala-lhe ao ouvido.)

CLITO - Que dizeis, senhor? Não, pelo mundo todo.

BRUTO - Então, caluda!

CLITO - Prefiro suicidar-me.

BRUTO - Ouve, Dardânio.
(Fala-lhe ao ouvido.)

DARDÁNIO - Eu, incumbir-me de tal coisa? Nunca!

CLITO - Oh, Dardânio

DARDÂNIO - Oh, Clito!

CLITO - Que pedido funesto te fez Bruto?

DARDÁNIO - O de matá-lo. Vê; ele medita.

CLrro - Esse vaso admirável se acha, agora, tão cheio de amargura, que dos próprios olhos se lhe
transbordam.

BRUTO - Bom Volúmnio, chega-te para perto; uma palavra.

VOLÚMNIO - Que disse meu senhor?

BRUTO - Isto, Volâmnio: o espírito de César por duas vezes me apareceu de noite; em Sardes, uma; e,
na noite passada, aqui nos campos de Filipos. Minha hora já soou. VOLÚMNIO - Não é assim, senhor.

BRUTO - É sim, Volúmnio. Bem vês, Volúmnio como as coisas correm: neste combate, nossos inimigos
até à beira do abismo nos trouxeram. É mais digno de nós saltarmos nele, do que esperar que venham

empurrar-nos. Meu bondoso Volâmnio, como sabes, à escola fomos juntos. Ora, em nome dessa antiga
amizade, instante peço-te: segura-me esta espada, que sobre ela me precipitarei.

VOLÚMNIO - Isso, senhor, não é serviço que um amigo faça
(Alarma ao longe.)

CLITO - Fugi, senhor. Aqui correis perigo.

BRUTO - Adeus a vós, e a vós; e a ti, Volúmnio. Dormiste, Estrato, quase todo o tempo; adeus, também,
Estrato. Compatriotas, o coração me salta de alegria pelo fato de nunca haver achado ninguém que não
me houvesse sido fiel. Mais glória ganharei nesta jornada desastrosa, que Otávio e Marco Antônio hão de
alcançar com sua vil conquista. A vós todos, adeus; pois dentro em pouco a voz de Bruto acabará sua
história. A noite escura os olhos me recobrem; já me pedem repouso os lassos ossos, que só se
azafamaram tanto e tanto, para esta hora alcançarem.
(Alarma. Gritos, dentro: "Fugi todos!")

CLITO - Fugi, senhor!

BRUTO - Depressa! Já vos sigo.
(Saem Clito, Dardânio e Volúmnio.)

Estrato, por obséquio, fica ao lado de teu amo. És pessoa bem formada; chispas de honra tens sempre
revelado. Segura-me esta espada e vira o rosto, porque nela eu me atire. Far-me-ás isso?

ESTRATO - Dai-me, primeiro, a mão. Meus, senhor.

BRUTO - Adeus, bondoso Estrato.
(Atira-se de encontro à espada.)

César, podes acalmar-te; contente a morte aceito, como no instante de ferir-te o peito.
(Morre.)
(Alarma. Retirada. Entram Otávio, Antônio, Messala, Lúcio e o exército.)

OTÁVIO - Quem é este homem?

MESSALA - O criado de meu amo. Onde se encontra, Estrato, teu senhor?

ESTRATO - Livre dos elos, Messala, que vos pesam. Cinza, apenas, poderão fazer dele os vencedores.
Bruto só foi vencido por si mesmo: ninguém mais se gloria com sua morte.

LUCÍLIO - É assim mesmo que Bruto deveria ser encontrado. Agradecido, Bruto, te fico por haveres
confirmado quando Lucílio disse.

OTÁVIO - A meu serviço hão de ficar quantos serviram Bruto. Queres servir-me, amigo, de ora em
diante?

ESTRATO - Se Messala quiser recomendar-me.

OTÁVIO - Fazei isso, Messala.

MESSALA - Estrato, como pereceu teu amo?

ESTRATO - A espada eu segurei; jogou-se nela.

MESSALA - Então, Otávio, aceita-o, que ao meu amo prestar soube ele o último serviço.

ANTÔNIO - Foi o mais nobre dos romanos. Todos os mais conspiradores, tirante ele, o feito realizaram
por inveja de César. Bruto, apenas, foi levado por uma idéia honesta e o bem de todos a ligar-se aos
demais. Era de vida tranqüila, e os elementos de tal modo nele vieram a se unir, que a natureza podia
levantar-se e ao mundo inteiro proclamar: "Eis aqui, de fato, um homem!"

OTÁVIO - De acordo com seu mérito o tratemos, realizando com o máximo respeito os ritos funerais.
Esta noite seu corpo ficará na minha tenda com honras adequadas a um guerreiro. Mandai tocar repouso
para o exército. Quanto a nós, dividamos com alegria as glórias deste grande e feliz dia.
(Saem.)