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ATO V, Cena III

MACBETH,William Shakespeare, ATO V, Cena III

Dunsinane; Um quarto no castelo; Entram Macbeth, o médico e pessoas do séqüito

MACBETH - Deixai de me trazer essas notícias; Que fujam todos, pois enquanto a mata de Birnam não chegar a Dunsinane, não poderá manchar-me o frio medo; Que é o pequeno Malcolm? Porventura não
nasceu de mulher? Ora, os espíritos que os processos mortais mui bem conhecem, a meu respeito assim se pronunciaram: "Nada temas, Macbeth, pois nenhum homem nascido de mulher pode vencer-te"Fugi,
portanto, miseráveis thanes, e ide associar-vos aos ingleses lúbricos; Jamais se dobrará meu forte espírito sob o peso da dúvida, nem há de mostrar meu coração menor vontade.
(Entra um criado.)
Que o diabo te condene em negro, biltre de cara de coalhada; Onde encontraste essas feições de ganso?

CRIADO - É que há dez mil..

MACBETH - Gansos, vilão?

CRIADO - Soldados, meu senhor.

MACBETH - Vai esfregar o rosto e de vermelho pintar o medo, fígado de lírio! Que soldados, poltrão? Morte de tua alma! Essas bochechas brancas como linho são ministro do medo; Que soldados, cara de leite?

CRIADO - Não vos desagrade, os soldados ingleses.

MACBETH -Tira a tua cara daqui; Depressa!
(Sai o criado.)
Seyton! Dói-me demais o coração, quando contemplo..Seyton! torno a chamar..Essa batalha vai-me dar alegria para sempre ou tirar-me do trono neste instante; Já vivi muito; minha vida inclina-se para o Outono de folhas amarelas, e a nada do que deve vir no rasto da velhice: amor, honras, obediência, amigos, poderei eu aspirar em lugar disso, maldições, não ditas em voz alta, mas fundas; homenagens à flor da boca apenas, que, de grado o pobre coração contestaria, conquanto não se atreva.Seyton! digo.

SEYTON - Que é o vosso prazer gracioso agora?

MACBETH - Quais são as outras novidades?

SEYTON - Quanto vos disseram, senhor, foi confirmado.

MACBETH - Hei de lutar até que me retalhem toda a carne dos ossos; Dai-me logo minha armadura. Vamos!

SEYTON - Ainda é cedo.

MACBETH - Quero vesti-la já; Mais cavaleiros mandai já limpar a redondeza; Dai-me a armadura. Como vai passando vossa doente, doutor?

O MÉDICO - Não se acha doente, propriamente, senhor, mas perseguida por freqüentes visões que do
repouso de todo a têm privado.

MACBETH - Cura-a disso; Não podes encontrar nenhum remédio para um cérebro doente, da memória tirar uma tristeza enraizada, delir da mente as dores aí escritas e com algum antídoto de oblívio doce e
agradável aliviar o peito que opresso geme ao peso da matéria maldosa que comprime o coração?

O MÉDICO - Para isso deve o doente achar os meios.

MACBETH - Então atira aos cães a medicina; Não quero saber dela; Vamos logo! Minha armadura!
Dai-me o meu bastão; Seyton, manda sair..Doutor, os thanes fogem de mim- Vamos! Mais pressa nisso! - Se examinar, doutor, pudesses a água do meu reino, encontrar a doença dele, restituir-lhe por
meio de uma purga a saúde primeira, tão notória, aplaudir-te-ia que os próprios ecos aplaudissem de novo- Fora! digo - Que ruibarbo, que sene ou droga drástica nos limpará desses ingleses todos? Já ouviste falar deles?

O MÉDICO - Sim, bondoso senhor; vossos reais preparativos nos forçam a ouvir
algo.

MACBETH - Não hei de ter da morte medo inane, se Birnam não vier a Dunsinane.

O MÉDICO (à parte) - E eu se longe estivesse neste dia, nenhum lucro a voltar me obrigaria.
(Saem.)

ATO V, Cena IV

MACBETH,William Shakespeare,ATO V, Cena IV

Planície perto da mata de Dunsinane; Entram com tambores e bandeiras Malcolm, o velho Siward e seu filho, Macduff, Menteith, Caithness, Angus, Lennox, Ross e soldados, marchando.

MALCOLM - Primos, creio que o dia se aproxima de ficarem seguras nossas casas.

MENTEITH - Não o duvidamos.

S1WARD - Que floresta é esta?

MENTEITH - É a floresta de Birnam.

MALCOLM - Que cada homem corte um galho e o carregue, pois, com isso, não só faremos sombra para as tropas, como a erro induziremos o inimigo no cômputo dos nossos.

SOLDADOS - Será feito.

SIWARD - Só o que ouvimos dizer é que o tirano, confiante sempre, em Dunsinane se acha, onde vai resistir ao nosso cerco.

MALCOLM - É nisso que depõe toda a esperança, pois sempre que ocasião se tem mostrado, todos o deixam, grandes e pequenos, só à força o servindo os que ainda restam, mas sem que o coração influa
nisso.

MACDUFF - Que nosso justo juízo aguarde a marcha dos acontecimentos; Enquanto isso, em prática ponhamos toda a nossa ciência de bons soldados.

SIWARD - Está na hora de ficarmos sabendo com certeza quem tem a haver, quem fez maior despesa. Da mente nasce uma esperança inglória; mas dos golpes certeiros, a vitória, que é para onde marchamos.
(Saem marchando.)

ROMEU E JULIETA, ATO II, Cena III

O mesmo. Cela de frei Lourenço. Entra frei Lourenço com um cesto.

FREI LOURENÇO - Ri para a noite escura a manhã bela e de riscas as nuvens acairela; como um
bêbedo, foge cambaleante a escuridão, na estrada do levante, deixando atrás o carro do Titã. Antes,
porém, que o sol venha a manhã tornar alegre, com seu olho ardente e o orvalho desmanchar da flor
pendente, encher vou de sementes perigosas meu paneiro e de flores venenosas. A terra é a mãe e a
tumba da natura; ministra a morte e, assim, apresta a cura. Filhos de vária espécie, no seu seio a mamar
encontramos, sem receio; uns, por várias virtudes, excelentes; cada um com a sua, todos diferentes. Oh! é
admirável a potente graça que há nas ervas, na flor, na pedra crassa, pois até mesmo o que há de vil na
terra algo de bom, influência dela, encerra; nem nada bom existe, que, torcido do uso normal, não se
revele infido à própria natureza e nascimento. Té mesmo a alta virtude, num momento, mal aplicada, em
vício se transforma, e este, por vezes, ao dever dá a norma. Na corola infantil desta florzinha veneno
mora que dá morte asinha. Cheirado, ao corpo todo dá alegria; mas pára o coração no mesmo dia, quando
dado a beber. Dois reis potentes nas plantas e nos homens oponentes acampamento têm: a atroz cobiça e
a graça benfazeja. Se insubmissa se mostra a pior, então vem logo o verme da morte e rói essa plantinha
inerme.
(Entra Romeu.)

ROMEU - Bom dia, meu bom padre.

FREI LOURENÇO -Benedicite! Quem me fala a estas horas? Como! Disse-te algo ruim o coração tão
cedo, que te causasse, assim, cuidado ou medo? Nas pálpebras dos velhos o cuidado de guarda sempre
está; e onde um soldado desses se encontra, o sono não penetra. Mas cedo ou tarde, em plena noite tetra,
quando os membros estende a mocidade despreocupada e livre - bela idade! - domina o sono de ouro. Por
tudo isso tua aparência, assim, de pleno viço, nesta hora matutina me assegura que algo escondes de
grave na postura. Ou então direi, se acaso em erro estou, que esta noite Romeu não se deitou.

ROMEU - Sim, mas tive um repouso papafina.

FREI LOURENÇO - Ah! Deus que te perdoe; com Rosalina?

ROMEU - Rosalina, bom padre? Que pergunta! Esqueci esse nome e a dor adjunta.

FREI LOURENÇO - És meu bom filho. Então, onde estiveste?

ROMEU - Vou te contar, pois permissão me deste. Fui a casa do nosso grande imigo, onde ferido fui,
para castigo, por quem feri também. Nosso remédio só nos poderá vir por intermédio de teu auxílio e
sacra medicina. Santo homem, não agraves minha sina, porque este meu pedido - observa-o bem - a
minha imiga amparará também.

FREI LOURENÇO - Sê mais claro, meu filho; a confissão por enigmas não chega à absolvição.

ROMEU - Ouve então, sem me teres por faceto, que amo a filha do rico Capuleto. Meu coração é dela; o
dela é meu. Tudo está combinado; no apogeu do amor estamos, só faltando, agora, que nos designes o
lugar e a hora para o sagrado enlace. Mais de espaço te contarei, sem alterar um traço, onde nos vimos,
como nos falamos e de que modo os votos confirmamos. Mas não concluas que te falo a esmo; desejo
que nos cases hoje mesmo.

FREI LOURENÇO - Por São Francisco! Que mudança é essa? Rosalina adorada e tão depressa posta no
esquecimento? O coração no amor dos moços nada influi, senão somente os olhos. Ai! Jesus Maria!
Quantas ondas salgadas, noite e dia, a postura banharam-te amarela, só pelo amor de Rosalina bela?
Quanta água salsa em vão jogada fora por um amor que ele não sente agora! Não desfez ainda o sol, em
muitos giros, os vapores, no céu, de teus suspiros. Sinto ainda tuas queixas nos ouvidos. Eis em tua face,
aqui, dos tempos idos, uma lágrima ainda não lavada, que origem teve em tua namorada. Se o mesmo
ainda és, que só de amor se fina, foi causa de tudo isso Rosalina. Mudaste tanto? Ouve a sentença amara:
cai a mulher, quando o homem não a ampara.

ROMEU - Censuravas o amor a Rosalina.

FREI LOURENÇO - Não o amor, o exagero que se fina.

ROMEU - Disseste que o enterrasse.

FREI LOURENÇO - Não em cova, para aqui fora achar paixão mais nova.

ROMEU - Não me censures, pois a minha amada na afeição não me fica a dever nada, o que com a outra
não acontecia.

FREI LOURENÇO - Oh! Explica-se: é que ela bem sabia que o amor era de cor, não soletrava. Mas vem
contar-me essa paixão tão brava, meu jovem sonhador. Vem, vem comigo, que nesse lance me terás
contigo, pois é possível que tão bela aliança faça mudar esse ódio que não cansa.

ROMEU - Oh! Vamos logo. Estou com muita pressa.

FREI LOURENÇO - Prudência! Quem mais corre mais tropeça.
(Saem.)

ROMEU E JULIETA, ATO III, Cena V

O mesmo. Quarto de Julieta. Entram Romeu e Julieta.

JULIETA - Já vais partir? O dia ainda está longe. Não foi a cotovia, mas apenas o rouxinol que o fundo
amedrontado do ouvido te feriu. Todas as noites ele canta nos galhos da romeira. É o rouxinol, amor; crê
no que eu digo.

ROMEU - É a cotovia, o arauto da manhã; não foi o rouxinol. Olha, querida, para aquelas estrias
invejosas que cortam pelas nuvens do nascente. As candeias da noite se apagaram; sobre a ponta dos pés
o alegre dia se põe, no pico das montanhas úmidas. Ou parto, e vivo, ou morrerei, ficando.

JULIETA - Não é do dia aquela claridade, podes acreditar-me. É algum meteoro que o sol exala, para
que te sirva de tocheiro esta noite e te ilumine no caminho de Mântua. Assim, espera. Não precisas partir
assim tão cedo.

ROMEU - Que importa que me prendam, que me matem? Serei feliz, assim, se assim o quiseres. Direi
que aquele ponto acinzentado não é o olho do dia, mas o pálido reflexo do diadema da alta Cíntia, e
também que não foi a cotovia, cujas notas a abóbada celeste tão longe ferem sobre nossas frontes. Ficar é
para mim grande ventura; partir é dor. Vem logo, morte dura! Julieta quer assim. Não, não é dia.

JULIETA - É dia; foge! A noite se abrevia. Depressa! É a cotovia, sim, que canta desafinada e rouca,
discordantes modulações forçando e insuportáveis. Dizem que ela é só fonte de harmonia; não é assim,
pois ora nos divide. Há quem diga que o sapo e a cotovia mudam os olhos. Oh! quisera agora que ambos
a voz também trocado houvessem, pois ela nos separa e, assim tão cedo, como grito de caça mete medo.
Oh vai! A luz aumenta a cada instante.

ROMEU - A luz? A escuridão apavorante.
(Entra a ama.)

AMA - Senhora!

JULIETA - Ama?

AMA - Vossa mãe se dirige para cá. Sede prudente; já raiou o dia, como podereis ver.
(Sai.)

JULIETA - Então, janela, que o dia entre no quarto e a vida fuja.

ROMEU - Adeus, adeus! Um beijo, e desço logo.
(Desce.)

JULIETA - Já foste? Meu senhor! Amor! Amigo! Notícias quero ter todas as horas, porque um minuto
encerra muitos dias. Fazendo a conta assim, ficarei velha antes de ver de novo o meu Romeu.

ROMEU - Adeus. Não deixarei passar um só momento sem te mandar contar o meu tormento. JULIETA
- Oh! pensas mesmo que ainda nos veremos?

ROMEU - Não o duvides; todas estas dores nos servirão ainda unicamente para doces deixar nossos
colóquios.

JULIETA - Oh Deus! Um coração tenho agourento. Vendo-te assim, tão longe, só parece que estás sem
vida, dentro de um sepulcro. Ou vejo mal, ou estás, realmente, pálido.

ROMEU - Podes crer-me, querida; de igual modo tu me pareces. A aflição sedenta nos bebe todo o
sangue. Adeus! Adeus!
(Sai.)

JULIETA - Ó fortuna! fortuna! Os homens todos de inconstante te chamam. Se inconstante fores,
mesmo, que tens a ver com ele, pela fidelidade tão famoso? Sê inconstante, fortuna, pois espero que em
vez de o seqüestrares muito tempo, logo o farás voltar.

SENHORA CAPULETO (dentro) - Ó filha! filha! Já estás de pé?

JULIETA - Quem é que está chamando? É minha mãe? Não se deitou ainda, ou já acordou tão cedo?
Qual o insólito motivo que a faz vir falar-me agora?
(Entra a senhora. Capuleto.)

SENHORA CAPULETO - Então, Julieta, como estás?

JULIETA - Senhora, não estou boa.

SENHORA CAPULETO - Ainda a chorar te achas a morte de teu primo? Acaso queres com lágrimas
tirá-lo do sepulcro? Inda que o conseguisses, impossível te fora dar-lhe vida. Assim, deixa isso. Alguma
dor é indício de amizade; mas muito choro indica pouco espírito.

JULIETA - Mas deixai-me chorar tão grande perda.

SENHORA CAPULETO - Sentis a perda, apenas, não o amigo, cuja perda chorais.

JULIETA - Sentindo a perda tanto assim, outra coisa não me resta senão chorar o amigo.

SENHORA CAPULETO - Sim, menina; não choras tanto pela morte dele, como porque está vivo o
miserável que da vida o privou.

JULIETA - Que miserável, minha senhora?

SENHORA CAPULETO - Esse vilão Romeu.

JULIETA (à parte) - Vilão e ele estejam separados por milhares de léguas. - Que perdoado seja por Deus
como por mim já o foi. Contudo, homem nenhum tanto, como ele, me oprime o coração.

SENHORA CAPULETO - É que esse biltre, esse assassino ainda está com vida.

JULIETA - Sim, e longe do alcance destas mãos. Oh! se eu, tão-só, vingar pudesse a morte do meu
querido primo!

SENHORA CAPULETO - Ainda haveremos de vingá-lo; por isso não te aflijas. Pára, pois, com essas
lágrimas. A Mântua, exílio onde se encontra o renegado, mandarei quem lhe dê uma bebida tão fora do
comum, que logo ele há de companhia fazer para Tebaldo. E assim, espero-o, ficarás contente.

JULIETA - Decerto, nunca ficarei contente com Romeu sem o ter em frente - morto. Assim meu pobre
coração lamenta a perda de meu primo. Se pudésseis, senhora, achar uma pessoa, ao menos, que levasse
o veneno, eu o preparara de modo que Romeu, tomando-o, logo repousaria em paz. Oh! como sente meu
coração ouvir-lhe o nome odioso, sem conseguir aproximar-me dele para vingar o amor que eu dedicava
ao meu primo Tebaldo, sobre o corpo de quem o assassinou.

SENHORA CAPULETO - Encontra os meios, que eu acharei esse homem. Mas agora vim trazer-te
notícias mais alegres.

JULIETA - Vem a tempo a alegria em tal tristeza. E em que consistem essas alegrias, minha senhora,
poderei sabê-lo?

SENHORA CAPULETO - Bem, bem, menina; tens um pai zeloso, que para te livrar dessa tristeza
excogitou um dia de alegria como nem tu esperas, nem eu própria poderia pensar.

JULIETA - Oh! vem a tempo! Mas, senhora, que dia será esse?

SENHORA CAPULETO - Filha, vê só! Na quinta-feira próxima na igreja de São Pedro o conde Páris,
valente moço e nobre gentil-homem, para sua ventura, alegre noiva te fará finalmente.

JULIETA - Ora, por essa igreja de São Pedro, e por São Pedro, de mim não fará ele noiva alegre.
Estranho tanta pressa; por esposo ter eu de receber uma pessoa antes até de me fazer a corte! Dizei,
senhora, a meu senhor e pai, que não quero casar; é muito cedo; e que, quando o fizer, posso jurá-lo,
antes escolherei Romeu, que odeio como bem o sabeis, que o conde Páris. Eis aí novidade de primeira.

SENHORA CAPULETO - Aí vem vosso pai; dizei-lhe tudo isso vós mesma e vede as conseqüências.
(Entram Capuleto e a ama.)

CAPULETO - Quando o sol morre, o céu chuvisca orvalho; mas na morte do filho de meu mano chove
torrencialmente. Então, menina, que goteira é essa? Ainda e sempre em lágrimas? Que é isso? Sempre a
chover? Num corpo pequenino, o mar imitar queres, barco, ventos? Pois teus olhos, a que de mar eu
chamo, fluxo e refluxo mostram, só de lágrimas; teu corpo é o barco nesse mar salgado; teus suspiros, os
ventos, que em conflito permanente com as lágrimas se encontram e que hão de soçobrar-te o frágil
corpo tão maltratado pela tempestade, se não fizer a tempo calmaria. Então, mulher: falastes-lhe a
respeito de nossa decisão?

SENHORA CAPULETO - Sim, conversamos. Ela, porém, com isso não concorda. Muito vos agradece.
Eu desejara que essa tola casasse com seu túmulo.

CAPULETO - Mais devagar, mulher! Levai-me junto! Como! Não quer casar? E ainda agradece? Não se
sente orgulhosa? Não se julga muito feliz - sendo, como é, indigna - por lhe termos obtido um noivo
desses, tão digno gentil-homem?

JULIETA - Orgulhosa não estou, mas vos sou agradecida. Não posso ter orgulho do que odeio; mas
agradeço justamente esse ódio que significa amor.

CAPULETO - Que quer dizer tudo isso? Como assim, minha sofista? "Agradecida" e "não agradecida",
"orgulhosa" e também "não orgulhosa"... Não precisais agradecer-me os vossos agradecidos, nem
mostrar orgulho dos orgulhosos ou o que quer que seja. Mas tratai de aprontar vossas juntinhas galantes
para, quinta-feira próxima, a igreja de São Pedro irdes com Páris. Caso contrário, para lá te levo dentro
de uma carroça. Fora! Fora! carniça doente! Fora, marafona! cara de vela!

SENHORA CAPULETO - Ora essa! Estais maluco?

JULIETA - Bondoso pai, de joelhos vos suplico ouvirdes-me, paciente, uma palavra.

CAPULETO - Vai te enforcar, rapariguinha à-toa! Tipo desobediente! Já te mostro. Vai quinta-feira à
igreja, ou não me encares nunca mais, nunca mais! Não me repliques coisa nenhuma. Basta! Não me
fales. Nos dedos sinto cócegas. Pensávamos, mulher, que nossa dita era pequena, porque Deus só nos
dera uma menina; mas vejo agora que esta já nos sobra e que com ela a maldição nos veio. Rameira
à-toa!

AMA - Deus do céu que a ampare! Procedeis mal, senhor, por insultá-la desse modo.

CAPULETO -- Por quê, dona prudência? Guardai na boca a língua sabe-tudo. Ide mas é ensinar vossas
comadres.

AMA -- De mal não disse nada.

CAPULETO -- Bom proveito.

AMA -- Não se pode falar?

CAPULETO -- Paz, resmungona. Velha tonta! Guardai vossas sentenças para vossas iguais. Não
precisamos delas aqui.

SENHORA CAPULETO -- Estais muito excitado.

CAPULETO -- Sacramento de Deus! É de deixar-me louco de todo. Dias e mais dias, a toda hora, de
noite, o ano inteirinho, no trabalho, no jogo, só, no meio dos companheiros, tinha apenas uma
preocupação: sabê-la, enfim, casada. E agora que arranjei um gentil-homem de nobre parentesco, jovem,
rico, de fina educação, forrado, como se costuma dizer, de qualidades excepcionais, e tão proporcionado
como melhor não fora concebível, lá vem uma coisinha choramingas, uma boneca cheia de lamúrias, ao
lhe sorrir a sorte, declarar-me:"Sou muito nova", "amar não me é possível", "não desejo casar-me",
"desculpai-me, por obséquio". Pois não, vou desculpar-vos, se não quereis casar. Procurai pasto onde
bem entenderdes, que aqui em casa não ficareis comigo. Refleti; vede bem; gracejar não é meu hábito.

Quinta-feira está perto; aconselhai-vos com o coração. Se fordes minha filha, por mim a meu amigo
sereis dada. Mas se o não fordes, enforcai-vos, ide pedir esmola, perecer de fome, morrer na rua, pois --
pela alma o juro! -- jamais hei de reconhecer-te e nunca quanto for meu te poderá ser útil. Reflete bem,
pois não serei perjuro.
(Sai.) JULIETA -- Não haverá piedade em meio às nuvens, para dor me sondar até o mais fundo? Oh!
não me repilais, bondosa mãe! Adiai esse esposório pelo prazo de um mês, uma semana; ou se
impossível vos for tal coisa, preparai o tálamo nupcial no monumento em que Tebaldo se encontra
sepultado.

SENHORA CAPULETO - Não me fales. Não digo nada; faze o que entenderes, que para mim não
representas nada.
(Sai.)

JULIETA - Oh Deus! Ó ama! como evitar isso? Tenho o esposo na terra, a fé, no céu. De que modo essa
fé poderá vir-me de novo para a terra, a menos que ele do céu ma envie, após deixar a terra?
Conforta-me; aconselha-me. Oh tristeza! usar o céu de tais estratagemas com um ser tão delicado! Não
me dizes uma palavra, ao menos? Como pensas, ama? Nenhum consolo?

AMA - Sim, digo isto: Romeu está banido; o mundo todo contra nada, em como ele não retorna para vos
reclamar. Mas ainda mesmo que retorne, forçoso é que isso seja muito às ocultas. Ora, estando as coisas
nesse pé, mais razoável me parece desposardes o conde. Oh! que fidalgo tão gracioso! Romeu, ao lado
dele, não é mais do que um pano de cozinha. Uma águia, senhorita, não tem olhos tão penetrantes, verdes
e bonitos como os de Páris. Quero que maldito fique meu coração, se venturosa não vos fizer este
segundo esposo. De muito o outro ele vence; e ainda mesmo que não vencesse, aquele já está morto, ou é
como se estivesse, por viverdes aqui, sem uso algum fazerdes dele.

JULIETA - Falas de coração?

AMA - E também de alma.

JULIETA - Amém.

AMA - Como?

JULIETA - Soubeste consolar-me maravilhosamente. Vai e dize a minha mãe que por haver deixado meu
pai aborrecido, fui à cela de frei Lourenço, com o fim de confessar-me para ser absolvida.

AMA - Dir-lhe-ei isso; procedeis bem.
(Sai,)

JULIETA - Oh velha amaldiçoada! Oh demônio perverso! Que pecado será maior: querer-me ver
perjura, ou insultar meu senhor com a mesma boca que o exaltou sobre tudo neste mundo tantos milhões
de vezes? Conselheira, podes ir. Dora em diante, separados tu e meu peito estais. Vou ver o monge.
Dar-me-á remédio. Vindo a falhar tudo, porei na morte todo o meu estudo.
(Sai.)

ROMEU E JULIETA, ATO IV, Cena V

O mesmo. Quarto de Julieta.

(Entra a ama.)

AMA - Senhora, olá! Julieta! É quase certo que ainda esteja a dormir. Eh, ovelhinha! Então, senhora?
Então? Que dorminhoca! Então, amor? Senhora! Estou chamando... Coraçãozinho! Noiva!... Como!
Muda? Agora desforrais a vossa parte, dormindo uma semana; mas garanto-vos que na noite que vem o
Conde Páris repouso não terá, porque repouso também não possais ter. Deus me perdoe. Santa Virgem e
amém! Que sono calmo! Mas preciso acordá-la. Olá, senhora! Que o conde venha vos tirar da cama, e
hei de vos espantar. Não falei certo? Como assim? Já vestistes toda a roupa, e outra vez a dormir? Vou
despertá-la, Senhora! Olá!... Oh Deus!... Socorro! A patroa está morta!... Aqui!... Socorro! Oh dia triste!
Assim nunca eu nascesse. Aqua vitae! Senhor! Senhora!... Acudam!..
(Entra a senhora Capuleto.)

SENHORA CAPULETO - Que barulheira é essa?

AMA - Oh dia triste!

SENHORA CAPULETO - Que aconteceu?

AMA - Olhai, senhora... Oh dia!

SENHORA CAPULETO - Oh! minha única filha! Minha filha! Reanima-te, olha para mim, ou deixa-me
morrer também contigo. Aqui! Socorro! Vai chamar gente!
(Entra Capuleto.)

CAPULETO - Que vergonha! Trazei Julieta logo; o noivo já chegou.

AMA - Está sem vida, morta, sem vida! Oh dia desgraçado!

SENHORA CAPULETO - Oh que dia! Morreu! Morreu! Morreu!

CAPULETO - Deixai-me vê-la. Oh dor! Já está gelada. O sangue está parado; os membros, duros. Estes
lábios e a vida há muito tempo separados já estão. A morte se acha sobre ela como geada mui precoce
sobre a flor mais gentil de todo o campo.

AMA - Oh dia lamentável!

SENHORA CAPULETO - Oh tristeza!

CAPULETO - A morte que a tirou de mim com o fito de fazer-me gemer, a língua me ata, não me
deixando pronunciar palavra.
(Entram frei Lourenço e Páris, com músicos.)

FREI LOURENÇO - A noiva já está pronta para a igreja?

CAPULETO - Sim, para ir para a igreja, sem que nunca possa de lá voltar. Ó filho, a morte, na véspera
do dia de tuas núpcias, deitou-se com tua noiva; é minha herdeira; cortejou minha filha. Morrer quero,
para levar à morte o que possuo: vida, bens; tudo é dela.

PÁRIS - Quis tanto ver a face deste dia, para enfim contemplar este espetáculo?

SENHORA CAPULETO - Dia infeliz, maldito, desgraçado! A hora mais triste que já viu o tempo em
toda a sua peregrinação comprida e laboriosa. Uma só filha, uma só, pobre filha, e tão amada, para gozo
e consolo um ser apenas, e a cruel morte arrancar-ma, assim, da vista

AMA - Oh dia triste! Oh dia triste! Oh dor! O dia mais escuro e lamentável que eu vi em toda. a vida. Oh
dia triste! Oh dia odioso! Oh dia! Oh dia triste Nunca vi dia de tão densas trevas. Oh dia triste! Oh dia!

PÁRIS - Ludibriado, ofendido, separado desprezado, destruído... Morte odiosa, ludibriado por ti, por ti,
cruel morte, arruinado de todo. Oh amor! Oh vida...! Não, vida não: amor na própria morte!

CAPULETO - Odiado, desprezado, desolado, martirizado, morto! Inconsolável tempo, por que motivo
vieste agora matar, matar nossa solenidade? Oh filha! Filha, não: alma querida! Já não vives! morreste!
Ah! minha filha já não vive e, com ela, sepultada vai ser minha alegria.

FREI LOURENÇO - Calma! peço-vos; a cura da desordem vir não pode da desorientação. Tal como vós,
tinha o céu parte nesta bela criança. Agora o céu tem tudo, o que é, por certo, melhor para a donzela. Não
vos fora possível subtrair da morte a parte que tínheis nela, mas o céu à dele vida eterna vai dar. O que
queríeis era vê-la elevada; todo o vosso céu consistia justamente nisso. E agora a lastimais, vendo-a
exaltada, tão acima das nuvens, no alto céu? Com vosso amor amais a vossa filha tão mal que vos
mostrais desesperados por sabê-la tão bem? As bem casadas não são as que assim vivem muito tempo;
mas bem casada está quem morre cedo. Interrompei o pranto; sobre o belo corpo espalhai bastante
rosmaninho, e, tal como é de praxe, em suas vestes mais vistosas levai-o para a igreja. Embora chorar
mande a natureza, ri a razão ao choro da tristeza.

CAPULETO - Tudo o que havia para o festival usado ora vai ser no funeral. Os instrumentos viram
melancólicos sinos; nosso festim, jantar funéreo; nossos hinos solenes, puras nênias; as flores nupciais
irão de enfeite servir para o cadáver, transmudando-se, assim, em seu contrário as coisas todas.

FREI LOURENÇO - Retirai-vos, senhor; acompanhai-o, minha senhora; e vós, conde, também. Que
todos se preparem para o belo corpo levar à tumba. Porventura o céu vos pune por qualquer maldade; não
o irriteis, pois essa é a sua vontade.
(Saem Capuleto, a senhora Capuleto, Páris e monge.)

PRIMEIRO MÚSICO - Por minha fé, podemos guardar as gaitas e ir embora.

AMA - Ah! meus homens, guardai-as, guardai-as, que isso é um caso doloroso!

PRIMEIRO MÚSICO - Oh! é certo; poderia ser melhor.

(Entra Pedro.)

PEDRO - Músicos! Olá! "Alegra-te, coração !"Alegra-te, coração!" Se quereis que eu viva, tocai
"Alegra-te coração!"

PRIMEIRO MÚSICO - Por que "Alegra-te, coração?"

PEDRO - Oh! músicos, porque meu próprio coração toca "O coração me pesa de tristeza". Oh! tocai uma
litania alegre, para reconfortar-me.

SEGUNDO MÚSICO - Não, nada de litanias; não é hora de tocar música.

PEDRO - Então não quereis tocar?

MÚSICOS - Não.

PEDRO - Nesse caso vou tratar-vos como o mereceis.

PRIMEIRO MÚSICO - De que modo pretendes tratar-nos?

PEDRO - Não será com dinheiro, é claro; mas com pilhérias. Vou arranjar-vos um arranhador de rabeca.

PRIMEIRO MÚSICO - Nesse caso eu arranjarei para ti um servente de cozinheiro.

PEDRO - E eu vos atirarei na cabeça a faca do servente de cozinheiro. Eu sou assim; não levo semínimas
para casa. Vou fazer de vós ré e fá. Tomastes nota?

PRIMEIRO MÚSICO - Se de nós fizerdes ré e fá, viraremos notas.

SEGUNDO MÚSICO - Por obséquio, por obséquio: esconde essa faca e mostra o espírito.

PEDRO - Tomai cuidado com meu espirito! Vou malhar-vos com meu espírito de aço e embainhar
minha faca. Respondei-me como homens: Quando a dor e a tristeza libertinas me oprimem a cabeça e o
coração, a música de notas argentinas... Por que "notas argentinas"? Por que "música de notas
argentinas"? Que dizeis a isso, Simão Catling?

PRIMEIRO MÚSICO - Ora, senhor, porque a prata tem um som agradável.

PEDRO - Tolice! Que pensais, Hugo Rabeca?

SEGUNDO MÚSICO - Penso que "notas argentinas" significam que os músicos tocam suas notas para
adquirir prata.

PEDRO - Oh! peço perdão. E sois cantores! Vou dar a explicação por vós. A frase "música de notas
argentinas" significa que os músicos nunca vêem ouro com suas notas...a música de notas argentinas com
seu poder me deixa outra vez são.

PRIMEIRO MÚSICO - Que sujeito pestilencioso!

SEGUNDO MÚSICO - Que se enforque! Vamos; entremos, para assistir ao enterro e esperar pelo jantar.
(Saem.)

REI LEAR, ATO III, Cena IV

A charneca. Diante de uma choupana. Entram Lear, Kent e o bobo.

KENT - É aqui, senhor. Meu bom senhor, entrai. É por demais severa a tirania da noite descoberta, para
as forças de nossa natureza.
(A tempestade continua.)

LEAR - Não; afasta-te! Desejo ficar só.

KENT - Entrai aqui, senhor.

LEAR - Quereis partir-me o coração?

KENT - Primeiro partiria o meu. Bondoso senhor, entrai.

LEAR - Estais fazendo grande cabedal desta chuva revoltada, que nos molha até os ossos. É que a sentes
dessa maneira. Porém quando a doença maior penetra, as outras não se sentem. Se corres do urso, mas
em tua fuga fores bater nas ondas rugidoras, voltarás frente para a goela dele. Livre o espírito, o corpo é
delicado. A tempestade que na mente eu trago nada me deixa perceber por meio dos sentidos, afora o que
ali bate: a ingratidão filial. Não fora o mesmo, se a boca decepar quisesse a mão que até ela se alça para
alimentá-la? Mas saberei tomar cabal vingança. Cessarei de chorar. Fechar-me a porta numa noite como
esta! Mais! Despeja, que hei de agüentar! E numa noite assim! Ah Goneril! Regane! Vosso velho pai, tão
bondoso, que vos dera tudo com franco coração! Oh! A loucura vem desse lado. Vamos evitá-la. Sobre

isso, basta.

KENT - Bem, milorde; entremos.

LEAR - Não; por favor, primeiro tu; procura tua comodidade. Este aguaceiro me impede de cuidar de
muitas coisas que muito maior dor me causariam. Mas vou entrar. (Ao bobo.) Menino, vai na frente.
Pobreza sem abrigo... Entra, entra logo. Rezo primeiro; dormirei depois.
(O bobo entra na choupana.)
Onde quer que estejais, pobres sem roupa, que os golpes suportais desta impiedosa tempestade, dizei-me:
de que modo vossos flancos mirrados e as cabeças desprotegidas, vossos trapos ricos em furos e janelas
hão de o corpo vos proteger numa estação como esta? Oh! muito pouco me ocupei com isso! Cura-te,
fausto! Vai sentir o mesmo que os miseráveis sentem, porque possas sobre eles derramar o teu supérfluo
e os céus mostrar mais justos.

EDGAR (dentro) - Pobre Tom! Braça e meia! Braça e meia!
(O bobo sai a correr da choupana.)

BOBO - Não entres aí, meu tio! Há um espírito lá dentro. Socorro! Socorro!

KENT - Dá-me a mão. Quem está lá?

BOBO - Um espírito! Um espírito! Ele disse que se chama o pobre Tom.

KENT - Quem és tu, que te pões a rosnar assim na palha? Vem para fora!
(Entra Edgar, disfarçado de demente.)

EDGAR - Afastai-vos, que o imigo me acompanha. Através do espinheiro sopra o vento; vê se te
aqueces em teu leito frio.

LEAR - Deste às tuas duas filhas tudo o que tinhas, para ficares desse jeito?

EDGAR - Quem dá alguma coisa para o pobre Tom? O maligno o levou através do fogo, através da
flama, através do vau e do redemoinho, através do lamaçal e do charco; pôs facas embaixo de seu
travesseiro e corda em sua cama; armou ratoeira em sua sopa; deixou-o orgulhoso por poder montar num
cavalo baio trotão, por cima das pontes de quatro polegadas, em perseguição da própria sombra, como
um traidor. Que sejam abençoados os teus cinco espíritos. Tom está com frio. Oh! do dê, do dê, do dê!
Que o céu te ampare contra os furacões, estrelas funestas e malefícios. Fazei alguma caridade ao pobre
Tom, que o demônio impuro atormenta. Poderia pegá-lo agora, e aqui, e ali outra vez, e aqui...

LEAR - Como! Suas filhas o trouxeram a isso? Nada te reservaste? Deste tudo?

BOBO - Não! Ele reservou para si um cobertor; caso contrário, teríamos do que nos envergonharmos.

LEAR - Que caiam sobre tuas filhas todas as misérias que impendem do ar e ameaçam os pecados dos
homens!

KENT - Senhor, ele não tem filhas.

LEAR - Morre, traidor! Pois nada poderia rebaixar de tal modo a natureza, senão filhas ingratas. Será
moda que os pais, depois de despedidos, tenham tão pouca pena de sua própria carne? Castigo judicioso,
que essa carne deu nascimento às filhas-pelicanas.

EDGAR - Pilicoc se achava empoleirado no monte Pilicoc! Alô! Alô! Oh oh!

BOBO - Esta noite gelada vai acabar fazendo de nós todos bobos ou loucos.

EDGAR - Acautela-te contra o maligno; obedece a teus pais; mantém tua palavra; não jures; não cometas
adultério com a esposa legítima do teu próximo; não enfeites tua morada com atavios vãos. Tom está
com frio.

LEAR - Que eras antes?

EDGAR - Um moço de servir, de coração e espírito altivos, que frisava os cabelos, trazia luvas no
chapéu, satisfazia a luxúria da patroa, perpetrando com ela o ato das trevas; fazia tantos juramentos
quantas palavras pronunciava, para violá-los ante a doce face do céu; um tipo que adormecia com planos
de libertinagem e acordava para pô-los em prática. Amava de coração o vinho, os dados, com a máxima
ternura; e com relação às mulheres, metia na massa o próprio turco; coração falso, ouvídos levianos,
mãos sanguinárias. Porco, na preguiça; raposa, na astúcia; lobo, na voracidade; cão, na raiva; leão, na
pilhagem. Não deixes que o ranger dos sapatos e o ruído das sedas entregues às mulheres teu pobre
coração. Mantém os pés fora dos bordéis, as mãos fora do colete, as pernas longe do livro do onzeneiro e
desafia o maligno. O vento frio ainda sopra através do espinheiro, gritando zum, mum, ha hô, no ni! ...
Delfim, meu filho, meu filho! Cessa! Deixa-o trotar!
(A tempestade continua.)

LEAR - Estarias melhor na sepultura do que enfrentando com o corpo descoberto estes extremos da
estação. Não é o homem mais do que isto? Considerai-o bem. Ao verme não deves a seda, ao animal o
abrigo, ao carneiro a lã e ao gato de algalia o perfume. Ah! Dos presentes, três somos adulterados; tu és a
coisa em si. O homem sem atavios não passa de um pobre animal, nu e fendido como tu. Fora, fora com
todos estes empréstimos! Vamos! Desabotoai-me aqui.
(Rasga as vestes.)

BOBO - Tio, por obséquio, fica quieto; a noite está muito ruim para nadarmos. Neste momento, um
pequeno fogo em campo grande faria o efeito do coração de um velho libertino: uma faiscazinha de nada,
e o resto do corpo, que nem gelo. Vê, aí vem vindo um fogo ambulante.
(Entra Gloster com uma tocha.)

EDGAR - É o demônio impuro Flibbertigibbet; chega com o toque de apagar fogo e ronda até ao
primeiro canto do galo; produz belidas e catarata, olho vesgo e beiço-de-lebre; faz embolorar o trigo
branco e atormenta a pobre criatura terrestre. Três vezes São Vital percorre os trilhos, e achando a
mula-sem-cabeça e os filhos, mandou que ali parasse e preito lhe prestasse. Sai logo, bruxa! Deixa limpa
a estrada!

KENT - Como passa Vossa Graça?

LEAR - Quem é?

KENT - Quem está aí? A quem procurais?

GLOSTER - Quem Sois? Como vos chamais?

EDGAR - O pobre Tom que se alimenta de rãs nadadoras, sapos, girinos, lagartixas e água; que na fúria
de seu coração, quando o inimigo imundo esbraveja, devora estrume de vaca como se fosse salada;

engole ratos velhos e cachorro pirento; bebe o manto verde do charco estagnado; que é chibateado de
paróquia em paróquia, posto no cepo ou na prisão; que já teve três mudas para o dorso, seis camisas para
o corpo, cavalo para montar e espada para carregar. Há sete anos que Tom só se conserva com ratazanas,
ratos e caterva. Tomai cuidado com o meu perseguidor. Fica quieto, Smulkin! Fica quieto, demônio!

GLOSTER - Como! Não tem Vossa Graça melhor companhia?

EDGAR - O príncipe das trevas é um gentil-homem; chama-se Modo e Mahu. GLOSTER - A tal ponto,
senhor, degenerados temos o sangue e a carne, que a odiar chegam a quem vida lhes deu.

EDGAR - O pobre Tom está com frio.

GLOSTER - Senhor, vinde comigo. Não se dobra meu dever às sentenças implacáveis de vossas filhas.
Muito embora tenham dado ordem para que eu fechasse a porta, a esta noite terrível entregando-vos,
ousei vir procurar-vos, porque possa levar-vos onde há fogo e mesa pronta.

LEAR - Primeiro permiti que a este filósofo dirija umas perguntas. Qual é a causa do trovão?

KENT - Aceitai, senhor, o invite que ele vos faz; à casa recolhei-vos.

LEAR - Uma palavra a este tebano sábio: em que vos aplicais?

EDGAR - Em fugir do demônio e matar piolho.

LEAR - Desejo vos pedir algo em segredo.

KENT - Insisti outra vez, senhor, com ele, para abrigar-se. Já revela indícios de que não tem bastante
firme o espírito.
(A tempestade continua.)

GLOSTER - Poderás censurá-lo? Suas filhas querem a morte dele. Ah! o bom Kent! Disse que tudo a dar
viria nisto. Pobre exilado! Asseveraste há pouco que o rei está ficando louco. Digo-te, que eu também
estou quase nesse ponto. Tive um filho, que se acha desde pouco banido do meu sangue. Contra a minha
vida tentou - agora mesmo, agora! - Amava-o como pai tão ternamente jamais ao filho amou. Para ser
franco contigo, a dor me perturbou o espírito.
(A tempestade continua.)
Que noite! Peço, instante, a Vossa Graça...

LEAR - Peço perdão, senhor. Nobre filósofo, fazei-nos companhia.

EDGAR - Tom está com frio.

GLOSTER - Amigo, vem para a cabana; aquece-te.

LEAR - Entremos todos.

KENT - Por aqui, milorde.

LEAR - Junto com ele; quero ficar sempre perto do meu filósofo.

KENT - Fazei-lhe nisso a vontade, bom senhor, deixando-o levar esse homem.

GLOSTER - Bem; cuidai vós dele.

KENT - Vamos, amigo; vem também conosco.

LEAR - Vamos, bom ateniense.

GLOSTER - Quietos! Vamos!

EDGAR - O cavaleiro Rolão chegou perto do bastião dizendo fim, fu e fão! Sinto cheiro de bretão.
(Saem.)

REI LEAR, ATO IV, Cena III

O acampamento francês, perto de Dover. Entram Kent e um gentil-homem.

KENT - Por que o rei da França retornou com tanta pressa? Sabeis a razão?

GENTIL-HOMEM - Deixou em suspenso algum assunto de Estado, que o preocupa desde que de lá
partiu e que, importando para o reino muito temor e perigo, impôs como necessidade urgente a volta do
rei.

KENT - Quem deixou ele atrás como general?

GENTIL-HOMEM - O Marechal de França, Monsieur La Far.

KENT - Vossas cartas arrancaram da rainha alguma demonstração de tristeza?

GENTIL-HOMEM - Pois não, senhor; tomou-as e na minha presença as leu. De quando em quando
lágrimas as faces delicadas lhe sulcavam. Parecia a rainha da tristeza que, tal como os rebeldes,
procurava dominá-la de vez.

KENT - Oh! comoveu-se!

GENTIL-HOMEM - Mas sem ficar colérica; a paciência e a dor lutavam para apresentá-la sob o mais
grato aspecto. Com certeza já vistes sol e chuva ao mesmo tempo; pois nela mais encantadores ainda
eram o riso e o choro. Os sorrisinhos graciosos que na boca lhe brincavam, pareciam não ter
conhecimento dos hóspedes dos olhos, que deixavam a grata hospedaria como pérolas que caem de
diamantes. Em resumo: a tristeza seria raridade muito querida, se ficasse em todas as pessoas tão bem.

KENT - Não fez perguntas?

GENTIL-HOMEM - Sim, suspirou por uma ou duas vezes o nome "pai", gemendo, dolorida, como se o
coração ele abafasse. Clamava: "Irmãs! Vergonha das mulheres! Irmãs! Kent! Meu pai! Como! De noite?
Na tempestade? A compaixão é um mito!" A água benta, depois, cair deixando dos olhos celestiais, que
lhe os queixumes umedeciam, súbito partiu-se para lutar sozinha com sua mágoa.

KENT - São os astros, os astros lá de cima, que determinam nossas condições; se não, o mesmo par não
poderia filhos gerar assim tão diferentes. Falastes-lhe depois?

GENTIL-HOMEM - Não.

KENT - E isso tudo se deu antes da volta do monarca?

GENTIL-HOMEM - Não; depois.

KENT - Muito bem, senhor; o pobre e inditoso Lear se acha na cidade. Por vezes, quando está mais bem
disposto, ocorre-lhe a razão de nossa vinda. Porém de modo algum quer ver a filha.

GENTIL-HOMEM- Por quê, meu bom senhor?

KENT - Vergonha extrema tanto o deprime - a rispidez com que ele privou da bênção sua própria filha,
entregando-a a acidentes estrangeiros e transferindo a bela herança dela para as irmãs de coração canino -
tudo isso o coração de tal maneira com dardo venenoso lhe transpassa, que uma vergonha abrasadora
longe de Cordélia o detém.

GENTIL-HOMEM - Ah! pobre rei!

KENT - E nada ouvistes sobre os dois exércitos, de Cornualha e de Albânia?

GENTIL-HOMEM - Estão em marcha.

KENT - Pois muito bem, senhor; vou conduzir-vos a nosso mestre Lear, lá vos deixando para tratardes
dele. Alguns negócios de importância a ficar me obrigam ainda mais algum tempo oculto. Porém logo
que eu revelar quem sou, não tereis causa de vos arrepender desta amizade. Por obséquio, segui-me.
(Saem.)

REI LEAR, ATO V, Cena III

O acampamento inglês, perto de Dover. Entra Edmundo, como vencedor, com tambores e bandeiras;
Lear e Cordélia, prisioneiros; oficiais, soldados, etc.

EDMUNDO - Alguns oficiais os levem logo. Que fiquem bem guardados, até que a alta vontade se
conheça das pessoas que terão de julgá-los.

CORDÉLIA - Os primeiros não somos a ficar sobre braseiros com boas intenções. Rei oprimido, por ti,
somente, falta-me o sentido, que eu, por mim, poderia, carrancuda, enfrentar as carrancas da Fortuna.
Tais irmãs e tais filhas não veremos?

LEAR - Não, não, não, não! Levai-nos para o cárcere. Nós dois, sozinhos, cantaremos como pássaros na
gaiola. No momento de a benção me pedires, eu me ajoelho e te imploro perdão. Dessa maneira
viveremos, dizendo nossas preces, cantando e velhos contos enarrando, rindo das borboletas variegadas e
ouvindo os pobres diabos discorrerem sobre os boatos da corte, aos quais, decerto, nos juntaremos para
dar palpite sobre quem perde ou ganha, quem se encontra no alto da escada ou em baixo, discorrendo
sobre os altos mistérios do universo como se espiões de Deus, acaso, fôssemos. Gastaremos, assim, no
duro cárcere, os partidos e as lutas dos graúdos que com a lua sobem sempre e descem.

EDMUNDO - Levai-os!

LEAR - Sobre um sacrifício destes, minha boa Cordélia, os próprios deuses jogam incenso. Tenho-te
bem presa? Quem quiser separar-nos há de um facho trazer do céu, para tocar-nos, como a raposas.
Enxuga, enxuga os olhos. A carne e a pele a peste há de comer-lhes antes de que eles a chorar nos
forcem. Primeiro morrerão de fome. Vamos!
(Saem Lear e Cordélia, escoltados.)

EDMUNDO - Capitão, vem aqui. Toma este escrito. Ouve-me atento. Segue-os até o cárcere. Já te
beneficiei de um grau; no caso de cumprires esta ordem, o caminho terás franqueado da mais nobre sorte.
Reflete no seguinte: os homens mudam conforme as épocas. Uma alma terna não se casa com a espada.
Este mandato não permite objeções: ou vais cumpri-lo, ou procura subir por outros meios.

OFICIAL - Senhor, hei de cumpri-lo.

EDMUNDO - Cuida disso, e, feito isso, feliz te considera. Ouve-me bem: sem perda de um momento, e
cumpre as minhas instruções à risca.

OFICIAL - Puxar carro não sei, nem comer feno; mas se é trabalho de homem, já está feito.
(Sai.)
(Fanfarra. Entram Albânia, Goneril, Regane, oficiais e criados.)

ALBÂNIA - Senhor, mostrastes vossa altiva raça e bem guiado fostes pela sorte. Tendes os prisioneiros
que adversários nossos foram na luta deste dia. De vós os requeremos, para dar-lhes tratamento conforme
o próprio mérito o exigir e, assim, nossa segurança.

EDMUNDO - Pareceu-me, senhor, mais conveniente mandar o velho e desgraçado rei para alguma
prisão, sob guarda certa, pois de grande feitiço se revela sua diade e, ainda mais, o próprio título para

arrastar o coração do vulgo, voltar fazendo contra nossos olhos as lanças que nós mesmos alistamos.
Pelas mesmas razões foi a rainha juntamente com ele. Ambos se encontram prontos, amanhã cedo ou
mais de espaço, para comparecer onde quiserdes formar o tribunal. De suor e sangue todo coberto ainda
estou; o amigo perdeu o amigo e, no calor, as lutas mais altas são amaldiçoadas pelos que o corte delas
sentem. O problema de Cordélia e do pai requer um sítio mais conveniente.

ALBÂNIA - Não vos desagrade, senhor, mas nesta guerra considero-vos súdito, não irmão.

REGANE - Irmão, lhe digo, o que me apraz dele fazer. Parece-me que devia ter sido consultado nosso
prazer antes de tal discurso. Foi nosso general, representante de mim própria e de minha dignidade,
intimidade que bem pode a fronte levantar para vosso irmão chamar-se.

GONERIL - Por que tanto calor? Seu próprio mérito o exalta mais que vossas distinções.

REGANE - Com meus direitos, minha investidura, aos melhores se iguala.

GONERIL - Atingiria, decerto, o ápice, vindo a desposar-vos.

REGANE - Por vezes os trocistas se revelam verdadeiros profetas.

GONERIL - Olará! O olho que vos disse isso estava vesgo.

REGANE - Não estou bem, senhora; não fora isso, vos daria a resposta merecida. General, toma conta
dos meus homens, dos prisioneiros, meus haveres todos. Dispõe deles, de mim; teu é este burgo. Seja o
universo testemunha em como te creio agora meu senhor e mestre.

GONERIL - Pensais que já sois dele?

ALBÂNIA - Não depende de vós a permissão.

EDMUNDO - Oh! nem de ti!

ALBÂNIA - Depende, sim, tipo de meio sangue.

REGANE - Faze soar o tambor, e que este prove que meu título é teu.

ALBÂNIA - Um momentinho; a razão escutai: Edmundo, prendo-te por traição capital, e juntamente
contigo esta serpente cheia de ouro,
(Apontando para Goneril.)
porque, formosa irmã, me oponho a vossas pretensões, no interesse, tão-somente, de minha esposa, que
ligada se acha a este senhor por um formal contrato. Eu, seu marido, oponho-me, portanto, a esses vossos
proclamas. Se quiserdes casar, fazei-me a corte, que esta dama já está comprometida.

GONERIL - Que comédia!

ALBÂNIA - Gloster, estás armado. Que a trombeta dê logo o toque. Caso ninguém venha para ao rosto
lançar-te as tuas próprias traições odiosas, múltiplas e claras, aqui está meu penhor.
(Atira a luva.)
Nessa cabeça demonstrarei antes de novamente provar pão, que és tudo isso que ora afirmo.

REGANE - Oh! doente, muito doente!

GONERIL (à parte) - De outro modo não voltara a confiar na medicina.

EDMUNDO - Eis meu penhor, também.
(Joga a luva.)
Em todo o mundo quem quer que de traidor ouse chamar-me, mente como um vilão. Soe a trombeta!
Contra quem se atrever a apresentar-se, contra ele, contra vós, contra quem seja, firme defenderei a honra
e a lealdade.

ALBÂNIA - Eh! Um arauto!

EDMUNDO - Olá! O arauto! O arauto!

ALBÂNIA - Confia apenas na coragem própria; pois teus soldados, alistados todos em meu nome, já
foram licenciados.

REGANE - Meus incômodos crescem!

ALBÂNIA - Não se encontra passando bem; levai-a para a tenda.
(Sai Regane, amparada.)
Aproxima-te, arauto.
(Entra um arauto.) Que a trombeta soe logo e, depois, proclama isto.

OFICIAL - Soe a trombeta!
(Ouve-se um toque de trombeta.)

ARAUTO - "Se houver nas fileiras do exército qualquer homem de qualidade ou posição que queira
sustentar contra Edmundo, suposto conde de Gloster, que ele é muitas vezes traidor, apresente-se ao
terceiro toque da trombeta. Edmundo está decidido a defender-se."

EDMUNDO - Tocai!
(Primeiro toque.)

ARAUTO - Outra vez!
(Segundo toque.)

ARAUTO - Outra vez!
(Terceiro toque.)
(Uma trombeta responde dentro.)
(Entra Edgar, armado, precedido de um trombeteiro.)

ALBÂNIA - Interrogai-o sobre seus intuitos e porque veio ao toque da trombeta.

ARAUTO - Quem sois vós? Vosso nome? Vosso estado? Por que viestes aqui a esta chamada?

EDGAR - Meu nome se perdeu, ficai sabendo. Roeu-o o dente da traição, deixando-o lacerado de todo.
Mas sou nobre tanto quanto o adversário que procuro.

ALBÂNIA - Quem é esse adversário?

EDGAR - Quem responde pelo conde de Gloster, por Edmundo?

EDMUNDO - Ele próprio. Que tens para dizer-lhe?

EDGAR - Saca da espada, para que, no caso de um nobre coração vir meu discurso magoar, justiça
obtenhas por teu braço. Eis aqui a minha, como privilégio de minha qualidade, juramentos e honrarias,
que aqui venho afirmar-te, apesar de tua força, mocidade, posição e alto estado; não obstante tua sorte
forjada há pouco tempo e a espada vitoriosa, tua grandeza, valentia e coragem, que és traidor, falso aos
deuses, ao próprio irmão e ao pai, conspirador contra este ilustre príncipe, e que do ponto extremo da
cabeça ao mais baixo do pé que pisa a poeira, és um traidor manchado como o sapo. Se "Não" disseres,
esta espada, o braço, minha melhor coragem vão provar-te no coração que mentes.

EDMUNDO - A prudência me mandaria perguntar teu nome. Mas visto teres um exterior tão belo, tão
marcial, e expressar os pensamentos tua língua com nobreza, com desprezo ponho de lado todas as
delongas que as próprias regras da cavalaria sem desdoiro nenhum me asseguraram. Essas traições, em
tua fronte as jogo, e o coração aperto-te na própria calúnia odiosa como o duro inferno. De leve,
tão-somente, me tocaram. Por isso, minha espada vai mostrar-lhes neste instante o caminho para o ponto
em que repouso irão achar eterno. Falai, trombetas!
(Alarma; batem-se; Edmundo cai.)

ALBÂNIA - Poupai-lhe a vida!

GONERIL - É uma cilada, Gloster! Segundo as leis das armas, não devias aceitar luta com um
desconhecido. Vencido não caíste; foste vítima do embuste e da traição.

ALBÂNIA - Fechai a boca, senhora; do contrário, eu mesmo a tapo com esta carta. Olha para este lado,
senhor, pior do que os mais feios nomes; lê teu próprio delito. Não, senhora! Não a rasgueis! Vejo que a
conheceis.
(Dá a carta a Edmundo.)

GONERIL - E se fosse esse o caso? A lei é minha, não tua. Quem me chamará a juízo?
(Sai.)

ALBÂNIA - Oh! Monstruoso! Conheces essa carta?

EDMUNDO - Oh! não me pergunteis o que eu conheço.

ALBÂNIA - Ide atrás dela; está desesperada. Vigiai-a bem.
(Sai o oficial.)

EDMUNDO - Sim, perpetrei os crimes de que ora me acusais, e muitas coisas, ainda, muitas mais. Aos
poucos há de revelá-las o tempo. Mas tudo isso já passou, tal como eu. Mas quem és tu, que tal vantagem
sobre mim tiveste? Se fores nobre, o meu perdão concedo-te.

EDGAR - Então reciproquemos caridade. Não é menor que o teu meu sangue, Edmundo. Se maior for,
maior será tua culpa com relação a mim. Chamo-me Edgar; sou filho de teu pai. Justos os deuses sempre
são, e instrumentos de castigo fazem de nossos vícios agradáveis. Custou-lhe os olhos o lugar vicioso
onde foste gerado.

EDMUNDO - Com acerto falaste; é verdadeiro o que disseste. Estou aqui: ficou completo o círculo.

ALBÂNIA - Bem vi que tua forma revelava uma nobreza real. Quero abraçar-te. Que a dor me parta o
coração, se acaso te tive ódio, ou a teu pai, em qualquer tempo.

EDGAR - Sei disso, digno príncipe.

ALBÂNIA - Em que ponto vos escondestes? Como a saber viestes das misérias de vosso pobre pai?

EDGAR - Tratando delas, meu senhor, apenas. Ouvi uma história curta, e logo que ela tiver sido contada,
oh! que me estale de dor o coração. Da sanguinária proclamação porque escapar pudesse, que tão de
perto os passos me seguia - Ó doçura da vida, que nos fazes preferir morrer de hora em hora as dores da
morte a de uma vez morrer de todo! - precisei disfarçar-me com os andrajos de um demente, assumindo
uma aparência que até mesmo os cachorros repelia. Com essas vestes fui achar meu pai, cujos anéis
sangrentos as preciosas pedras tinham perdido. Transformei-me em seu guia, pedi para ele esmola, por
toda parte o conduzi, salvei-o do desespero, sem que nunca - oh falta! - lhe houvesse revelado quem eu
era, senão há cerca de meia hora, quando já me encontrava armado. Não me achando seguro de vencer,
pedi-lhe a bênção e minha peregrinação contei-lhe, do começo até ao fim. Mas seu rachado coração, ah!
muito fraco porque a luta pudesse suportar dos dois extremos da paixão, alegria e sofrimento, sorrindo
arrebentou.

EDMUNDO - Vosso discurso me comoveu, sendo possível, mesmo, que produza algum bem. Mas
prossegui; parece que ainda não contastes tudo.

ALBÂNIA - Se houver outras misérias, ocultai-as, porque no ponto de chorar me encontro, ouvindo o
que contastes.

EDGAR - Julgaria quem não amasse a dor que esse relato já representa tudo. Porém se outro viesse
juntar-se ainda a tantos males, ampliando-os muito e muito, ultrapassara decerto o ponto extremo.
Quando a clamar de dor eu me encontrava, chegou um homem que me vira em minha ínfima condição e
se esquivara de minha companhia repelente, mas que, ao notar, então, quem era o grande sofredor, em
seus braços vigorosos me apertou o pescoço, urrou a ponto de arrebentar o céu, lançou-se em cima do
corpo de meu pai e a mais dorida história me contou sobre ele e Lear, que jamais percebeu o ouvido
humano. Ao relatá-la, a dor o dominava, começando a estalar-lhe as próprias cordas da vida. Mas nessa
hora duas vezes soou a trombeta e exânime o deixei.

ALBÂNIA - Mas quem é ele?

EDGAR - Kent, senhor; o mesmo Kent exilado, o qual sob um disfarce seguia o rei seu inimigo, tendo
lhe prestado serviços nada próprios, ai! nem mesmo de escravos.
(Entra um gentil-homem com uma faca ensanguentada.)

GENTIL-HOMEM - Aqui, socorro! Socorro, aqui!

EDGAR - Socorro de que jeito?

ALBÂNIA - Fala, homem.

EDGAR - E essa faca ensangüentada?

GENTIL-HOMEM - Está quente; fumega; neste instante saiu do coração dela... Oh! Morreu!

ALBÂNIA - Quem morreu, homem? Fala.

GENTIL-HOMEM - Vossa esposa, senhor, vossa consorte, e a irmã por ela envenenada; confessou o
fato.

EDMUNDO - Fiquei noivo das duas; na mesma hora casamo-nos os três.

EDGAR - Kent aí vem vindo.

ALBÂNIA - Trazei os corpos, mortos ou com vida. Este juízo dos céus, que nos abala, não nos deixa,
por isso, enternecido.
(Sai o gentil-homem.)
(Entra Kent.)
Oh! É ele mesmo? Não permite o tempo saudá-lo como a cortesia manda.

KENT - Só vim aqui para dizer boa noite ao meu rei e senhor. Não se acha aqui?

ALBÂNIA - Oh! Esquecemos do que mais importa! Dize-nos, Edmundo, onde está o rei? Onde ficou
Cordélia? Kent, vês isto?
(São trazidos os corpos de Goneril e Regane.)

KENT - Oh! Como aconteceu?

EDMUNDO - No entanto, Edmundo foi amado! Uma deu veneno à outra, por minha causa, e se matou
depois.

ALBÂNIA - Justamente; cobri-lhes ora o rosto.

EDMUNDO - A vida já me foge, mas quisera fazer ainda algum bem, embora contra minha própria
feição. Mandai depressa, bem depressa, ao castelo. Meu escrito ameaça a vida de Cordélia e Lear. Não
percais tempo.

ALBÂNIA - Corre! Corre! Corre! EDGAR - Para onde, meu senhor? Qual a pessoa que está disso
incumbida? É necessário enviares um penhor como contra-ordem.

EDMUNDO - Foi bem pensado; toma minha espada e a entrega ao capitão.

ALBÂNIA -Por tua vida, não percas tempo.
(Sai Edgar.)

EDMUNDO - A comissão tem ele de tua esposa morta e minha, para na prisão a Cordélia dar a morte,
atribuindo, depois, ao desespero dela mesma sua própria destruição.

ALBÂNIA - Que os deuses a protejam! Retirai-o.
(Entram Lear, com Cordélia nos braços, morta; Edgar, oficiais e outras pessoas.)

LEAR - Uivai! Uivai! Ulvai! Sois empedrados! Se vossas línguas e olhos eu tivesse, usara-os de tal
modo, que faria rachar a abóbada celeste. Foi-se para sempre! Conheço muito bem quando alguém está
morto ou quando vive. Morta está como terra. Ide buscar-me um espelho; no caso de seu hálito embaçar
ou cobrir a superfície, então é que ela ainda está com vida.

KENT - Este é o fim prometido?

EDGAR - Ou bem a imagem de tanto horror?

ALBÂNIA - Cai de uma vez e acaba.

LEAR - A pluma está a mexer! Ela está viva! Oh! se for assim mesmo, é uma ventura que recompensa
todos os pesares por que tenho passado.

KENT (ajoelhando-se) - Oh meu bom mestre!

LEAR - Sai, por favor!

EDGAR - É Kent, o vosso amigo.

LEAR - A peste sobre vós, traidores todos! Sois todos assassinos! Poderia tê-la salvo, mas foi-se para
sempre. Ó Cordélia! Cordélia! Espera um pouco! Ah! Que disseste? A voz tinha sempre branda,
agradável e baixa, predicado na mulher de valor inestimável. Matei o escravo, quando te enforcava.

OFICIAL - É certo, meu senhor; matou-o, de fato.

LEAR - Não é verdade, amigo? Já houve tempo em que com minha espada de bom gume os fazia dançar.
Ora estou velho e estes trabalhos todos me deprimem. Quem Sois? Não vejo bem. Vou já dizer-vos.

KENT - Se blasona a fortuna de a dois seres ao mesmo tempo haver odiado e amado, a um deles aqui
vemos.

LEAR - Tenho a vista um tanto baça. Acaso não sois Kent?

KENT - O mesmo; Kent, o vosso servidor. Onde se encontra vosso criado Caius?

LEAR - Um bom sujeito, posso asseverar-vos; sabe bater nos outros com aprumo. Está morto e bem
podre.

KENT - Não, bondoso senhor; sou ele mesmo...

LEAR - Verei isso neste momento.

KENT - que desde o começo de vossos infortúnios e declínio vos tem seguido os lastimosos passos.

LEAR - Sois bem-vindo.

KENT - Ninguém é aqui bem-vindo. Tudo é sem alegria, escuro e morto. Vossas filhas mais velhas se
mataram, morrendo em desespero.

LEAR - Oh! Acredito-o.

ALBÂNIA - Já não sabe o que diz; absurdo fora tentarmos conversar com ele.

KENT - É inútil.
(Entra um oficial.)

OFICIAL - Edmundo faleceu, milorde.

ALBÂNIA - Nada significa isso agora. Vós, senhores e meus caros amigos, comunico-vos minha
intenção, que é dar todo o conforto que com esta grande ruína se coadune. Enquanto a nós, durante a vida
desta cândida majestade, conferimos-lhe todo o nosso poder. (A Kent e Edgar). A vós, as vossas
honrarias, que vossos grandes préstimos mais do que mereceram. Os amigos receberão a paga da virtude
provando todos nossos inimigos da copa do castigo. Oh! Vede! vede! LEAR - Foi enforcada minha

bonequinha! Não, não! Vida nenhuma! Por que causa terá vida um cavalo, um cão, um rato, e tu, fôlego
algum? Não voltarás, oh! nunca, nunca, nunca, nunca, nunca! Por obséquio, soltai-me este botão.
Obrigado, senhor. Oh! vedes isto? Olhai para ela! Vede os lábios dela! Olhai aqui! Olhai aqui!
(Morre.)

EDGAR - Desmaia! Senhor! Senhor!

KENT - Estala, coração! Estala, peço-te.

EDGAR - Senhor, olhai-me!

KENT - Não lhe molesteis a alma. Que se fine. Ódio lhe tem quem desejar deitá-lo por mais tempo no
banco de tormentos deste mundo tão duro.

EDGAR - Já não vive, realmente.

KENT - O que é admirável é que tenha agüentado a esse ponto. Sua vida já era usurpada.

ALBÂNIA - O corpo removei. Luto geral vai ser a nossa ocupação precípua.
(A Kent e Edgar.)
Amigos d'alma, governai o Estado, que tão ferido se acha e malfadado.

KENT - Para uma viagem longa vou partir. O mestre é que me chama; tenho de ir.

ALBÂNIA - Do tempo triste somos os arrimos; digamos tão-somente o que sentimos. Muito o velho
sofreu; mais desgraçada nossa velhice não será em nada.