O mesmo. Diante do palácio. Entram Autólico e um gentil-homem.
AUTÓLICO - Por obséquio, senhor, estivestes presente a essa história?
GENTIL-HOMEM - Estive presente, quando abriram o embrulho e ouvi como o velho pastor contou
como o havia encontrado, ao que se seguiu uma fase rápida de espanto, tendo-nos sido dada ordem para
que saíssemos da sala. Parece que ouvi ainda o pastor dizer que havia achado a criança.
AUTÓLICO - Desejaria muito saber o desenlace disso.
GENTIL-HOMEM - Fiz uma exposição muito incompleta do que houve; mas as alterações que eu
percebi no rei e em Camilo eram indicadoras de extrema perplexidade. Pela maneira que se olhavam,
dir-se-ia que os olhos iam saltar-lhes das órbitas; havia eloquência no mutismo deles e linguagem em
seus próprios gestos. Davam a impressão de estarem ouvindo falar de mundos resgatados ou destruídos.
Revelavam sinais de grande estupefação; mas qualquer testemunha sagaz, que só formasse opinião pelo
que visse, não saberia dizer se toda aquela emoção era fruto de alegria ou de tristeza, sendo certeza que
só poderia tratar-se de um desses dois sentimentos, elevado ao máximo.
(Entra outro gentil-homem.)
Aí vem um gentil-homem que talvez nos possa informar de mais alguma coisa. Quais são as novidades,
Rogero?
SEGUNDO GENTIL-HOMEM - Nenhuma, senão fogos de alegria. Cumpriu-se o oráculo: a filha do rei
foi encontrada. Tantas coisas espantosas se tornaram conhecidas nesta hora, que os fazedores de baladas
não serão capazes de dar-lhes expressão adequada.
(Entra um terceiro gentil-homem.)
Aí vem o intendente da senhora Paulina. Ele vos contará mais algumas particularidades. Então, senhor,
em que ponto estão as coisas? As novidades que nos são dadas como puras verdades, parecem-se tanto
com um velho conto, que a veracidade do fato se nos afigura muito suspeita. É certo que o rei encontrou
a herdeira.
TERCEIRO GENTIL-HOMEM - Certíssimo, se em qualquer tempo a verdade já foi demonstrada pelas
circunstâncias. Poderíeis jurar que vistes que tudo o que vos contam, tal é a coerência das provas. O
manto da Rainha Hermíone, a jóia que a criança trazia ao pescoço, as cartas de Antígono, cuja letra foi
reconhecida, a majestade da senhorita, a semelhança com a mãe, a expressão de nobreza, muito acima de
sua educação, e denotadora de origem mais elevada, e muitas outras evidências proclamam, sem sombra
de dúvida, que ela é mesmo a filha do rei. Vistes o encontro dos dois monarcas?
SEGUNDO GENTIL-HOMEM - Não.
TERCEIRO GENTIL-HOMEM - Então perdestes um espetáculo que não pode ser contado; precisava ter
sido visto. Teríeis visto como as alegrias se coroavam sucessivamente, e de forma tal que só parecia que
a tristeza chorava por despedir-se deles, de tal modo a alegria patinhava em lágrimas. Ambos não faziam
senão olhar para o céu e levantar as mãos, com tão perturbados modos, que só eram reconhecíveis pelas
vestes, não pela fisionomia. Nosso rei, como se quisesse sair de si mesmo, de alegria por haver
encontrado a filha, como se de súbito essa alegria se houvesse transformado em dor, gritava: "Oh, tua
mãe! Tua mãe!" Depois, pedia perdão ao Rei da Boêmia; depois abraçava o genro; depois, corria a
abraçar açodadamente a filha. Agradece ao velho pastor, que se mantinha como uma figura de chafariz
estragada pelo tempo durante muitas gerações de reis. Nunca ouvi falar de um encontro como esse; deixa
manca qualquer relação que dela se queira fazer e desafia qualquer descrição.
SEGUNDO GENTIL-HOMEM - Dizei-me, ainda, por obséquio, que aconteceu com Antígono, que fora
incumbido de expor a criança?
TERCEIRO GENTIL-HOMEM - Ainda no jeito dos velhos contos, em que há muito que dizer, muito
embora cochile a credulidade e nenhum ouvido fique atento: foi estraçalhado por um urso, conforme o
afirma o filho do pastor, cuja palavra é reforçada não somente por sua própria ingenuidade - que parece
grande, realmente - como também por um lenço e os anéis que Paulina reconheceu como tendo
pertencido ao marido.
PRIMEIRO GENTIL-HOMEM - E que foi feito do navio dele e de seus tripulantes?
TERCEIRO GENTIL-HOMEM - Foi a pique no momento preciso em que morria o dono, e à vista do
pastor, de forma que todos os instrumentos que haviam tomado parte no ato de ser exposta a criança se
perderam no momento em que ela foi encontrada. Mas, oh! que nobre combate se travava em Paulina,
entre a alegria e a tristeza! Um dos olhos se abaixava pela perda do marido, enquanto o outro se elevava
por ter sido cumprido o oráculo; levantava do solo a princesa e a abraçava com tamanho ardor, como se a
quisesse cravar no coração, para que não viesse a correr o risco de vir novamente a perder-se.
PRIMEIRO GENTIL-HOMEM - A grandeza dessa cena merecia um auditório de reis e de príncipes, por
serem tais os seus atores.
TERCEIRO GENTIL-HOMEM - Um dos acidentes mais comovedores, que chegou a pescar nos meus
olhos - só tendo apanhado água, sem pegar peixe algum - à relação da morte da rainha e da causa que a
provocou - admiravelmente confessada e lastimada pelo rei - foi a tensão dolorosa da filha, que, num
crescendo de manifestação de sofrimento, por último, com uma exclamação, poderia dizer, sangrou em
lágrimas, pois estou certo de que o meu coração também chorava sangue. Dos assistentes, os mais de
pedra mudaram de cor; alguns desmaiaram; todos se mostravam profundamente comovidos, e se o
mundo inteiro houvesse presenciado a cena, a tristeza teria sido universal.
PRIMEIRO GENTIL-HOMEM - Já voltaram para a corte?
TERCEIRO GENTIL-HOMEM - Não; que a princesa ouviu falar da estátua de sua mãe, que se acha sob
a guarda de Paulina - trabalho que requereu anos e que foi recentemente concluído por Júlio Romano, o
grande mestre italiano, que, se fosse imortal, insuflaria alento em sua criação e usurparia a própria função
da natureza, tal é a perfeição com que a imita. Fez uma Hermíone tão semelhante a Hermíone, que,
segundo dizem, a gente fala com ela e fica à espera de resposta. Para lá se dirigiram todos com a
sofreguidão da afeição, pretendendo cear lá mesmo.
GENTIL HOMEM - Hermíone, duas ou três vezes por dia ela se dirigia sozinha para essa casa apartada.
Não quereis ir também lá, para nos associarmos à alegria geral?
PRIMEIRO GENTIL-HOMEM - Haverá quem não queira ir, gozando do benefício do acesso? A cada
piscar de olhos pode nascer um novo motivo de alegria. Nossa ausência nos deixaria privados de
informações. Sigamos.
(Saem os gentis-homens.)
AUTÓLICO - Agora, se não fosse a mácula de minha vida anterior, choveriam sobre mim as promoções.
Fui eu que levei o velho e seu filho para bordo do navio do príncipe e lhe disse que os surpreendera a
falar de certo embrulho e de não sei que mais. Mas nessa ocasião o príncipe se encontrava obcecado pela
filha do pastor - ainda a tinha nessa conta - que começava a sofrer de enjôo, não estando ele tampouco
muito mais firme, porque a tempestade não parara. Daí não ter sido descoberto nessa ocasião o segredo.
Mas para mim, tanto faz. Se tivesse sido eu o descobridor do segredo, isso não anularia minhas
velhacarias anteriores. Aí vêm os dois, aos quais eu fiz bem sem o querer; encontram-se em pleno
desabrochar da fortuna.
(Entram o pastor e o bobo.)
PASTOR - Vamos, menino; outros filhos não posso ter; mas teus filhos e tuas filhas hão de nascer
fidalgos.
BOBO - Belo encontro, senhor. Há dias não vos quisestes bater comigo, por eu não ser gentil-homem de
nascimento. Vedes esta roupa? Dizei que não a estais vendo e continuai a pensar que eu não sou
gentil-homem de nascimento. Faríeis melhor se dissésseis que esta roupa não é de gentil-homem de
nascimento. Experimentai desmentir-me, para verdes se eu sou ou não um gentil-homem de nascimento.
AUTÕLICO - Agora sei, senhor, que sois, realmente, um gentil-homem de nascimento.
BOBO - Sim, e sempre o fui, desde as últimas quatro horas.
PASTOR - Eu também, rapaz.
BOBO - Sim, vós também; mas eu me tornei gentil-homem de nascimento antes de meu pai, porque o
filho do rei me tomou pela mão e me chamou de irmão. Foi só depois que os dois reis deram o nome de
irmão a meu pai e que o príncipe meu irmão e a princesa minha irmã chamaram de pai a meu pai, tendo
nós, então, chorado as primeiras lágrimas de gentil-homem.
PASTOR - Ainda poderemos viver, filho, para chorar muitas mais.
BOBO - É certo; do contrário, seria verdadeira infelicidade, dada a nossa posição tão despropositada.
AUTÓLICO - Humildemente vos suplico, senhor, que me perdoeis todas as faltas cometidas em relação
a Vossa Senhoria, e que vos digneis dizer a meu favor uma palavrinha ao príncipe, meu amo.
PASTOR - Peço-te, meu filho, que faças isso; precisamos mostrar-nos generosos, agora que somos
gentis-homens.
BOBO - Prometes que te corrigireis?
AUTÓLICO - Sim, com a permissão de Vossa Senhoria.
BOBO - Dá-me a mão; vou jurar ao príncipe que tu és um sujeito tão honesto como quem quer que o seja
na Boêmia.
PASTOR - Poderás dizer isso, porém sem jurar.
BOBO - Não jurar, agora que sou gentil-homem? Camponeses e burgueses que se contentem em falar;
eu, hei de jurar.
PASTOR - E se for falso?
BOBO - Por mais falso que seja, um gentil-homem poderá afirmar em juramento, quando se trata de
favorecer a um amigo. Vou jurar ao príncipe que tu és bom de mãos e que não te embriagas, ainda que eu
saiba que não és de mão muito boa e que te embriagas. Mas hei de jurá-lo, desejando que sejas muito
bom de mãos.
AUTÓLICO - Hei de esforçar-me para sê-lo, senhor, quanto em mim estiver.
BOBO - Sim, prova-me isso por todas as maneiras. Se eu não me admirar de tu ousares embriagar-te sem
seres bom de mãos, nunca mais acredites em mim. Escutai! Os reis e os príncipes, nossos parentes, vão
indo ver a estátua da rainha. Vamos; acompanha-nos; seremos bons para ti.
(Saem.)
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CONTO DE INVERNO, ATO V, Cena III
O mesmo. Uma capela em casa de Paulina. Entram Leontes, Políxenes, Florizel, Perdita, Camilo,
Paulina, nobres e séquito.
LEONTES - Quanto consolo, minha boa e digna Paulina, estou a dever-te!
PAULINA - Se por vezes, meu soberano, errei, não foi por gosto. Todos os meus serviços sempre foram
compensados de sobra. Mas o fato, senhor, de não vos terdes dedignado, com vosso irmão coroado e os
dois herdeiros, de visitar a minha pobre casa, é excesso de bondade que impossível em toda a vida me
será pagar-vos.
LEONTES - Oh Paulina! Só incômodo vos damos com a honra que dizeis. Mas aqui viemos, para a
estátua admirar de nossa esposa. Atravessamos vossas galerias não sem grande prazer, proporcionado
pela vista de tantas raridades que nela se contêm; mas ainda falta ver o que minha filha tanto almeja: a
estátua da mãe dela.
PAULINA - Assim como ela não teve em vida quem se lhe igualasse, do mesmo modo, creio, sua
imagem inanimada excede tudo quanto pela mão do homem foi jamais criado. Eis a razão de a conservar
à parte. Aqui está ela. Agora preparai-vos para ver como a vida simulada zomba da própria vida, como
nunca da morte o sono o fez. Ei-la! Mirai-a e dizei que é perfeita!
(Paulina afasta uma cortina, deixando ver Hermíone, em posição de estátua.)
Esse silêncio diz bem de vosso espanto; isso me agrada. Mas dizei qualquer coisa. Vós, primeiro, meu
soberano; não é mais ou menos parecida?
LEONTES - Tal qual como era em vida. Não me censures, pedra idolatrada, se eu disser que és
realmente a minha Hermíone. Não, sem me censurares é que és ela, que sempre foi tão branda como a
própria infância, como a graça. Mas, Paulina, Hermíone não tinha tantas rugas; não tinha a idade que
aparenta agora.
POLÍXENES - Oh! muito menos!
PAULINA - Tanto mais nos forçam à admiração os méritos do artista, que a fez envelhecer dezesseis
anos, plasmando-a como se hoje ela vivesse.
LEONTES - Como podia estar ainda, tanto para minha alegria, quanto agora me punge o coração. Oh!
Desse mesmo modo ela estava, com igual aprumo de nobre majestade - vida quente, que ora o calor
perdeu - quando a primeira declaração lhe fiz. Oh! envergonho-me! A pedra não irá lançar-me em rosto
que mais pedra do que ela ora eu pareço? O real obra-prima! Há força mágica em tua majestade, que me
evoca neste momento todos os meus crimes e priva minha filha estarrecida da vida dos sentidos,
transformando-a em pedra, como tu.
PERDITA - Oh! Permiti-me, sem me tachardes de supersticiosa, que eu me ponha de joelho e bênção
peça. Senhora, soberana mui querida, que vos finastes quando eu vim ao mundo, dai-me a mão, porque a
beije!
PAULINA - Oh! mais paciência! A estátua foi concluída há pouco tempo; as cores ainda não estão bem
secas.
CAMILO - Meu senhor, vossa dor tem sido grande todo esse tempo. Dezesseis invernos não a apagaram;
dezesseis estios não puderam secá-la. Nunca vive tanto a alegria; em muito menos tempo qualquer outra
tristeza se matara.
POLÍXENES - Permiti, caro irmão, que quem foi causa de tudo isto, de seu poder se valha para de vós
tirar parte da pena que a ele próprio acabrunha.
PAULINA - Com franqueza, meu senhor, se eu tivesse imaginado que vos abalaríeis tanto à vista de
minha pobre estátua - pois a pedra me pertencia - não vo-la mostrara.
LEONTES - Não corras a cortina.
PAULINA - É conveniente não a verdes mais tempo; em vosso enlevo poderíeis pensar que ela se move.
LEONTES - Deixa! Deixa! Quisera estar sem vida, se morto eu já não parecesse há muito. Quem foi o
autor da estátua? Vede, príncipe, não tendes a impressão de que respira? de que estas veias contêm
mesmo sangue?
POLÍXENES - É uma obra-prima; nesses lábios pulsa mais quente a própria vida.
LEONTES - A fixidez do olhar tem movimento. Só parece que a arte zomba de nós. PAULINA - Não;
vou tapá-la. Tão abalado meu senhor se encontra que há de acabar pensando que ela vive.
LEONTES - Cara Paulina, deixa-me durante vinte anos na ilusão de que é assim mesmo. Toda a razão do
mundo vale menos do que a ventura de uma tal insânia.
PAULINA - Causa-me pena, meu senhor, o ter-vos abalado a esse ponto. Poderia vos causar aflição mais
acendrada.
LEONTES - Faze-o, Paulina. Essa aflição me sabe mais docemente que qualquer cordial. Mas sempre
quer-me parecer que dela vero alento se evola. Mas quando houve quem na pedra gravasse o próprio
anélito? Podem zombar de mim, mas vou beijá-la.
PAULINA - Perdão, meu soberano, mas a tinta dos lábios ainda não secou de todo; com vosso beijo
iríeis retirá-la, sobre sujar-vos de óleo da pintura. Puxo a cortina?
LEONTES - Não, nestes vinte anos.
PERDITA - Tanto tempo eu também ficara olhando-a.
PAULINA - Agora decidi-vos; ou da sala vos retirai já já, ou preparai-vos para maior assombro. Se
puderdes olhar a estátua ainda, farei que ela se mova, desça e pela mão vos tome. Mas então heis de crer
- o que protesto - que algum poder perverso me auxilia.
LEONTES - Verei contente tudo o que mandares que ela faça, e ouvirei também de grado quanto ela me
disser, pois é tão fácil fazer que fale, como que se mexa.
PAULINA - É preciso ter fé. Silêncio agora! Ninguém se mexa, salvo se há quem pense que o que eu
vou praticar é condenável. Esse que se retire.
LEONTES - Continua;ninguém sairá daqui.
PAULINA - Desperta-a, música!
(Música.)
Cessai de ser de pedra! É tempo. Vinde! Tocai em todos que vos olham, cheios de admiração. Descei;
deixarei cheio vosso sepulcro. Sim, aproximai-vos! Legai à morte esse torpor, que a vida já vos libertou
dela. Vede-a; move-se.
(Hermíone desce do pedestal.)
Não vos mostreis estupefactos; todos seus atos são sagrados, como foram lícitos meus conjuros.
Recebei-a; do contrário, faríeis que morresse, o que fora matá-la duas vezes. A mão lhe dai; já a corte lhe
fizestes, quando éreis moço. Mas agora, idoso, ela é que vos corteja.
LEONTES (abraçando Hermíone) - Oh! Está quente! Se magia for tudo, seja uma arte tão lícita como o
ato de comer.
POLÍXENIES - Ela o beijou.
CAMILO - Prendeu-se-lhe ao pescoço. Se está viva, que fale.
POLÍXENES - E nos declare onde viveu até hoje e como à morte conseguiu escapar.
PAULINA - Se vos tivessem dito que ela vivia, certamente riríeis como de uma história antiga; mas que
vive é evidente, embora ainda não nos tenha falado. Um momentinho, por obséquio. Formosa senhorita,
é tempo de intervirdes. Ajoelhai-vos. Boa senhora, ouvi: nossa Perdita foi encontrada.
(Paulina apresenta Perdita, que se ajoelha diante de Hermíone.)
HERMÍONE - Ó deuses, contemplai-nos, e de vossas crateras consagradas derramai graças sobre minha
filha! Dize-me, cara, como te salvaste? Onde viveste até hoje? De que modo pudeste achar a casa de teu
pai? Pois devo te dizer que, tendo ouvido de Paulina que o oráculo nos dera esperança de seres
encontrada, deixei-me ficar viva, porque visse como isso acabaria.
PAULINA - Para tanto, tempo haverá de sobra. Do contrário, perturbareis com vossa narrativa a grande
dita de hoje. Ora reuni-vos, vós todos que lucrastes neste dia, e aos demais transmiti vossa ventura,
enquanto eu, pobre rola envelhecida, subirei para algum mirrado galho, para chorar o esposo que nunca
há de retornar para mim, aí deixando-me ficar até morrer.
LEONTES - Oh! não, Paulina! De minha mão receberás marido, como eu de ti a esposa. Isso é um
contrato que entre juras firmamos. Devolveste-me a minha. Como a achaste... eis o problema; pois eu a
vi, ao parecer, defunta, e em vão rezei em sua sepultura. Não terei precisão de ir muito longe - pois em
parte conheço os sentimentos dessa pessoa - para achar um digno marido para ti. Camilo, adianta-te, e
pela mão a toma, pois seu mérito e sua honestidade são notórios e por dois reis agora confirmados.
Saiamos da capela. Como! Os olhos dirige ao meu irmão. Perdão vos peço, por haver posto meu molesto
ciúme entre vossos olhares inocentes. Eis vosso genro, filho de um monarca, que por disposição do céu
se torna de vossa filha noivo. Generosa Paulina, leva-nos daqui, para onde possamos com vagar
interrogar-nos e responder sobre o papel que todos representam no intervalo grande que se escoou desde
a época remota em que nos separamos. Vai na frente.
(Saem.) ?
Paulina, nobres e séquito.
LEONTES - Quanto consolo, minha boa e digna Paulina, estou a dever-te!
PAULINA - Se por vezes, meu soberano, errei, não foi por gosto. Todos os meus serviços sempre foram
compensados de sobra. Mas o fato, senhor, de não vos terdes dedignado, com vosso irmão coroado e os
dois herdeiros, de visitar a minha pobre casa, é excesso de bondade que impossível em toda a vida me
será pagar-vos.
LEONTES - Oh Paulina! Só incômodo vos damos com a honra que dizeis. Mas aqui viemos, para a
estátua admirar de nossa esposa. Atravessamos vossas galerias não sem grande prazer, proporcionado
pela vista de tantas raridades que nela se contêm; mas ainda falta ver o que minha filha tanto almeja: a
estátua da mãe dela.
PAULINA - Assim como ela não teve em vida quem se lhe igualasse, do mesmo modo, creio, sua
imagem inanimada excede tudo quanto pela mão do homem foi jamais criado. Eis a razão de a conservar
à parte. Aqui está ela. Agora preparai-vos para ver como a vida simulada zomba da própria vida, como
nunca da morte o sono o fez. Ei-la! Mirai-a e dizei que é perfeita!
(Paulina afasta uma cortina, deixando ver Hermíone, em posição de estátua.)
Esse silêncio diz bem de vosso espanto; isso me agrada. Mas dizei qualquer coisa. Vós, primeiro, meu
soberano; não é mais ou menos parecida?
LEONTES - Tal qual como era em vida. Não me censures, pedra idolatrada, se eu disser que és
realmente a minha Hermíone. Não, sem me censurares é que és ela, que sempre foi tão branda como a
própria infância, como a graça. Mas, Paulina, Hermíone não tinha tantas rugas; não tinha a idade que
aparenta agora.
POLÍXENES - Oh! muito menos!
PAULINA - Tanto mais nos forçam à admiração os méritos do artista, que a fez envelhecer dezesseis
anos, plasmando-a como se hoje ela vivesse.
LEONTES - Como podia estar ainda, tanto para minha alegria, quanto agora me punge o coração. Oh!
Desse mesmo modo ela estava, com igual aprumo de nobre majestade - vida quente, que ora o calor
perdeu - quando a primeira declaração lhe fiz. Oh! envergonho-me! A pedra não irá lançar-me em rosto
que mais pedra do que ela ora eu pareço? O real obra-prima! Há força mágica em tua majestade, que me
evoca neste momento todos os meus crimes e priva minha filha estarrecida da vida dos sentidos,
transformando-a em pedra, como tu.
PERDITA - Oh! Permiti-me, sem me tachardes de supersticiosa, que eu me ponha de joelho e bênção
peça. Senhora, soberana mui querida, que vos finastes quando eu vim ao mundo, dai-me a mão, porque a
beije!
PAULINA - Oh! mais paciência! A estátua foi concluída há pouco tempo; as cores ainda não estão bem
secas.
CAMILO - Meu senhor, vossa dor tem sido grande todo esse tempo. Dezesseis invernos não a apagaram;
dezesseis estios não puderam secá-la. Nunca vive tanto a alegria; em muito menos tempo qualquer outra
tristeza se matara.
POLÍXENES - Permiti, caro irmão, que quem foi causa de tudo isto, de seu poder se valha para de vós
tirar parte da pena que a ele próprio acabrunha.
PAULINA - Com franqueza, meu senhor, se eu tivesse imaginado que vos abalaríeis tanto à vista de
minha pobre estátua - pois a pedra me pertencia - não vo-la mostrara.
LEONTES - Não corras a cortina.
PAULINA - É conveniente não a verdes mais tempo; em vosso enlevo poderíeis pensar que ela se move.
LEONTES - Deixa! Deixa! Quisera estar sem vida, se morto eu já não parecesse há muito. Quem foi o
autor da estátua? Vede, príncipe, não tendes a impressão de que respira? de que estas veias contêm
mesmo sangue?
POLÍXENES - É uma obra-prima; nesses lábios pulsa mais quente a própria vida.
LEONTES - A fixidez do olhar tem movimento. Só parece que a arte zomba de nós. PAULINA - Não;
vou tapá-la. Tão abalado meu senhor se encontra que há de acabar pensando que ela vive.
LEONTES - Cara Paulina, deixa-me durante vinte anos na ilusão de que é assim mesmo. Toda a razão do
mundo vale menos do que a ventura de uma tal insânia.
PAULINA - Causa-me pena, meu senhor, o ter-vos abalado a esse ponto. Poderia vos causar aflição mais
acendrada.
LEONTES - Faze-o, Paulina. Essa aflição me sabe mais docemente que qualquer cordial. Mas sempre
quer-me parecer que dela vero alento se evola. Mas quando houve quem na pedra gravasse o próprio
anélito? Podem zombar de mim, mas vou beijá-la.
PAULINA - Perdão, meu soberano, mas a tinta dos lábios ainda não secou de todo; com vosso beijo
iríeis retirá-la, sobre sujar-vos de óleo da pintura. Puxo a cortina?
LEONTES - Não, nestes vinte anos.
PERDITA - Tanto tempo eu também ficara olhando-a.
PAULINA - Agora decidi-vos; ou da sala vos retirai já já, ou preparai-vos para maior assombro. Se
puderdes olhar a estátua ainda, farei que ela se mova, desça e pela mão vos tome. Mas então heis de crer
- o que protesto - que algum poder perverso me auxilia.
LEONTES - Verei contente tudo o que mandares que ela faça, e ouvirei também de grado quanto ela me
disser, pois é tão fácil fazer que fale, como que se mexa.
PAULINA - É preciso ter fé. Silêncio agora! Ninguém se mexa, salvo se há quem pense que o que eu
vou praticar é condenável. Esse que se retire.
LEONTES - Continua;ninguém sairá daqui.
PAULINA - Desperta-a, música!
(Música.)
Cessai de ser de pedra! É tempo. Vinde! Tocai em todos que vos olham, cheios de admiração. Descei;
deixarei cheio vosso sepulcro. Sim, aproximai-vos! Legai à morte esse torpor, que a vida já vos libertou
dela. Vede-a; move-se.
(Hermíone desce do pedestal.)
Não vos mostreis estupefactos; todos seus atos são sagrados, como foram lícitos meus conjuros.
Recebei-a; do contrário, faríeis que morresse, o que fora matá-la duas vezes. A mão lhe dai; já a corte lhe
fizestes, quando éreis moço. Mas agora, idoso, ela é que vos corteja.
LEONTES (abraçando Hermíone) - Oh! Está quente! Se magia for tudo, seja uma arte tão lícita como o
ato de comer.
POLÍXENIES - Ela o beijou.
CAMILO - Prendeu-se-lhe ao pescoço. Se está viva, que fale.
POLÍXENES - E nos declare onde viveu até hoje e como à morte conseguiu escapar.
PAULINA - Se vos tivessem dito que ela vivia, certamente riríeis como de uma história antiga; mas que
vive é evidente, embora ainda não nos tenha falado. Um momentinho, por obséquio. Formosa senhorita,
é tempo de intervirdes. Ajoelhai-vos. Boa senhora, ouvi: nossa Perdita foi encontrada.
(Paulina apresenta Perdita, que se ajoelha diante de Hermíone.)
HERMÍONE - Ó deuses, contemplai-nos, e de vossas crateras consagradas derramai graças sobre minha
filha! Dize-me, cara, como te salvaste? Onde viveste até hoje? De que modo pudeste achar a casa de teu
pai? Pois devo te dizer que, tendo ouvido de Paulina que o oráculo nos dera esperança de seres
encontrada, deixei-me ficar viva, porque visse como isso acabaria.
PAULINA - Para tanto, tempo haverá de sobra. Do contrário, perturbareis com vossa narrativa a grande
dita de hoje. Ora reuni-vos, vós todos que lucrastes neste dia, e aos demais transmiti vossa ventura,
enquanto eu, pobre rola envelhecida, subirei para algum mirrado galho, para chorar o esposo que nunca
há de retornar para mim, aí deixando-me ficar até morrer.
LEONTES - Oh! não, Paulina! De minha mão receberás marido, como eu de ti a esposa. Isso é um
contrato que entre juras firmamos. Devolveste-me a minha. Como a achaste... eis o problema; pois eu a
vi, ao parecer, defunta, e em vão rezei em sua sepultura. Não terei precisão de ir muito longe - pois em
parte conheço os sentimentos dessa pessoa - para achar um digno marido para ti. Camilo, adianta-te, e
pela mão a toma, pois seu mérito e sua honestidade são notórios e por dois reis agora confirmados.
Saiamos da capela. Como! Os olhos dirige ao meu irmão. Perdão vos peço, por haver posto meu molesto
ciúme entre vossos olhares inocentes. Eis vosso genro, filho de um monarca, que por disposição do céu
se torna de vossa filha noivo. Generosa Paulina, leva-nos daqui, para onde possamos com vagar
interrogar-nos e responder sobre o papel que todos representam no intervalo grande que se escoou desde
a época remota em que nos separamos. Vai na frente.
(Saem.) ?
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