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ATO V,Cena I

MACBETH,William Shakespeare,ATO V,Cena I

Dunsinane; Um quarto no castelo; Entram um médico e uma camareira.

O MÉDICO - Estive de vigília convosco durante duas noites consecutivas, mas não posso descobrir indício de verdade em tudo o que dissestes; Quando foi que ela andou como sonâmbula pela última vez?

A CAMAREIRA - Desde que Sua Majestade foi para a campanha eu a tenho visto levantar-se da cama, atirar sobre si o roupão de dormir, abrir a escrivaninha, tira uma folha de papel, dobrá-la, escrever alguma coisa, ler o que escreveu, selar depois a folha e voltar em seguida para a cama, fazendo tudo isso, no entanto, no mais profundo sono.

O MÉDICO - É indício de uma grande perturbação da natureza receber os benefícios do sono e executar, simultaneamente, os atos de vigília; Nessa inquietação do sono, além desses passeios e de ocupações concretas, não percebestes se, por vezes, ela dizia alguma coisa?

A CAMAREIRA - Ouvi coisas, senhor, que não me atrevo a repetir.

O MÉDICO - A mim podereis dizer o que ouvistes, sendo mesmo de vantagem que o façais.

A CAMAREIRA - Nem a vós nem a ninguém, uma vez que não tenha testemunha para confirmar o que disser.
(Entra Lady Macbeth, com uma vela.)
Vede! Aí vem ela! É assim mesmo que sempre faz, e, por minha vida, a dormir profundamente. Observai-a; aproximai-vos dela um pouco.

O MÉDICO - Como conseguiu essa luz?

A CAMAREIRA - Ora, estava perto dela; Tem sempre luz ao pé de si; são ordens expressas.

O MÉDICO - Como vedes, está com os olhos bem abertos.

A CAMAREIRA - É certo; mas os sentidos estão fechados.

O MÉDICO - Que faz ela agora? Vede como esfrega as mãos.

A CAMAREIRA - É um gesto habitual nela, fazer como quem lava as mãos; Já a vi continuar desse jeito durante um quarto de hora.

LADY MACBETH - Aqui ainda há uma mancha.

O MEDICO - Atenção! Está falando; Vou tomar nota do que ela disser, para reforçar a memória.

LADY MACBETH - Sai, mancha amaldiçoada! Sai! Estou mandando um dois. Sim, já é tempo de fazê-lo; O inferno é sombrio..Ora, marido! Ora! Um soldado ter modo? Por que termos medo de que alguém o venha a saber, se ninguém poderá pedir contas a nosso poder? Mas quem poderia imaginar que o velho tivesse tanto sangue no corpo?

O MÉDICO - Ouvistes o que ela disse?

LADY MACBETH - O thane de Fife tinha uma mulher; Onde se encontra ela agora? Como! Estas mãos nunca ficarão limpas? Basta, senhor; não falemos mais nisso; Estragais tudo com essa vacilação.

O MÉDICO - Ide, ide! Ficastes sabendo mais do que seria conveniente.

A CAMAREIRA - Ela falou o que não devia, tenho certeza; Só Deus sabe o que ela sabe.

LADY MACBETH - Aqui ainda há odor de sangue; Todo o perfume da Arábia não conseguiria deixar cheirosa esta mãozinha; Oh! Oh! Oh!

O MÉDICO - Que suspiro! Tem o coração por demais opresso.

A CAMAREIRA - Eu não quisera ter no peito um coração assim, nem pelas dignidades de todo o corpo.

O MÉDICO - Bem, bem, bem.

A CAMAREIRA - Rogai a Deus, senhor, para que seja assim.

O MÉDICO - Esta doença ultrapassa minha arte; No entanto, conheci sonâmbulos que morreram santamente em suas camas.

LADY MACBETH - Ide lavar as mãos; vesti vosso roupão de dormir; Não fiqueis assim tão pálido. Torno a dizer-vos que Banquo está enterrado; não poderá sair da sepultura.

O MÉDICO - Também isso?

LADY MACBETH - Para o leito! Para o leito! Estão batendo no por tão; Vinde, vinde! Dai-me a mão; O que está feito não está por fazer; Para o leito, para o leito, para o leito!
(Sai.)

OMÉDICO - E agora, ela vai para o leito?

A CAMAREIRA - Diretamente.

O MÉDICO - Circulam por aí terríveis boatos; feitos contra a natura sempre engendram conseqüências doentias; As consciências manchadas descarregam seus segredos nos surdos travesseiros; Mais de padre tem ela precisão do que de médico; Deus, Deus que nos perdoe! Acompanhai-a; Deixai bem longe dela quanto possa causar-lhe qualquer dano e ora, boa noite; Ela deixou-me o espírito confuso e a vista absorta com tamanho abuso; Penso, mas não me atrevo a dizer nada.

A CAMAREIRA - Boa noite, bom doutor.
(Saem.)

ROMEU E JULIETA, ATO I, Cena III

O mesmo. Um quarto em casa de Capuleto. Entram a senhora Capuleto e a ama.

SENHORA CAPULETO - Ama, onde está Julieta? Vai chamá-la

AMA - Por minha virgindade quando eu tinha doze anos: já a chamei. Minha ovelhinha. Vem cá, meu
coração! Deus me perdoe, mas onde está a menina? Oh, Julieta!
(Entra Julieta.)

JULIETA - Que é que houve? Quem me chama?

AMA - Vossa mãe.

JULIETA - Senhora, aqui estou eu. Que desejais?

SENHORA CAPULETO - Eis o assunto... Ama, deixa-nos sozinhas por algum tempo. Tenho de
falar-lhe muito em particular. Não, ama: volta! Lembrei-me agora que é preciso que ouças nossa
conversa, pois há muito tempo conheces minha filha.

AMA - É certo, posso dizer que idade tem, hora por hora.

SENHORA CAPULETO - Tem quatorze anos incompletos.

AMA - Jogo quatorze de meus dentes - muito embora, para minha aflição, só tenha quatro - em como
não fez ainda quatorze anos. Para um de agosto quanto falta ainda?

SENHORA CAPULETO - Uma quinzena e pouco.

AMA - Pouco ou muito, não importa. O que é certo é que no dia um de agosto completa quatorze anos.
Ela e Susana - Deus ampare as almas cristãs! - eram da mesma idade. Bem; Susana está com Deus. Mas,
como disse: na noite de primeiro ela completa quatorze anos. É certo: quatorze anos. Lembro-me bem.
Desde o tremor de terra, onze anos se passaram. Desmamada foi nesse tempo; nunca hei de esquecê-lo,
pois nos seios passado havia losna, sentada ao sol, embaixo do pombal. Vós e o patrão em Mântua vos
acháveis - Oh! que memória a minha! - Mas, como ia dizendo: quando ela sentiu o gosto de losna no
mamilo e o achou amargo - coisinha tola! - como ficou brava! como bateu nos seios! Nisso, "Crac!" fez o
pombal. Não foi preciso mais para eu mexer-me. Já se passaram, desde então, onze anos. De pé, sozinha,
ela já então ficava. Sim, pela Santa Cruz, podia mesmo correr a cambalear por toda a casa, pois no dia
anterior ferira a testa. Foi quando meu marido - Deus conserve sempre sua alma! Era de gênio alegre -
levantou a menina. 'Sim", disse ele, "cais agora de frente? Pois de costas cairás, quando tiveres mais
espírito. Não é, Julu?" E, pela Santa Virgem, parando de chorar, a pirralhinha respondeu: "Sim". Uma
pilhéria fina verti sempre a tempo. Juro que ainda mesmo que mil anos eu viva, jamais hei de me
esquecer do episódio. Perguntou-lhe: "Não é, Julu?" E aquela pirralhinha parando de chorar, respondeu:
"Sim".

SENHORA CAPULETO - Sobre isso, basta. Fica quieta. peço-te.

AMA - Pois não, senhora; mas não me é possível deixar de rir, ao recordar como ela interrompeu o choro
e disse "Sim". No entretanto, crescera-lhe na testa, jurar posso. um calombo grande como testículo de
galo. Que pancada! E ela chorava amargamente. "É certo", disse-lhe meu marido; "cais de frente, não é
assim? Mas vais cair de costas, quando fores maior. Não é, Julu?" E ela, já sem chorar, respondeu:
"Sim".

JULIETA - Então para também, ama; é o que peço.

AMA - Bem, já acabei. Que Deus te tenha em graça. Foste a criança mais linda que eu criei. Se algum
dia eu puder ver-te casada, é tudo o que desejo.

SENHORA CAPULETO - Pois foi para falar em casamento que te chamei. Filha Julieta, dize-me: em
que disposição estás para isso?

JULIETA - É uma honra com a qual jamais sonhei.

AMA - Honra! Se não tivesses tido apenas uma ama, afirmaria que, com o leite, tinhas mamado juízo.

SENHORA CAPULETO - Pois estamos na época de pensar em casamento. Mais jovens do que vós, aqui
em Verona, senhoras de respeito, já são mães. Se não me engano, vossa mãe tornei-me com a mesma
idade em que ainda sois donzela. Para ser breve: o valoroso Páris requesta vosso amor.

AMA - Que homem, menina! Um homem desses... Não... Em todo o mundo... Só feito de encomenda.

SENHORA CAPULETO - A primavera de Verona não tem mais bela flor.

AMA - Sim, uma flor! A verdadeira flor.

SENHORA CAPULETO - Que dizeis? Sois capaz de amar o jovem? Hoje à noite vê-lo-eis em nossa
festa. Folheai o livro de seu jovem rosto, que nele encontrareis doces encantos escritos pela pena da
beleza. Examinai-lhe os traços delicados e vede como se acham bem casados. E se no livro achardes algo
obscuro, encontrareis nos olhos o esconjuro. Esse manual de amor só necessita de uma capa adequada e
bem bonita. Vive no mar o peixe; é multo certo que deva o amor ficar algo encoberto. As letras de ouro
da lombada a glória terão em parte da formosa história. Ficareis, pois, com ele associada sem que vos
diminuais, com isso, em nada.

AMA - Oh! não diminuirá. Pelo contrário; as mulheres com os homens sempre aumentam.

SENHORA CAPULETO - Enfim, que me dizeis do amor de Páris?

JULIETA - Vou ver se prendo nele os meus olhares. Mas a vista chegar além não há de do que me
consentir vossa vontade.
(Entra um criado.)

CRIADO - Senhora, os hóspedes já chegaram; a comida está na mesa; estais sendo procurada; reclamam
a presença da senhorita; na copa amaldiçoam a ama. Tudo está de pernas para o ar. Tenho de voltar para
servir. Por obséquio, vinde logo, vinde logo.

SENHORA CAPULETO Já te sigo. Julieta, o conde espera.

AMA - Belas noites te almejo; sou sincera.
(Saem.)

ROMEU E JULIETA, ATO II, Cena IV

O mesmo. Uma rua. Entram Benvólio e Mercúcio.

MERCÚCIO - Onde diabo meteu-se esse Romeu? Passou a noite em casa, porventura?

BENVÓLIO - Não na do pai, pois conversei com este.

MERCÚCIO - Oh! é essa mesma Rosalina pálida de coração de pedra que o atormenta, a ponto de
deixá-lo quase louco.

BENVÓLIO - Tebaldo, aquele tipo aparentado com o velho Capuleto, enviou uma carta à casa do pai
dele.

MERCÚCIO - É um desafio, posso jurar.

BENVÓLIO - Romeu vai responder-lhe.

MERCÚCIO - Qualquer pessoa que saiba escrever, pode responder a uma carta.

BENVÓLIO - Não; ele irá mostrar ao autor da carta como sabe desafiar, quando é desafiado.

MERCÚCIO - Ah! pobre Romeu! Já está morto; apunhalado pelos olhos negros de uma donzela branca;

atravessados tem os ouvidos por uma canção de amor; partida a mais secreta cavilha do coração, pela
seta sem barbela do archeiro cego. Será o homem apropriado para enfrentar Tebaldo?

BENVÓLIO - Ora, quem é esse Tebaldo?

MERCÚCIO - Não é nenhum príncipe dos gatos, posso afiançar-vos. Oh! é o valente capitão dos
salamaleques. Bate-se como cantais uma ária, por música, sem perder os tempos, nem o compasso, nem
o tom. Observa suas pausas: uma, duas... A terceira será em vosso peito. Verdadeiro carniceiro dos
botões de seda, um duelista! Um cavalheiro da primeira linha em todas as causas de primeira e segunda
categorias. Ah! o imortal "passado!" o "punto reverso!" o ponto "aí!"

BENVÓLIO - O ponto quê?

MERCÚCIO - A peste que carregue esses pelotiqueiros ridículos, que falam cheios de esses e com
afetação, esses afinadores de novos tons! "Por Jesus, que lâmina excelente! Que belo rapagão! Que
rameira de truz!" Ora, meu velho, não é lamentável que nos vejamos perseguidos por essas moscas
estrangeiras, por esses criadores de modas, esses pardonnez-moi que se escarrancham tão bem nas
últimas maneiras que nem podem sentar-se comodamente em nossos velhos bancos? Oh, e os seus bien,
bien!...
(Entra Romeu.)

BENVÓLIO - Mas sem suas milharas, seco como um bacalhau. Ó carne! carne! como estás peixificada!
Agora ele só aprecia as consonâncias derramadas por Petrarca. Comparada com sua dama, Laura não era
mais do que uma criada de cozinha - com a breca! - mas teve um amante que sabia rimá-la muito bem;
Dido, uma lambisgóia; Cleópatra, uma cigana; Helena e Hero, bruxas e prostitutas; Tisbe, uma sujeitinha
de olho cinzento, ou coisa parecida, mas destituída de importância. Signior Romeu, bom dia! Aqui tendes
uma saudação francesa para vossas bragas francesas. Esta noite passaste-nos uma bela moeda falsa.

ROMEU - Bom dia para ambos. Que moeda falsa vos passei?

MERCÚCIO - A de vila-diogo, senhor! A de vila-diogo! Não me compreendeis?

ROMEU - Perdão, meu Mercúcio; mas tinha um negócio muito importante em mãos; e num caso desses
parece-me lícito forçar um pouco a cortesia.

MERCÚCIO - O que eqüivale a dizer que num caso como o vosso somos forçados a dobrar a perna.

ROMEU - Sim, por cortesia.

MERCÚCIO - Acertastes com muita galantaria.

ROMEU - É uma exposição muito cortês.

MERCÚCIO - É que eu sou um legitimo alfinete da cortesia.

ROMEU - És um alfinete de flor.

MERCÚCIO - Perfeitamente.

ROMEU - Só assim eu ficaria com os sapatos floridos.

MERCÚCIO - Muito espirituoso. Continua com a pilhéria, até gastares os sapatos, porque quando sua

única sola estiver gasta, ficará também sozinha a tua pilhéria singular.

ROMEU - Isso é que se chama pilhéria de sola fina, e apenas espirituosa por ser isso mesmo.

MERCÚCIO - Corre em meu auxílio, bondoso Benvólio, que sinto o espírito desfalecer.

ROMEU - Chicote e espora nele! Chicote e espora nele! Caso contrário, cantarei vitória.

MERCÚCIO - É natural; se o teu espírito tomar parte na corrida de pato, dou-me antecipadamente por
vencido, por teres mais de pato-selvagem em um só dos teus espíritos, do que eu - tenho certeza - em
todos cinco. Mas estive lá contigo por causa de algum pato?

ROMEU - Nunca estiveste comigo que não fosse por causa de alguma pata.

MERCÚCIO - Só por essa brincadeira vou morder-te a ponta da orelha.

ROMEU - Não, bondoso pato, não me mordas.

MERCÚCIO - Teu espírito é uma verdadeira maçã agridoce; possui caldo bem picante.

ROMEU - E não irá bem com uma patinha doce?

MERCÚCIO - É espírito de pele de cabrito, que, espichado, vai de uma polegada à largura de um
côvado.

ROMEU - Pois vou espichá-lo ainda mais, só por causa dessa largura, que acrescentada ao patinho,
prova que não passas de um pato largo.

MERCÚCIO - E não será melhor ser isso do que andar a suspirar de amor? Mas agora, sim, revelas-te
sociável. Agora, sim: és homem; agora és o que és, por arte e natureza. Por que esse teu amor disparatado
é tal qual um grande idiota que corre a cambalear por aí tudo, para, no fim, esconder sua bugiaria em
qualquer buraco.

BENVÓLIO - Pára aí! Pára aí!

MERCÚCIO - Queres que eu corte a minha história e a deixe cotó?

BENVÓLIO - Sim, que do contrário ficaria de rabo muito comprido.

MERCÚCIO - Oh! estás enganado; ficaria curto, pois eu já havia atingido o fundo da história, não
tencionando prosseguir no argumento.

ROMEU - Eis aqui um assunto retesado.
(Entram a ama e Pedro.)

MERCÚCIO - Uma vela! Uma vela!

BENVÓLIO - Duas! duas! Uma camisa e um casaco.

AMA - Pedro!

PEDRO - Que mandais?

AMA - Meu leque, Pedro.

MERCÚCIO - Sim, Pedrinho, para esconder o rosto; por que dos dois, o leque ainda é o mais passável.

AMA - Deus vos dê bom dia, cavalheiros.

MERCÚCIO - E para vós, boa tarde, bela dama.

AMA - Já é boa tarde?

MERCÚCIO - Não será menos, é o que vos digo, porque a mão obscena do mostrador segura neste
momento o ponteiro do meio-dia.

AMA - Ficai longe da minha vista! Que espécie de homem sois?

ROMEU - Um homem, nobre dama, que Deus fez para que ele próprio se estragasse.

AMA - Por minha fé, muito bem dito: "Para que ele próprio se estragasse!" Cavalheiros, algum dos
senhores poderá dizer-me onde eu poderei encontrar o jovem Romeu?

ROMEU - Eu posso; mas no instante em que encontrardes o jovem Romeu, ele estará mais velho do que
quando o procuráveis. Sou eu o mais moço desse nome, em falta de outro pior.

AMA - Dizeis bem.

MERCÚCIO - Como! O pior, então, está bem? Bem apanhado, de fato. Com argúcia, com muita argúcia.

AMA - Se sois ele mesmo, senhor, desejara ter convosco uma conversa particular.

BENVÓLIO - Deve ser convite para alguma ceia.

MERCÚCIO - Uma alcoviteira, uma alcoviteira, oh! oh!

ROMEU - Que estás farejando nisso?

MERCÚCIO - Não será uma lebre, senhor; a menos que seja alguma lebre de pastel de quaresmas já
meio passada e embolorada, antes mesmo de ser comida.
(Canta.)Uma lebre embolorada, uma lebre embolorada na quaresma é um bom petisco. Porém lebre
embolorada vale menos do que nada quando cria muito cisco. Romeu, não ides à casa de vosso pai?
Vamos jantar lá.

ROMEU - Já vos sigo.

MERCÚCIO - Adeus, antiga dama; adeus. (Canta.) Dama, dama, dama...
(Saem Mercúcio e Benvólio.)

AMA - Sim, adeus. Por obséquio, senhor: quem é esse tipo desavergonhado, que só traz velhacarias na
cabeça?

ROMEU - É um cavalheiro, ama, que tem prazer em ouvir a própria voz e que em um minuto prometerá
mais coisas do que possa realizar em um mês.

AMA - Mas se ele disser algo contra minha pessoa, eu o demolirei, ainda que seja mais forte do que
parece, e vinte bobos como ele. E se não puder fazê-lo, saberei encontrar quem o faça por mim.
Piolhento! Não sou nenhuma aloucada; não sou dessas doudivanas. (A Pedro.) E tu, estás ai e permites

que qualquer velhaco faça de mim o que bem entender?

PEDRO - Nunca vi ninguém fazer de vós o que bem entendesse; que, se o visse, minha espada teria
saltado logo da bainha, posso asseverar-vos. Saco da espada com tanta rapidez como qualquer pessoa,
sempre que topo com uma boa briga e tenho a lei de meu lado.

AMA - Agora, diante de Deus, fiquei de tal modo colérica, que sinto todo o corpo tremer. Sujeito à-toa!
Uma palavra, senhor, por obséquio. Como já vos disse, minha jovem senhora mandou que vos
procurasse. O que ela me ordenou que vos dissesse, guardarei dentro de mim. Mas primeiro permiti que
vos diga que se pretendeis levá-la para o paraíso dos loucos, como se diz, seria um péssimo
procedimento, por assim dizer. Porque a senhorita é jovem, e se fizerdes com ela jogo duplo, realmente,
será coisa muito má, para ser feita com uma nobre senhorita, ação muito censurável.

ROMEU - Ama, recomenda-me à tua senhora. Juro-te...

AMA - Oh! que lindeza! Realmente, vou dizer-lhe isso mesmo. Oh Senhor! como ela vai ficar contente!

ROMEU - Mas que é que irás dizer-lhe, ama, se nem ouves o que eu falo?

AMA - Dir-lhe-ei, senhor, que jurastes, o que me parece ser uma promessa de gentil-homem.

ROMEU - Dize-lhe que procure pretexto de hoje à tarde ir confessar-se, que na cela de frei Lourenço ela
há de confessar-se e casar. Agora aceita isto pelo trabalho.

AMA - Não, em verdade, senhor; nem uma moedinha.

ROMEU - Vamos, aceita; estou dizendo.

AMA - Esta tarde, senhor. Bem; estará lá.

ROMEU - Boa mulher, espera um pouco. Dentro de uma hora, atrás do muro da abadia irás ver meu
criado com uma escada de cordas, que há de me levar ao pico do mastaréu de minha grande dita, na
calada da noite. Adeus. Conserva-te fiel que eu saberei recompensar-te. Dá recomendações à senhorita.

AMA - Agora, que Deus do céu te abençoe. Escutai, senhor.

ROMEU - Que disseste, querida ama?

AMA - Poderemos confiar em vosso criado? Pois bem sabeis: dois guardarão segredo, quando um nada
souber de todo o enredo.

ROMEU - Posso asseverar-te que o meu homem é tão firme quanto o aço.

AMA - Muito bem, senhor; minha ama é uma senhora muito gentil. Ah, senhor! senhor! Quando ela
ainda era uma coisinha tagarela... Oh! na cidade há um nobre, um tal Páris, que de muito bom grado
lançaria o seu arpão para abordá-la. Mas aquele coraçãozinho prefere ver um sapo, um sapo de verdade, a
olhar para ele. Às vezes eu a deixo irritada com dizer-lhe que não há moço tão bonito quanto Páris. Mas,
posso asseverar-vos que sempre que eu digo isso ela se torna tão pálida como qualquer cueiro no mundo
universal. Rosmaninho e Romeu não começam pela mesma letra?

ROMEU - Sim, ama. Mas por que isso? Ambos começam por R.

AMA - Isso é rosnado de cão. R é para... Não; sei muito bem que começam por outra letra, tendo ela
composto sobre vós e o rosmaninho as mais lindas sentenças que teríeis muito gosto em ouvir.

ROMEU - Recomenda-me à tua senhora.

AMA - Pois não; mil vezes.
(Sai Romeu.)
Pedro!

PEDRO - Que ordenais?

AMA - Pedro, segura meu leque e vai na frente
(Saem.)

ROMEU E JULIETA, ATO II, Cena V

O mesmo. Jardim de Capuleto.

(Entra Julieta.)

JULIETA - Nove horas o relógio tinha soado, quando eu mandei a ama. Prometeu-me que voltaria dentro
de meia hora. Talvez não o encontrasse... Oh! ela é coxa. Como arautos do amor só deveriam servir os
pensamentos, que mais céleres dez vezes são que os raios do sol claro, quando as sombras expulsam das
colinas. É por isso que o amor sempre é levado por alígeras pombas, e Cupido, como o vento veloz, tem
asas lestes. Agora o sol está na altura máxima de seu curso diurno; há das nove horas até às doze três
horas demoradas. No entanto, ela não chega. Se dotada fosse ela de paixões e sangue moço, correria
veloz como uma bala; minhas palavras a teriam feito lançar-se contra o meu amor, e as dele para mim a
jogara. Mas gente velha nunca chega ao porto; é chumbo escuro e lerdo, quase morto.
(Entram a ama e Pedro.) Oh Deus! ei-la, afinal! Que novidades me trouxeste, doce ama? Acaso o viste?
Manda embora teu criado.

AMA - Pedro, espera lá fora.
(Sai Pedro.)

JULIETA - Então, mãezinha? Oh Deus! Por que estás triste? Se forem tristes tuas novidades, conta-as
alegremente; sendo alegres, não estragues a música, tocando-a com uma cara tão tétrica.

AMA - Deixai-me repousar um momento; estou cansada. Como os ossos me doem! Que corrida!

JULIETA - Quisera que tivesses os meus ossos, e eu, tuas novidades. Vamos; peço-te, boa ama: fala
logo.

AMA - Quanta pressa, Jesus! Não podereis esperar nada? Pois então não notais que estou sem fôlego?

JULIETA - Como sem fôlego, se estás com fôlego bastante para me dizer que fôlego não tens para falar?
Esse pretexto de tanta dilação é mais comprido do que a história a que serve de desculpa. Tuas notícias
são ruins ou boas? Responde-me logo isso, que as minúcias escutarei depois, com mais paciência.
Satisfaze-me nisso: más ou boas?

AMA - Bem; fizestes uma escolha muito simples; não sabeis escolher homem. Romeu... Não, ele não!

Conquanto ele tenha o rosto mais bonito do que não importa quem for, suas pernas levam vantagem
sobre as de todos os homens. Quanto às mãos, pés e o corpo, muito embora nada se tenha a dizer, estão
acima de qualquer confronto. Não é a flor da cortesia; mas, posso asseverar-vos, é manso como um
cordeiro. Prossegui nesse caminho, menina e continuai servindo a Deus. Como! já jantaram por aqui?

JULIETA - Não, não; mas isso tudo eu já sabia. E sobre o casamento, que disse ele?

AMA - Oh! que dor de cabeça! Que cabeça, senhor, a minha! Como bate! Creio que estalar vai em vinte
pedacinhos. E, do outro lado, as costas! Oh! as costas! Oh! que esse coração seja punido por me ter feito
procurar a morte, a galopar sem pausa.

JULIETA - Sim, contrista-me saber que não estás bem. Mas, minha doce, doce ama, que te disse meu
amor?

AMA - Vosso amor disse, como cavalheiro honesto e cortês, e bondoso, e belo, e - posso assegurá-lo -
virtuoso... Onde está vossa mãe?

JULIETA - Onde está minha mãe? Está lá dentro. Onde podia estar? Oh! que resposta! "Vosso amor diz,
qual cavalheiro honesto, onde está vossa mãe?"

AMA - Oh Santa Virgem! Por que tamanho ardor? Ide, vos digo; é essa, somente, vossa cataplasma para
meus pobres ossos? De hoje em diante, de vossas comissões cuidai vós mesma.

JULIETA - Quantos rodeios! E Romeu, que disse?

AMA - Podeis ir confessar? Tendes licença?

JULIETA - Tenho.

AMA - Não percais tempo, então, e à cela correi de frei Lourenço, onde um marido achareis que vos vai
deixar mulher. Ora vos sobe ao rosto o sangue lúbrico; a qualquer nova, torna-se escarlate. Correi à
igreja, que a outra parte eu tenho de ir depressa, prover-me de uma escada, para que vosso amor consiga
o ninho do pássaro alcançar, quando for noite. Besta de carga sou de vossa festa, mas a noite um bom
peso vos apresta. Vou jantar. Ide à cela bem contrita.

JULIETA - Adeus, querida; é para minha dita.
(Saem.)

ROMEU E JULIETA, ATO III, Cena V

O mesmo. Quarto de Julieta. Entram Romeu e Julieta.

JULIETA - Já vais partir? O dia ainda está longe. Não foi a cotovia, mas apenas o rouxinol que o fundo
amedrontado do ouvido te feriu. Todas as noites ele canta nos galhos da romeira. É o rouxinol, amor; crê
no que eu digo.

ROMEU - É a cotovia, o arauto da manhã; não foi o rouxinol. Olha, querida, para aquelas estrias
invejosas que cortam pelas nuvens do nascente. As candeias da noite se apagaram; sobre a ponta dos pés
o alegre dia se põe, no pico das montanhas úmidas. Ou parto, e vivo, ou morrerei, ficando.

JULIETA - Não é do dia aquela claridade, podes acreditar-me. É algum meteoro que o sol exala, para
que te sirva de tocheiro esta noite e te ilumine no caminho de Mântua. Assim, espera. Não precisas partir
assim tão cedo.

ROMEU - Que importa que me prendam, que me matem? Serei feliz, assim, se assim o quiseres. Direi
que aquele ponto acinzentado não é o olho do dia, mas o pálido reflexo do diadema da alta Cíntia, e
também que não foi a cotovia, cujas notas a abóbada celeste tão longe ferem sobre nossas frontes. Ficar é
para mim grande ventura; partir é dor. Vem logo, morte dura! Julieta quer assim. Não, não é dia.

JULIETA - É dia; foge! A noite se abrevia. Depressa! É a cotovia, sim, que canta desafinada e rouca,
discordantes modulações forçando e insuportáveis. Dizem que ela é só fonte de harmonia; não é assim,
pois ora nos divide. Há quem diga que o sapo e a cotovia mudam os olhos. Oh! quisera agora que ambos
a voz também trocado houvessem, pois ela nos separa e, assim tão cedo, como grito de caça mete medo.
Oh vai! A luz aumenta a cada instante.

ROMEU - A luz? A escuridão apavorante.
(Entra a ama.)

AMA - Senhora!

JULIETA - Ama?

AMA - Vossa mãe se dirige para cá. Sede prudente; já raiou o dia, como podereis ver.
(Sai.)

JULIETA - Então, janela, que o dia entre no quarto e a vida fuja.

ROMEU - Adeus, adeus! Um beijo, e desço logo.
(Desce.)

JULIETA - Já foste? Meu senhor! Amor! Amigo! Notícias quero ter todas as horas, porque um minuto
encerra muitos dias. Fazendo a conta assim, ficarei velha antes de ver de novo o meu Romeu.

ROMEU - Adeus. Não deixarei passar um só momento sem te mandar contar o meu tormento. JULIETA
- Oh! pensas mesmo que ainda nos veremos?

ROMEU - Não o duvides; todas estas dores nos servirão ainda unicamente para doces deixar nossos
colóquios.

JULIETA - Oh Deus! Um coração tenho agourento. Vendo-te assim, tão longe, só parece que estás sem
vida, dentro de um sepulcro. Ou vejo mal, ou estás, realmente, pálido.

ROMEU - Podes crer-me, querida; de igual modo tu me pareces. A aflição sedenta nos bebe todo o
sangue. Adeus! Adeus!
(Sai.)

JULIETA - Ó fortuna! fortuna! Os homens todos de inconstante te chamam. Se inconstante fores,
mesmo, que tens a ver com ele, pela fidelidade tão famoso? Sê inconstante, fortuna, pois espero que em
vez de o seqüestrares muito tempo, logo o farás voltar.

SENHORA CAPULETO (dentro) - Ó filha! filha! Já estás de pé?

JULIETA - Quem é que está chamando? É minha mãe? Não se deitou ainda, ou já acordou tão cedo?
Qual o insólito motivo que a faz vir falar-me agora?
(Entra a senhora. Capuleto.)

SENHORA CAPULETO - Então, Julieta, como estás?

JULIETA - Senhora, não estou boa.

SENHORA CAPULETO - Ainda a chorar te achas a morte de teu primo? Acaso queres com lágrimas
tirá-lo do sepulcro? Inda que o conseguisses, impossível te fora dar-lhe vida. Assim, deixa isso. Alguma
dor é indício de amizade; mas muito choro indica pouco espírito.

JULIETA - Mas deixai-me chorar tão grande perda.

SENHORA CAPULETO - Sentis a perda, apenas, não o amigo, cuja perda chorais.

JULIETA - Sentindo a perda tanto assim, outra coisa não me resta senão chorar o amigo.

SENHORA CAPULETO - Sim, menina; não choras tanto pela morte dele, como porque está vivo o
miserável que da vida o privou.

JULIETA - Que miserável, minha senhora?

SENHORA CAPULETO - Esse vilão Romeu.

JULIETA (à parte) - Vilão e ele estejam separados por milhares de léguas. - Que perdoado seja por Deus
como por mim já o foi. Contudo, homem nenhum tanto, como ele, me oprime o coração.

SENHORA CAPULETO - É que esse biltre, esse assassino ainda está com vida.

JULIETA - Sim, e longe do alcance destas mãos. Oh! se eu, tão-só, vingar pudesse a morte do meu
querido primo!

SENHORA CAPULETO - Ainda haveremos de vingá-lo; por isso não te aflijas. Pára, pois, com essas
lágrimas. A Mântua, exílio onde se encontra o renegado, mandarei quem lhe dê uma bebida tão fora do
comum, que logo ele há de companhia fazer para Tebaldo. E assim, espero-o, ficarás contente.

JULIETA - Decerto, nunca ficarei contente com Romeu sem o ter em frente - morto. Assim meu pobre
coração lamenta a perda de meu primo. Se pudésseis, senhora, achar uma pessoa, ao menos, que levasse
o veneno, eu o preparara de modo que Romeu, tomando-o, logo repousaria em paz. Oh! como sente meu
coração ouvir-lhe o nome odioso, sem conseguir aproximar-me dele para vingar o amor que eu dedicava
ao meu primo Tebaldo, sobre o corpo de quem o assassinou.

SENHORA CAPULETO - Encontra os meios, que eu acharei esse homem. Mas agora vim trazer-te
notícias mais alegres.

JULIETA - Vem a tempo a alegria em tal tristeza. E em que consistem essas alegrias, minha senhora,
poderei sabê-lo?

SENHORA CAPULETO - Bem, bem, menina; tens um pai zeloso, que para te livrar dessa tristeza
excogitou um dia de alegria como nem tu esperas, nem eu própria poderia pensar.

JULIETA - Oh! vem a tempo! Mas, senhora, que dia será esse?

SENHORA CAPULETO - Filha, vê só! Na quinta-feira próxima na igreja de São Pedro o conde Páris,
valente moço e nobre gentil-homem, para sua ventura, alegre noiva te fará finalmente.

JULIETA - Ora, por essa igreja de São Pedro, e por São Pedro, de mim não fará ele noiva alegre.
Estranho tanta pressa; por esposo ter eu de receber uma pessoa antes até de me fazer a corte! Dizei,
senhora, a meu senhor e pai, que não quero casar; é muito cedo; e que, quando o fizer, posso jurá-lo,
antes escolherei Romeu, que odeio como bem o sabeis, que o conde Páris. Eis aí novidade de primeira.

SENHORA CAPULETO - Aí vem vosso pai; dizei-lhe tudo isso vós mesma e vede as conseqüências.
(Entram Capuleto e a ama.)

CAPULETO - Quando o sol morre, o céu chuvisca orvalho; mas na morte do filho de meu mano chove
torrencialmente. Então, menina, que goteira é essa? Ainda e sempre em lágrimas? Que é isso? Sempre a
chover? Num corpo pequenino, o mar imitar queres, barco, ventos? Pois teus olhos, a que de mar eu
chamo, fluxo e refluxo mostram, só de lágrimas; teu corpo é o barco nesse mar salgado; teus suspiros, os
ventos, que em conflito permanente com as lágrimas se encontram e que hão de soçobrar-te o frágil
corpo tão maltratado pela tempestade, se não fizer a tempo calmaria. Então, mulher: falastes-lhe a
respeito de nossa decisão?

SENHORA CAPULETO - Sim, conversamos. Ela, porém, com isso não concorda. Muito vos agradece.
Eu desejara que essa tola casasse com seu túmulo.

CAPULETO - Mais devagar, mulher! Levai-me junto! Como! Não quer casar? E ainda agradece? Não se
sente orgulhosa? Não se julga muito feliz - sendo, como é, indigna - por lhe termos obtido um noivo
desses, tão digno gentil-homem?

JULIETA - Orgulhosa não estou, mas vos sou agradecida. Não posso ter orgulho do que odeio; mas
agradeço justamente esse ódio que significa amor.

CAPULETO - Que quer dizer tudo isso? Como assim, minha sofista? "Agradecida" e "não agradecida",
"orgulhosa" e também "não orgulhosa"... Não precisais agradecer-me os vossos agradecidos, nem
mostrar orgulho dos orgulhosos ou o que quer que seja. Mas tratai de aprontar vossas juntinhas galantes
para, quinta-feira próxima, a igreja de São Pedro irdes com Páris. Caso contrário, para lá te levo dentro
de uma carroça. Fora! Fora! carniça doente! Fora, marafona! cara de vela!

SENHORA CAPULETO - Ora essa! Estais maluco?

JULIETA - Bondoso pai, de joelhos vos suplico ouvirdes-me, paciente, uma palavra.

CAPULETO - Vai te enforcar, rapariguinha à-toa! Tipo desobediente! Já te mostro. Vai quinta-feira à
igreja, ou não me encares nunca mais, nunca mais! Não me repliques coisa nenhuma. Basta! Não me
fales. Nos dedos sinto cócegas. Pensávamos, mulher, que nossa dita era pequena, porque Deus só nos
dera uma menina; mas vejo agora que esta já nos sobra e que com ela a maldição nos veio. Rameira
à-toa!

AMA - Deus do céu que a ampare! Procedeis mal, senhor, por insultá-la desse modo.

CAPULETO -- Por quê, dona prudência? Guardai na boca a língua sabe-tudo. Ide mas é ensinar vossas
comadres.

AMA -- De mal não disse nada.

CAPULETO -- Bom proveito.

AMA -- Não se pode falar?

CAPULETO -- Paz, resmungona. Velha tonta! Guardai vossas sentenças para vossas iguais. Não
precisamos delas aqui.

SENHORA CAPULETO -- Estais muito excitado.

CAPULETO -- Sacramento de Deus! É de deixar-me louco de todo. Dias e mais dias, a toda hora, de
noite, o ano inteirinho, no trabalho, no jogo, só, no meio dos companheiros, tinha apenas uma
preocupação: sabê-la, enfim, casada. E agora que arranjei um gentil-homem de nobre parentesco, jovem,
rico, de fina educação, forrado, como se costuma dizer, de qualidades excepcionais, e tão proporcionado
como melhor não fora concebível, lá vem uma coisinha choramingas, uma boneca cheia de lamúrias, ao
lhe sorrir a sorte, declarar-me:"Sou muito nova", "amar não me é possível", "não desejo casar-me",
"desculpai-me, por obséquio". Pois não, vou desculpar-vos, se não quereis casar. Procurai pasto onde
bem entenderdes, que aqui em casa não ficareis comigo. Refleti; vede bem; gracejar não é meu hábito.

Quinta-feira está perto; aconselhai-vos com o coração. Se fordes minha filha, por mim a meu amigo
sereis dada. Mas se o não fordes, enforcai-vos, ide pedir esmola, perecer de fome, morrer na rua, pois --
pela alma o juro! -- jamais hei de reconhecer-te e nunca quanto for meu te poderá ser útil. Reflete bem,
pois não serei perjuro.
(Sai.) JULIETA -- Não haverá piedade em meio às nuvens, para dor me sondar até o mais fundo? Oh!
não me repilais, bondosa mãe! Adiai esse esposório pelo prazo de um mês, uma semana; ou se
impossível vos for tal coisa, preparai o tálamo nupcial no monumento em que Tebaldo se encontra
sepultado.

SENHORA CAPULETO - Não me fales. Não digo nada; faze o que entenderes, que para mim não
representas nada.
(Sai.)

JULIETA - Oh Deus! Ó ama! como evitar isso? Tenho o esposo na terra, a fé, no céu. De que modo essa
fé poderá vir-me de novo para a terra, a menos que ele do céu ma envie, após deixar a terra?
Conforta-me; aconselha-me. Oh tristeza! usar o céu de tais estratagemas com um ser tão delicado! Não
me dizes uma palavra, ao menos? Como pensas, ama? Nenhum consolo?

AMA - Sim, digo isto: Romeu está banido; o mundo todo contra nada, em como ele não retorna para vos
reclamar. Mas ainda mesmo que retorne, forçoso é que isso seja muito às ocultas. Ora, estando as coisas
nesse pé, mais razoável me parece desposardes o conde. Oh! que fidalgo tão gracioso! Romeu, ao lado
dele, não é mais do que um pano de cozinha. Uma águia, senhorita, não tem olhos tão penetrantes, verdes
e bonitos como os de Páris. Quero que maldito fique meu coração, se venturosa não vos fizer este
segundo esposo. De muito o outro ele vence; e ainda mesmo que não vencesse, aquele já está morto, ou é
como se estivesse, por viverdes aqui, sem uso algum fazerdes dele.

JULIETA - Falas de coração?

AMA - E também de alma.

JULIETA - Amém.

AMA - Como?

JULIETA - Soubeste consolar-me maravilhosamente. Vai e dize a minha mãe que por haver deixado meu
pai aborrecido, fui à cela de frei Lourenço, com o fim de confessar-me para ser absolvida.

AMA - Dir-lhe-ei isso; procedeis bem.
(Sai,)

JULIETA - Oh velha amaldiçoada! Oh demônio perverso! Que pecado será maior: querer-me ver
perjura, ou insultar meu senhor com a mesma boca que o exaltou sobre tudo neste mundo tantos milhões
de vezes? Conselheira, podes ir. Dora em diante, separados tu e meu peito estais. Vou ver o monge.
Dar-me-á remédio. Vindo a falhar tudo, porei na morte todo o meu estudo.
(Sai.)