MACBETH,William Shakespeare,ATO I,Cena III
A charneca,Trovões
Entram as três bruxas.
PRIMEIRA BRUXA - Onde estiveste, irmã?
SEGUNDA BRUXA - Matando porco.
TERCEIRA BRUXA - E tu, irmã?
PRIMEIRA BRUXA - Cheio o regaço tinha de castanhas a mulher de um marujo, e mastigava, mascava,mastigava
"Cede-me uma", lhe disse"Vai-te embora, bruxa!" grita-me a gorda comedora de babugem.
Em caminho de Alepo está o marido, como chefe do "Tigre" mas como rato cotó numa peneira vou só.
E roque, roque, roque!
SEGUNDA BRUXA - Vou dar-te um bom vento.
PRIMEIRA BRUXA - Vem a meu contento.
TERCEIRA BRUXA - Com mais um podes contar.
PRIMEIRA BRUXA - Saberei outros achar e os portos de mais zunidos e os pontos deles sabidos na carta dos marinheiros
Vou deixá-lo como enguia, sem que o sono, noite e dia, lhe baixe aos olhos um nada. Vai ser vida amaldiçoada. Semanas noventa e nove, fraco e magro, nem se move; e embora não
perca o barco, de tufões não será parco,vê o que eu trouxe!
SEGUNDA BRUXA - Mostra-me! Mostra-me!
PRIMEIRA BRUXA - O dedo de um marinheiro que naufragou no roteiro.
(Barulho de tambor, dentro.)
TERCEIRA BRUXA - Tambor! Tambor! Eis Macbeth, o vencedor!
TODAS - As três bruxas, mãos unidas, por estradas não batidas, por mar e terra se vão. Três para ti, três a mim, três para nove no fim...Silêncio! O encanto está pronto.
(Entram Macbeth e Banquo.)
MACBETH - Nunca vi dia assim, tão feio e belo.
BANQUO - A que distância ainda se encontra Forres? Quem são essas criaturas tão mirradas e de vestes
selvagens, que habitantes não parecem da terra e, no entretanto, nela se movem? Acaso tendes vida? Sois
algo a que perguntas dirijamos? Pareceis compreender-me, pois a um tempo levais os dedos ósseos a
esses lábios encarquilhados, quase vos tomara por mulheres; no entanto vossas barbas não me permitem
dar-vos esse nome.
MACBETH - Respondei, se puderdes: quem sois vós?
PRIMEIRA BRUXA - Viva, viva Macbeth! Nós te saudamos, Thane de Glamis!
SEGUNDA BRUXA - Viva, viva Macbeth! Nós te saudamos, Thane de Cawdor!
TERCEIRA BRUXA - Viva Macbeth, que há de ser rei mais tarde!
BANQUO - Meu bondoso senhor, por que motivo vos mostrais assustado, parecendo recear o que de
ouvir é assim tão belo? Em nome da verdade, imaginárias sereis realmente, ou o que mostrais por fora?
Meu nobre companheiro foi saudado com títulos, por vós, de atual valia e grande predição de haveres
nobres e de real esperança, que parece deixá-lo arrebatado, porém nada me dissestes. Se podeis ver a
seara do tempo e predizer quais as sementes que hão de brotar, quais não, falai comigo, que não procuro
nem receio vosso ódio ou vosso favor.
PRIMEIRA BRUXA - Salve!
SEGUNDA BRUXA - Salve!
TERCEIRA BRUXA - Salve!
PRIMEIRA BRUXA - Menor do que Macbeth, porém maior!
SEGUNDA BRUXA - Não tão feliz, mas muito mais feliz!
TERCEIRA BRUXA - Gerarás reis, embora rei não sejas! Assim, viva Macbeth e viva Banquo!
PRIMEIRA BRUXA - Viva Banquo e Macbeth! A todos, viva!
MACBETH - Um momento, oradoras imperfeitas, falai-me mais um pouco pela morte de Sinel eu fiquei Thane de GlamisMas, Cawdor, de que jeito? Vive o thane de Cawdor, gentil-homem muito
próspero; e ser rei ultrapassa os horizontes da crença tanto ou mais do que ser Cawdor. Dizei de onde tirastes tão insólita notícia e por que causa nos fizestes parar nesta charneca desolada, com saudações
proféticas? Intimo-vos a me falar.
(As bruxas desaparecem.)
BANQUO - A terra tem borbulhas, tal como a água: Elas são justamente isso, mas para onde sumiram?
MACBETH - No ar; e tudo quanto nos parecia ser corpóreo se fundiu como ao vento nosso anélito. Oh! se tivessem demorado um pouco!
BANQUO - Aqui estiveram, mesmo, essas criaturas sobre que conversamos, ou teríamos comido da raiz malsã que deixa prisioneira a razão?
MACBETH - Reis, vossos filhos?
BANQUO - Chegareis a rei.
MACBETH - E assim, thane de Cawdor, não foi isso?
BANQUO - Esse, o tom e as palavras... quem vem vindo?
(Entram Ross e Angus.)
ROSS - Macbeth, com alegria o rei as novas recebeu da vitória que obtiveste, e quando ouve falar que
aventuraste tua pessoa contra esses rebeldes, põem-se nele a lutar os elogios e a admiração sobre que
parte fora justo te reservar, qual a ele próprio se sobre isso não fala, compendiando quanto houve neste
dia extraordinário, descobre-te na fila dos intrépidos noruegueses, impávido ante as formas da morte
estranhas por ti próprio criadas, bastos como granizo, os mensageiros se sucediam, todos portadores de
encômios para ti nesta grandiosa defesa de seu reino, derramando-lhe aos pés os elogios.
ANGUS - Aqui estamos para trazer-te os agradecimentos de nosso real senhor e te levarmos à sua frente,
não para pagar-te.
ROSS - E como arras de uma honra de mais vulto, por ele devo te chamar de thane de Cawdor. Salve, pois, mui digno thane, por essa promoção, pois teu é o título.
BANQUO - Como! Falou o diabo, então, verdade?
MACBETH - Vive o thane de Cawdor; qual a causa de me vestirdes com a roupagem de outrem?
ANGUS - O que foi thane ainda está com vida: mas sob pesado juízo a vida se acha que ele malbaratou.
Ou mantivesse combinação com os próprios noruegueses, ou por meios secretos os rebeldes procurasse
auxiliar, ou dos dois lados se empenhasse na ruína de sua pátria, não sei dizê-lo; mas o certo é que altas
traições, já confessadas e provadas, o fizeram cair.
MACBETH (à parte) - Glamis e thane de Cawdor..O maior virá a seu tempo(A Ross e Angus.)
Agradeço o trabalho(A Banquo.) Esperançado não ficais de que venham vossos filhos a ser reis, uma
vez que as que de thane de Cawdor me chamaram, não menores coisas lhes prometeram?
BANQUO - Uma grande confiança na promessa poderia vos inflamar para chegar ao trono, mais que
thane de Cawdor mas é estranho; por vezes, para nos perdermos, contam-nos os agentes das trevas
alguns fatos verídicos, seduzem-nos com coisas inocentes, porém de pouca monta, para nos arrastar a
conseqüências incalculáveis; primo, uma palavrinha, por obséquio
MACBETH (à parte) - Duas verdades foram ditas, prólogo feliz do ato elevado, cujo tema é simplesmente real- Muito obrigado senhores(A parte.) Essa solicitação tão sobrenatural pode ser boa, como pode ser má..Se não for boa, por que me deu as arras de bom êxito, relatando a verdade? Sou o thane de Cawdor sendo boa, por que causa ceder à sugestão, cuja figura pavorosa os cabelos me arrepia,fazendo que me bata nas costelas o coração tão firme, contra as normas da natureza? O medo que
sentimos é menos de temer que as mais terríveis mas fictícias criações; meu pensamento no qual o crime por enquanto é apenas um fantasma, a tal ponto o pobre reino de minha alma sacode, que esmagada se torna a vida pela fantasia, sem que haja nada além do que não é.
BANQUO - Como ficou absorto nosso amigo!
MACBETH (à parte) - Se o acaso quer que eu seja rei, o acaso me poderá coroar sem que eu me mexa.
BANQUO - As honras mais recentes caem nele como em nós roupa nova, que somente com o uso vêm a
se ajeitar no corpo.
MACBETH (à parte) - Venha o que vier, que a hora da alegria chega depois do mais cansado dia.
BANQUO - Digno Macbeth, por vós é que esperamos.
MACBETH - Desculpai-me; mas meu pesado cérebro se ocupava com coisas esquecidas; vossos trabalhos, dignos cavalheiros, gravados ficam onde diariamente virar eu possa as folhas para lê-los.
Procuremos o rei(A Banquo.) Pensai no que houve, que mais tarde, depois de refletirmos, com o
coração aberto falaremos.
BANQUO - Pois não.
MACBETH - Por hoje basta amigos, vamos!
(Saem.)
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ROMEU E JULIETA, ATO I, Cena V
O mesmo. Um salão em casa de Capuleto. Músicos esperam. Entram criados.
PRIMEIRO CRIADO - Onde está o Caçarola, que não vem ajudar a tirar a mesa? Aquele troca-pratos!
Olá, Raspa-pratos!
SEGUNDO CRIADO - Retira esses tamboretes, arrasta o aparador. Cuidado com a baixela! Amigo,
separa para mim um pedaço de massapão. E se me tens amizade, dize ao porteiro que deixe entrar Nell e
Susana Grindstone. Antônio! Caçarola!
TERCEIRO CRIADO - Aqui, rapaz! Estamos prontos.
PRIMEIRO CRIADO - Estão vos chamando, estão vos procurando, reclamam vossa presença na sala
grande.
TERCEIRO CRIADO - Não podemos estar aqui e lá ao mesmo tempo.
SEGUNDO CRIADO - Alegria, rapazes! Ficai lépidos pelo menos uma vez na vida. Quem viver mais
tempo, ficará com tudo.
(Afastam-se para o fundo.)
(Entram Capuleto, Julieta e outras pessoas da casa, que se encontram com hóspedes e mascarados.)
CAPULETO - Cavalheiros, bem-vindos. As senhoras que não sofrerem no dedão de calos hão de dançar
convosco. Olá, senhoras! Qual de vós há de agora recusar-se a dar uma voltinha? A que mimosa se
mostrar por demais, faço uma aposta em como terá calos. Como! Agora ficamos juntos? Sede aqui
bem-vindos, meus senhores! Já vi também os dias em que punha uma máscara e sabia cochichar uma ou
duas palavrinhas nuns ouvidos bonitos. E agradavam! Mas já lá vai o tempo... Tudo passa. Sois
bem-vindos, senhores. Vinde, músicos! Tocai logo! Licença! Abri caminho... Com licença! Meninas,
ligeireza!
(Música e dança.)
Mais luz, marotos! Arrastai as mesas e apagai esse fogo, que está muito quente aqui dentro. Ah! essas
brincadeiras inesperadas chegam sempre a tempo. Sim, sentai-vos, sentai-vos, caro primo Capuleto; nós
dois já não estamos na idade de dançar. Há quanto tempo deixamos de pôr máscara?
SEGUNDO CAPULETO -- Trinta anos, pela Virgem; trinta anos.
CAPULETO - Como, primo! Não, não faz tanto tempo; é muita coisa. Foi desde o casamento de
Lucêncio. Venha quando quiser o Pentecostes, serão vinte e cinco anos.... Nós, de máscara...
SEGUNDO CAPULETO - Muito mais! Muito mais! O filho dele, senhor, tem mais idade; tem trinta
anos.
CAPULETO - Que dizeis! Pois se esse filho dele há uns dois anos maior não era ainda!
ROMEU - Que dama é aquela que enriquece o braço daquele cavalheiro?
CRIADO - Desconheço-a, meu senhor.
ROMEU - Oh! ela ensina a tocha a ser luzente. Dir-se-ia que da face está pendente da noite, tal qual jóia
mui preciosa da orelha de uma etíope mimosa. Bela demais para o uso, muito cara para a vida terrena.
Como clara pomba ao lado de gralhas tagarelas, anda no meio das demais donzelas. Vou procurá-la, ao
terminar a dança porque a esta rude mão possa dar ansa de tocar nela e, assim, ficar bendita. Meu
coração, até hoje, teve a dita de conhecer o amor? Oh! que simpleza! Nunca soube até agora o que é
beleza.
TEBALDO - Pela voz este aqui é algum Montecchio. Rapaz, vai buscar logo minha espada. Como! Esse
escravo atreve-se a, com máscara grotesca, vir aqui, para de nossa festividade rir e fazer pouco? Pela
honra do meu sangue e nobre estado, dar-lhe a morte não julgo ser pecado.
CAPULETO - Que tens, sobrinho? Que se dá contigo?
TEBALDO - Tio, aquele é um Montecchio, nosso imigo; um vilão que aqui entrou por zombaria, para
nos estragar toda a alegria.
CAPULETO - Não é o jovem Romeu?
TEBALDO - O mesmo, o biltre Romeu.
CAPULETO - Gentil sobrinho, fica quieto; deixa-o tranqüilo. Ele se tem mostrado perfeito
gentil-homem. Para ser-te franco, Verona tem orgulho dele, como rapaz virtuoso e mui polido. Nem por
toda a riqueza da cidade quisera que ele aqui fosse ofendido. Acalma-te, portanto, e fica alegre; essa é a
minha vontade. Se a acatares, fica alegre e desfaze essa carranca que não vai bem com nossa alacridade.
TEBALDO - Vai, sim, quando um vilão se mete nela. Não o suporto.
CAPULETO - Terás de suportá-lo. Como, rapaz! Estou mandando: deixa-o! Quem manda aqui, acaso;
vós ou eu? Ora, não o suportais! Deus me salve a alma. Quereis fazer barulho entre meus hóspedes?
Provocar briga? Ser mandão na festa?
TEBALDO - Mas, tio, é vergonhoso...
CAPULETO - Ide, ide. Sois petulante, não? Prejudicar-vos ainda pode esta história. Sei de tudo.
Procurais contrariar-me? Eis o momento. - Muito bem, corações! - Sois um fedelho. Ide acalmar-vos -
Luz! Mais luz! - Que opróbrio! Já vou deixar-vos quieto. - Assim, meus caros! Alegria! Alegria!
TEBALDO - A paciência e o furor, equilibrados, inativos me deixam com seus brados. Vou sair; mas o
intruso que hoje é mel, será amanhã o mais amargo fel.
(Sai.)
ROMEU - (a Julieta) - Se minha mão profana o relicário em remissão aceito a penitência: meu lábio,
peregrino solitário, demonstrará, com sobra, reverência.
JULIETA - Ofendeis vossa mão, bom peregrino, que se mostrou devota e reverente. Nas mãos dos santos
pega o paladino. Esse é o beijo mais santo e conveniente.
ROMEU - Os santos e os devotos não têm boca?
JULIETA - Sim, peregrino, só para orações.
ROMEU - Deixai, então, ó santa! que esta boca mostre o caminho certo aos corações.
JULIETA - Sem se mexer, o santo exalça o voto.
ROMEU - Então fica quietinha: eis o devoto. Em tua boca me limpo dos pecados.
(Beija-a.)
JULIETA - Que passaram, assim, para meus lábios.
ROMEU - Pecados meus? Oh! Quero-os retornados. Devolve-mos.
JULIETA - Beijais tal qual os sábios.
AMA - Vossa mãe quer falar-vos, senhorita.
ROMEU - Quem é a mãe dela?
AMA -.Ora essa, cavalheiro! A dona desta casa, certamente, uma digna senhora, honesta e sábia.
Amamentei-lhe a filha, a senhorita com que falastes. E uma coisa eu digo, com certeza: quem vier a
desposá-la, ficará cheio de ouro.
ROMEU - É Capuleto? Oh conta cara! Minha vida é dívida de hoje em diante no livro do inimigo.
BENVÓLIO - A festa já acabou; vamos embora.
ROMEU - Acabou? Para mim começa agora.
CAPULETO - Não, cavalheiros, não saiais tão cedo; ainda teremos uma ceiazinha. Mas partis mesmo? A
todos, obrigado. Muito obrigado, honesto cavalheiro. Boa noite. - Trazei-me aqui mais tochas! Sendo
assim, vou deitar-me. É certo, amigo: já está ficando tarde. Vou deitar-me.
(Saem todos, com exceção de Julieta e a ama.)
JULIETA - Ama, quem é aquele gentil-homem?
AMA - Herdeiro e filho de Tibério, o velho.
JULIETA - E aquele que ora passa pela porta?
AMA - Se não me engano, é o filho de Petrucchio.
JULIETA - E aquele que ali vai, que não dançou?
AMA - Não sei quem seja.
JULIETA - Então vai perguntar-lhe como se chama. Vai! Se for casado, um túmulo será todo o meu
fado.
AMA - Romeu é o nome dele; é um dos Montecchios, filho único do vosso grande imigo.
JULIETA - Como do amor a inimizade me arde! Desconhecido e asnado muito tarde. Como esse
monstro, o amor, brinca comigo: apaixonada ver-me do inimigo!
AMA - Como assim? Como assim?
JULIETA - Isso é uma rima que aprender fui com quem dancei há pouco.
AMA - Já vamos! Um momento! - Está na hora; já se foram os hóspedes embora.
(Saem.)
PRÓLOGO
(Entra o coro.)
CORO - Moribundo se encontra o antigo afeto, querendo o novo amor ser seu herdeiro; da beldade fatal
o externo aspecto frente a Julieta é monstro verdadeiro. Ama Romeu, sendo também amado. Cada um
nos olhos do outro acha feitiço; queixa-se ele do imigo proclamado; na mais pungente dor cria ela viço.
Sendo inimigo, acesso junto dela não obtém ele para suas juras; nem ela sabe, como, com cautela, lhe
poderá dizer palavras puras. Mas o amor, em tamanha extremidade. sabe fazer da dor felicidade.
PRIMEIRO CRIADO - Onde está o Caçarola, que não vem ajudar a tirar a mesa? Aquele troca-pratos!
Olá, Raspa-pratos!
SEGUNDO CRIADO - Retira esses tamboretes, arrasta o aparador. Cuidado com a baixela! Amigo,
separa para mim um pedaço de massapão. E se me tens amizade, dize ao porteiro que deixe entrar Nell e
Susana Grindstone. Antônio! Caçarola!
TERCEIRO CRIADO - Aqui, rapaz! Estamos prontos.
PRIMEIRO CRIADO - Estão vos chamando, estão vos procurando, reclamam vossa presença na sala
grande.
TERCEIRO CRIADO - Não podemos estar aqui e lá ao mesmo tempo.
SEGUNDO CRIADO - Alegria, rapazes! Ficai lépidos pelo menos uma vez na vida. Quem viver mais
tempo, ficará com tudo.
(Afastam-se para o fundo.)
(Entram Capuleto, Julieta e outras pessoas da casa, que se encontram com hóspedes e mascarados.)
CAPULETO - Cavalheiros, bem-vindos. As senhoras que não sofrerem no dedão de calos hão de dançar
convosco. Olá, senhoras! Qual de vós há de agora recusar-se a dar uma voltinha? A que mimosa se
mostrar por demais, faço uma aposta em como terá calos. Como! Agora ficamos juntos? Sede aqui
bem-vindos, meus senhores! Já vi também os dias em que punha uma máscara e sabia cochichar uma ou
duas palavrinhas nuns ouvidos bonitos. E agradavam! Mas já lá vai o tempo... Tudo passa. Sois
bem-vindos, senhores. Vinde, músicos! Tocai logo! Licença! Abri caminho... Com licença! Meninas,
ligeireza!
(Música e dança.)
Mais luz, marotos! Arrastai as mesas e apagai esse fogo, que está muito quente aqui dentro. Ah! essas
brincadeiras inesperadas chegam sempre a tempo. Sim, sentai-vos, sentai-vos, caro primo Capuleto; nós
dois já não estamos na idade de dançar. Há quanto tempo deixamos de pôr máscara?
SEGUNDO CAPULETO -- Trinta anos, pela Virgem; trinta anos.
CAPULETO - Como, primo! Não, não faz tanto tempo; é muita coisa. Foi desde o casamento de
Lucêncio. Venha quando quiser o Pentecostes, serão vinte e cinco anos.... Nós, de máscara...
SEGUNDO CAPULETO - Muito mais! Muito mais! O filho dele, senhor, tem mais idade; tem trinta
anos.
CAPULETO - Que dizeis! Pois se esse filho dele há uns dois anos maior não era ainda!
ROMEU - Que dama é aquela que enriquece o braço daquele cavalheiro?
CRIADO - Desconheço-a, meu senhor.
ROMEU - Oh! ela ensina a tocha a ser luzente. Dir-se-ia que da face está pendente da noite, tal qual jóia
mui preciosa da orelha de uma etíope mimosa. Bela demais para o uso, muito cara para a vida terrena.
Como clara pomba ao lado de gralhas tagarelas, anda no meio das demais donzelas. Vou procurá-la, ao
terminar a dança porque a esta rude mão possa dar ansa de tocar nela e, assim, ficar bendita. Meu
coração, até hoje, teve a dita de conhecer o amor? Oh! que simpleza! Nunca soube até agora o que é
beleza.
TEBALDO - Pela voz este aqui é algum Montecchio. Rapaz, vai buscar logo minha espada. Como! Esse
escravo atreve-se a, com máscara grotesca, vir aqui, para de nossa festividade rir e fazer pouco? Pela
honra do meu sangue e nobre estado, dar-lhe a morte não julgo ser pecado.
CAPULETO - Que tens, sobrinho? Que se dá contigo?
TEBALDO - Tio, aquele é um Montecchio, nosso imigo; um vilão que aqui entrou por zombaria, para
nos estragar toda a alegria.
CAPULETO - Não é o jovem Romeu?
TEBALDO - O mesmo, o biltre Romeu.
CAPULETO - Gentil sobrinho, fica quieto; deixa-o tranqüilo. Ele se tem mostrado perfeito
gentil-homem. Para ser-te franco, Verona tem orgulho dele, como rapaz virtuoso e mui polido. Nem por
toda a riqueza da cidade quisera que ele aqui fosse ofendido. Acalma-te, portanto, e fica alegre; essa é a
minha vontade. Se a acatares, fica alegre e desfaze essa carranca que não vai bem com nossa alacridade.
TEBALDO - Vai, sim, quando um vilão se mete nela. Não o suporto.
CAPULETO - Terás de suportá-lo. Como, rapaz! Estou mandando: deixa-o! Quem manda aqui, acaso;
vós ou eu? Ora, não o suportais! Deus me salve a alma. Quereis fazer barulho entre meus hóspedes?
Provocar briga? Ser mandão na festa?
TEBALDO - Mas, tio, é vergonhoso...
CAPULETO - Ide, ide. Sois petulante, não? Prejudicar-vos ainda pode esta história. Sei de tudo.
Procurais contrariar-me? Eis o momento. - Muito bem, corações! - Sois um fedelho. Ide acalmar-vos -
Luz! Mais luz! - Que opróbrio! Já vou deixar-vos quieto. - Assim, meus caros! Alegria! Alegria!
TEBALDO - A paciência e o furor, equilibrados, inativos me deixam com seus brados. Vou sair; mas o
intruso que hoje é mel, será amanhã o mais amargo fel.
(Sai.)
ROMEU - (a Julieta) - Se minha mão profana o relicário em remissão aceito a penitência: meu lábio,
peregrino solitário, demonstrará, com sobra, reverência.
JULIETA - Ofendeis vossa mão, bom peregrino, que se mostrou devota e reverente. Nas mãos dos santos
pega o paladino. Esse é o beijo mais santo e conveniente.
ROMEU - Os santos e os devotos não têm boca?
JULIETA - Sim, peregrino, só para orações.
ROMEU - Deixai, então, ó santa! que esta boca mostre o caminho certo aos corações.
JULIETA - Sem se mexer, o santo exalça o voto.
ROMEU - Então fica quietinha: eis o devoto. Em tua boca me limpo dos pecados.
(Beija-a.)
JULIETA - Que passaram, assim, para meus lábios.
ROMEU - Pecados meus? Oh! Quero-os retornados. Devolve-mos.
JULIETA - Beijais tal qual os sábios.
AMA - Vossa mãe quer falar-vos, senhorita.
ROMEU - Quem é a mãe dela?
AMA -.Ora essa, cavalheiro! A dona desta casa, certamente, uma digna senhora, honesta e sábia.
Amamentei-lhe a filha, a senhorita com que falastes. E uma coisa eu digo, com certeza: quem vier a
desposá-la, ficará cheio de ouro.
ROMEU - É Capuleto? Oh conta cara! Minha vida é dívida de hoje em diante no livro do inimigo.
BENVÓLIO - A festa já acabou; vamos embora.
ROMEU - Acabou? Para mim começa agora.
CAPULETO - Não, cavalheiros, não saiais tão cedo; ainda teremos uma ceiazinha. Mas partis mesmo? A
todos, obrigado. Muito obrigado, honesto cavalheiro. Boa noite. - Trazei-me aqui mais tochas! Sendo
assim, vou deitar-me. É certo, amigo: já está ficando tarde. Vou deitar-me.
(Saem todos, com exceção de Julieta e a ama.)
JULIETA - Ama, quem é aquele gentil-homem?
AMA - Herdeiro e filho de Tibério, o velho.
JULIETA - E aquele que ora passa pela porta?
AMA - Se não me engano, é o filho de Petrucchio.
JULIETA - E aquele que ali vai, que não dançou?
AMA - Não sei quem seja.
JULIETA - Então vai perguntar-lhe como se chama. Vai! Se for casado, um túmulo será todo o meu
fado.
AMA - Romeu é o nome dele; é um dos Montecchios, filho único do vosso grande imigo.
JULIETA - Como do amor a inimizade me arde! Desconhecido e asnado muito tarde. Como esse
monstro, o amor, brinca comigo: apaixonada ver-me do inimigo!
AMA - Como assim? Como assim?
JULIETA - Isso é uma rima que aprender fui com quem dancei há pouco.
AMA - Já vamos! Um momento! - Está na hora; já se foram os hóspedes embora.
(Saem.)
PRÓLOGO
(Entra o coro.)
CORO - Moribundo se encontra o antigo afeto, querendo o novo amor ser seu herdeiro; da beldade fatal
o externo aspecto frente a Julieta é monstro verdadeiro. Ama Romeu, sendo também amado. Cada um
nos olhos do outro acha feitiço; queixa-se ele do imigo proclamado; na mais pungente dor cria ela viço.
Sendo inimigo, acesso junto dela não obtém ele para suas juras; nem ela sabe, como, com cautela, lhe
poderá dizer palavras puras. Mas o amor, em tamanha extremidade. sabe fazer da dor felicidade.
ROMEU E JULIETA, ATO III, Cena I
Verona. Uma praça pública. Entram Mercúcio, Benvólio, pajem e criados.
BENVÓLIO - Peço-te, bom Mercúcio: retiremo-nos. Quente está o dia; os Capuletos andam pela cidade.
Caso os encontremos, não poderemos evitar contendas. O sangue ferve nestes dias quentes.
MERCÚCIO - Tu te assemelhas a esses tipos que, mal entram numa taberna, batem com a espada em
cima da mesa e gritam: "Queira Deus que eu não venha a ter necessidade de ti!" e que após o efeito do
segundo copo, sacam-na contra o taberneiro sem a menor necessidade.
BENVÓLIO - Serei, acaso, um tipo desse gênero?
MERCÚCIO - Vamos, vamos; és tão esquentado como quem mais o for em toda a Itália; muito
prontamente raivoso para ser arrebatado.
BENVÓLIO - E a propósito de quê?
MERCÚCIO - Se houvesse mais outro tipo como tu, dentro de pouco tempo não existiria nenhum,
porque vos mataríeis mutuamente. És capaz de brigar com um homem por que tem um fio a mais ou a
menos na barba do que tu; brigarás com quem estiver quebrando nozes, sem outro motivo além do de
teres os olhos cor de nozes. Que olhos, a não serem esses mesmos, seriam capazes de descobrir
semelhante briga? Tua cabeça é tão cheia de rixas como de alimento o ovo, se bem que, por causa de
brigas, tenha sido batida tantas vezes como clara de ovo. Já brigaste com um homem que tossiu na rua e
despertou o teu cão, que dormia ao sol. Pois não tiveste uma rixa com um alfaiate, só por ter ele vestido
um casaco novo, antes da Páscoa? E com outro, por ter amarrado os sapatos novos com cordões usados?
Sendo, pois, o que és, pretendes dar-me lições de prudência?
BENVÓLIO - Se eu fosse tão briguento como tu, ninguém compraria os bens alodiais de minha vida,
simplesmente por uma hora e um quarto.
MERCÚCIO - Simplesmente? Que simplicidade!
BENVÓLIO - Por minha cabeça, ai vem vindo um Capuleto.
MERCÚCIO - Por meu pé, a mim isso pouco importa.
(Entram Tebaldo e outros.)
TEBALDO - Ficai perto de mim, pois vou falar-lhe. Cavalheiros, bom dia; uma palavra com qualquer
um de vós.
MERCÚCIO - Só uma palavra com um de nós? Acrescentai mais alguma coisa; que seja uma palavra e
uma estocada.
TEBALDO - Haveis de encontrar-me disposto para isso, quando me fornecerdes oportunidade.
MERCÚCIO - Não achais oportunidade, sem que vo-la ofereçam?
TEBALDO - Mercúcio, tu estás concertado com Romeu...
MERCÚCIO - Concertado? Como! Tomas-nos por músicos? Se nos tomares por músicos, prepara-te
para ouvir só desarmonias. Aqui está o arco da minha rabeca, que vos fará dançar. A-la-fé! Concertado!
BENVÓLIO - Estamos conversando numa praça bastante freqüentada. Retiremo-nos para algum ponto à
parte ou ide embora, que sobre nós os olhos estão fixos.
MERCÚCIO - Para ver é que os olhos foram feitos. Que nos vejam. Daqui não dou um passo.
(Entra Romeu.)
TEBALDO - Ficai em paz, senhores; eis meu homem.
MERCÚCIO - Que me enforquem se ele usa vossa farda. Para o campo segui, que ele irá junto. Nesse
sentido, é certo: ele é vosso homem.
TEBALDO - O ódio, Romeu, que me despertas, sabe dizer-te apenas isto: és um vilão.
ROMEU - A razão de te amar, que eu tenho agora, Tebaldo, escusa à saciedade a raiva de uma tal
saudação. Não sou o que dizes. Adeus; bem vejo que não me conheces.
TEBALDO - Isso, rapaz, não basta como escusa para quantas injúrias me tens feito. Faze, pois,
meia-volta e arranca a espada.
ROMEU - Protesto que jamais te fiz injúria. Tenho-te mais amor do que imaginas, até que saibas o
motivo disso. Assim, bom Capuleto - oh nome caro! tão caro quanto o meu - fica contente.
MERCÚCIO - Oh calma submissão, vil e insultuosa! Alla stoccata! Decidamos logo.
(Saca da espada.)
Tebaldo, caçador de rato, queres dar voltazinhas?
TEBALDO - Que desejas?
MERCÚCIO - Nada mais, meu bom rei dos gatos, além de uma das vossas nove vidas, que tomarei a
liberdade de tirar, deixando as outras oito para malhar depois, conforme o tratamento que me derdes. Não
vos resolveis a puxar vossa espada pela orelha e tirá-la da bainha? Mas ponde pressa nisso, para que a
minha não vos atinja as orelhas antes de ficar de fora a vossa.
TEBALDO - (sacando da espada) - Estou ao vosso dispor.
ROMEU - Gentil Mercúcio, guarda a espada.
MERCÚCIO - Vamos, senhor; vosso passado.
(Batem-se.)
ROMEU - Benvólio, saca a espada; desarmemo-los. Cavalheiros, que opróbrio! Evitai isso. Oh
Mercúcio! Tebaldo! O príncipe proibiu expressamente essas brigas nas ruas de Verona. Tebaldo! Bom
Mercúcio!
(Sai Tebaldo com seus partidários.)
MERCÚCIO - Estou ferido. A peste caia em vossas casas. Morto! E ele não teve nada? Foi embora?
BENVÓLIO - Como! Foste ferido?
MERCÚCIO - Um arranhão, um arranhão somente; mas já chega. Que leve a breca! E o pajem, onde se
acha? Patife, vai buscar um cirurgião.
(Sai o pajem.)
ROMEU - Coragem, homem! O ferimento não deve ser profundo.
MERCÚCIO- Não; não é tão fundo quanto um poço, nem tão largo quanto porta de igreja. Mas é o
suficiente e quanto basta. Perguntai por mim amanhã, que haveis de encontrar-me bem quieto. Para este
mundo já estou salgado, posso afiançar-vos! Um cão, um rato, um camundongo, um pulha, um biltre, que
briga segundo as regras da aritmética! Por que diabo vos metestes entre nós? Fui ferido por baixo de
vosso braço.
ROMEU - Eu estava bem-intencionado.
MERCÚCIO - Conduze-me, Benvólio, a alguma casa; senão, desmaio. A peste em vossas casas! De mim
fizeram pasto para os vermes. Já tenho a minha parte. Vossas casas!
(Saem Mercúcio e Benvólio.)
ROMEU - Este fidalgo, próximo parente do príncipe, sincero amigo meu, por mim, tão-só, ferido foi de
morte. Minha reputação está manchada com o insulto de Tebaldo, esse Tebaldo que meu parente foi
durante uma hora. Doce Julieta! Tua formosura fez de mim um maricas; a coragem do aço se abranda e
verga no meu peito.
(Volta Benvólio.)
BENVÓLIO - Romeu, Romeu, o bom Mercúcio é morto! Foi para as nuvens esse bravo espírito que
desprezou tão cedo o pó terreno.
ROMEU - Hoje o fado somente dá o rebate para que o tempo as dores arremate.
(Volta Tebaldo.)
BENVÓLIO - O furioso Tebaldo está de volta.
ROMEU - Vivo! Em triunfo! E morto o bom Mercúcio? Vai para o céu, brandura respeitosa! Fúria de
olhar de fogo, sê meu guia! Tebaldo, ora recebe de retorno o "vilão" que me deste não faz muito, pois a
alma de Mercúcio ainda se encontra perto de nossas fontes, aguardando que a tua vá fazer-lhe
companhia. Um de nós dois terá, pois, de ir com ele.
TEBALDO - Pobre rapaz, que estavas de seu lado, és tu que vais partir.
ROMEU - Pois decidamos.
(Batem-se; Tebaldo cai.)
BENVÓLIO - Romeu, foge depressa! Os cidadãos se amotinaram. Morto está Tebaldo. Não fiques
aturdido, pois o príncipe vai condenar-te à morte, se encontrado fores aqui. Despacha-te depressa!
ROMEU - Sou o bobo da fortuna.
BENVÓLIO - Foge! Ora essa!
(Sai Romeu.)
PRIMEIRO CIDADÃO - Para onde foi o que matou Mercúcio? O assassino, Tebaldo, onde se encontra?
BENVÓLIO - Tebaldo? Aqui.
PRIMEIRO CIDADÃO - Em nome, então, do príncipe, vos intimo, senhor; vinde comigo.
(Entra o príncipe, com séqüito; Montecchio, Capuleto, suas esposas e outras pessoas.) PRÍNCIPE -
Quem desafiou, assim, o meu castigo?
BENVÓLIO - Dizer-te posso, ó príncipe, a maneira por que teve começo esta cegueira. Pelo jovem
Romeu ali se encontra morto o homem que matou o teu parente, nosso bravo Mercúcio.
SENHORA CAPULETO - Como! O primo Tebaldo? O filho do meu caro irmão? Primo, marido,
príncipe, no chão vejo o sangue correr de um meu parente. Se veraz fores, príncipe, realmente, sangue
desses Montecchios há de, agora, ser também derramado, sem demora. Oh primo! primo!
PRÍNCIPE - Quem deu começo à luta dolorida?
BENVÓLIO - Tebaldo, que Romeu deixou sem vida; Romeu, que lhe falou com termos brandos, com ele
instando para que pensasse na ausência de motivo da querela, tendo invocado, até, vosso desgosto, tudo
isso com voz doce, olhar tranqüilo e ademanes corteses, sem que tréguas conseguisse alcançar da grande
cólera do furioso Tebaldo, que com aço pontiagudo visava uma e mais vezes o peito de Mercúcio
valoroso. Este, só chamas, ponta opõe a ponta; com desprezo marcial, a fria morte faz afastar com uma
das mãos, ao tempo em que com a outra a devolvia célere ao peito de Tebaldo que, habilmente, de
retorno lha enviava. Em altas vozes Romeu gritava: "Amigos, separai-vos !" E mais rápido, ainda, que
sua língua, seu ágil braço desviava as pontas, entre ambos se interpondo. Mas por baixo do braço dele
um golpe malfadado de Tebaldo a existência atinge em cheio do valente Mercúcio. Então Tebaldo se põe
em fuga, mas retorna logo para Romeu, que, nesse instante, havia concebido a vingança. Mais velozes
que o raio se engalfinham e, assim, antes de eu poder separá-los, cai sem vida o valente Tebaldo, a cuja
vista Romeu fugiu. Se nisto houver maldade, vivo Benvólio prosseguir não há de.
SENHORA CAPULETO - Parente é dos Montecchios; bom serviço presta aos seus com mentir-vos em
tudo isso. Foi de vinte, no mínimo, a sortida, para tirar apenas uma vida. Justiça, príncipe! e que seja
breve: Romeu matou Tebaldo; morrer deve.
PRÍNCIPE - Matou quem a Mercúcio antes matara. Quem paga o preço dessa vida cara?
MONTECCHIO - Príncipe, não Romeu; ele era amigo de Mercúcio; só fez dar o castigo que a própria lei
impunha: incontinenti dando a morte a Tebaldo imprevidente.
PRINCIPE - Por essa transgressão de nosso edito ficará de Verona já proscrito. Vosso ódio atinge a mim,
também, de perto; sangra-me o coração por ele aberto. Mas hei de vos impor a. pena dura que minha dor
desde hoje vos augura. Surdo serei a escusas e pedidos; nem lágrimas nem preces os ouvidos poderão
abalar-me. Assim, com pressa fazei Romeu partir; ordem é expressa. Porque se acaso nisso houver
demora, ouvido ele terá sua última hora. Levai o corpo. O excesso de demência causa mortes também,
por imprudência.
(Saem.)
BENVÓLIO - Peço-te, bom Mercúcio: retiremo-nos. Quente está o dia; os Capuletos andam pela cidade.
Caso os encontremos, não poderemos evitar contendas. O sangue ferve nestes dias quentes.
MERCÚCIO - Tu te assemelhas a esses tipos que, mal entram numa taberna, batem com a espada em
cima da mesa e gritam: "Queira Deus que eu não venha a ter necessidade de ti!" e que após o efeito do
segundo copo, sacam-na contra o taberneiro sem a menor necessidade.
BENVÓLIO - Serei, acaso, um tipo desse gênero?
MERCÚCIO - Vamos, vamos; és tão esquentado como quem mais o for em toda a Itália; muito
prontamente raivoso para ser arrebatado.
BENVÓLIO - E a propósito de quê?
MERCÚCIO - Se houvesse mais outro tipo como tu, dentro de pouco tempo não existiria nenhum,
porque vos mataríeis mutuamente. És capaz de brigar com um homem por que tem um fio a mais ou a
menos na barba do que tu; brigarás com quem estiver quebrando nozes, sem outro motivo além do de
teres os olhos cor de nozes. Que olhos, a não serem esses mesmos, seriam capazes de descobrir
semelhante briga? Tua cabeça é tão cheia de rixas como de alimento o ovo, se bem que, por causa de
brigas, tenha sido batida tantas vezes como clara de ovo. Já brigaste com um homem que tossiu na rua e
despertou o teu cão, que dormia ao sol. Pois não tiveste uma rixa com um alfaiate, só por ter ele vestido
um casaco novo, antes da Páscoa? E com outro, por ter amarrado os sapatos novos com cordões usados?
Sendo, pois, o que és, pretendes dar-me lições de prudência?
BENVÓLIO - Se eu fosse tão briguento como tu, ninguém compraria os bens alodiais de minha vida,
simplesmente por uma hora e um quarto.
MERCÚCIO - Simplesmente? Que simplicidade!
BENVÓLIO - Por minha cabeça, ai vem vindo um Capuleto.
MERCÚCIO - Por meu pé, a mim isso pouco importa.
(Entram Tebaldo e outros.)
TEBALDO - Ficai perto de mim, pois vou falar-lhe. Cavalheiros, bom dia; uma palavra com qualquer
um de vós.
MERCÚCIO - Só uma palavra com um de nós? Acrescentai mais alguma coisa; que seja uma palavra e
uma estocada.
TEBALDO - Haveis de encontrar-me disposto para isso, quando me fornecerdes oportunidade.
MERCÚCIO - Não achais oportunidade, sem que vo-la ofereçam?
TEBALDO - Mercúcio, tu estás concertado com Romeu...
MERCÚCIO - Concertado? Como! Tomas-nos por músicos? Se nos tomares por músicos, prepara-te
para ouvir só desarmonias. Aqui está o arco da minha rabeca, que vos fará dançar. A-la-fé! Concertado!
BENVÓLIO - Estamos conversando numa praça bastante freqüentada. Retiremo-nos para algum ponto à
parte ou ide embora, que sobre nós os olhos estão fixos.
MERCÚCIO - Para ver é que os olhos foram feitos. Que nos vejam. Daqui não dou um passo.
(Entra Romeu.)
TEBALDO - Ficai em paz, senhores; eis meu homem.
MERCÚCIO - Que me enforquem se ele usa vossa farda. Para o campo segui, que ele irá junto. Nesse
sentido, é certo: ele é vosso homem.
TEBALDO - O ódio, Romeu, que me despertas, sabe dizer-te apenas isto: és um vilão.
ROMEU - A razão de te amar, que eu tenho agora, Tebaldo, escusa à saciedade a raiva de uma tal
saudação. Não sou o que dizes. Adeus; bem vejo que não me conheces.
TEBALDO - Isso, rapaz, não basta como escusa para quantas injúrias me tens feito. Faze, pois,
meia-volta e arranca a espada.
ROMEU - Protesto que jamais te fiz injúria. Tenho-te mais amor do que imaginas, até que saibas o
motivo disso. Assim, bom Capuleto - oh nome caro! tão caro quanto o meu - fica contente.
MERCÚCIO - Oh calma submissão, vil e insultuosa! Alla stoccata! Decidamos logo.
(Saca da espada.)
Tebaldo, caçador de rato, queres dar voltazinhas?
TEBALDO - Que desejas?
MERCÚCIO - Nada mais, meu bom rei dos gatos, além de uma das vossas nove vidas, que tomarei a
liberdade de tirar, deixando as outras oito para malhar depois, conforme o tratamento que me derdes. Não
vos resolveis a puxar vossa espada pela orelha e tirá-la da bainha? Mas ponde pressa nisso, para que a
minha não vos atinja as orelhas antes de ficar de fora a vossa.
TEBALDO - (sacando da espada) - Estou ao vosso dispor.
ROMEU - Gentil Mercúcio, guarda a espada.
MERCÚCIO - Vamos, senhor; vosso passado.
(Batem-se.)
ROMEU - Benvólio, saca a espada; desarmemo-los. Cavalheiros, que opróbrio! Evitai isso. Oh
Mercúcio! Tebaldo! O príncipe proibiu expressamente essas brigas nas ruas de Verona. Tebaldo! Bom
Mercúcio!
(Sai Tebaldo com seus partidários.)
MERCÚCIO - Estou ferido. A peste caia em vossas casas. Morto! E ele não teve nada? Foi embora?
BENVÓLIO - Como! Foste ferido?
MERCÚCIO - Um arranhão, um arranhão somente; mas já chega. Que leve a breca! E o pajem, onde se
acha? Patife, vai buscar um cirurgião.
(Sai o pajem.)
ROMEU - Coragem, homem! O ferimento não deve ser profundo.
MERCÚCIO- Não; não é tão fundo quanto um poço, nem tão largo quanto porta de igreja. Mas é o
suficiente e quanto basta. Perguntai por mim amanhã, que haveis de encontrar-me bem quieto. Para este
mundo já estou salgado, posso afiançar-vos! Um cão, um rato, um camundongo, um pulha, um biltre, que
briga segundo as regras da aritmética! Por que diabo vos metestes entre nós? Fui ferido por baixo de
vosso braço.
ROMEU - Eu estava bem-intencionado.
MERCÚCIO - Conduze-me, Benvólio, a alguma casa; senão, desmaio. A peste em vossas casas! De mim
fizeram pasto para os vermes. Já tenho a minha parte. Vossas casas!
(Saem Mercúcio e Benvólio.)
ROMEU - Este fidalgo, próximo parente do príncipe, sincero amigo meu, por mim, tão-só, ferido foi de
morte. Minha reputação está manchada com o insulto de Tebaldo, esse Tebaldo que meu parente foi
durante uma hora. Doce Julieta! Tua formosura fez de mim um maricas; a coragem do aço se abranda e
verga no meu peito.
(Volta Benvólio.)
BENVÓLIO - Romeu, Romeu, o bom Mercúcio é morto! Foi para as nuvens esse bravo espírito que
desprezou tão cedo o pó terreno.
ROMEU - Hoje o fado somente dá o rebate para que o tempo as dores arremate.
(Volta Tebaldo.)
BENVÓLIO - O furioso Tebaldo está de volta.
ROMEU - Vivo! Em triunfo! E morto o bom Mercúcio? Vai para o céu, brandura respeitosa! Fúria de
olhar de fogo, sê meu guia! Tebaldo, ora recebe de retorno o "vilão" que me deste não faz muito, pois a
alma de Mercúcio ainda se encontra perto de nossas fontes, aguardando que a tua vá fazer-lhe
companhia. Um de nós dois terá, pois, de ir com ele.
TEBALDO - Pobre rapaz, que estavas de seu lado, és tu que vais partir.
ROMEU - Pois decidamos.
(Batem-se; Tebaldo cai.)
BENVÓLIO - Romeu, foge depressa! Os cidadãos se amotinaram. Morto está Tebaldo. Não fiques
aturdido, pois o príncipe vai condenar-te à morte, se encontrado fores aqui. Despacha-te depressa!
ROMEU - Sou o bobo da fortuna.
BENVÓLIO - Foge! Ora essa!
(Sai Romeu.)
PRIMEIRO CIDADÃO - Para onde foi o que matou Mercúcio? O assassino, Tebaldo, onde se encontra?
BENVÓLIO - Tebaldo? Aqui.
PRIMEIRO CIDADÃO - Em nome, então, do príncipe, vos intimo, senhor; vinde comigo.
(Entra o príncipe, com séqüito; Montecchio, Capuleto, suas esposas e outras pessoas.) PRÍNCIPE -
Quem desafiou, assim, o meu castigo?
BENVÓLIO - Dizer-te posso, ó príncipe, a maneira por que teve começo esta cegueira. Pelo jovem
Romeu ali se encontra morto o homem que matou o teu parente, nosso bravo Mercúcio.
SENHORA CAPULETO - Como! O primo Tebaldo? O filho do meu caro irmão? Primo, marido,
príncipe, no chão vejo o sangue correr de um meu parente. Se veraz fores, príncipe, realmente, sangue
desses Montecchios há de, agora, ser também derramado, sem demora. Oh primo! primo!
PRÍNCIPE - Quem deu começo à luta dolorida?
BENVÓLIO - Tebaldo, que Romeu deixou sem vida; Romeu, que lhe falou com termos brandos, com ele
instando para que pensasse na ausência de motivo da querela, tendo invocado, até, vosso desgosto, tudo
isso com voz doce, olhar tranqüilo e ademanes corteses, sem que tréguas conseguisse alcançar da grande
cólera do furioso Tebaldo, que com aço pontiagudo visava uma e mais vezes o peito de Mercúcio
valoroso. Este, só chamas, ponta opõe a ponta; com desprezo marcial, a fria morte faz afastar com uma
das mãos, ao tempo em que com a outra a devolvia célere ao peito de Tebaldo que, habilmente, de
retorno lha enviava. Em altas vozes Romeu gritava: "Amigos, separai-vos !" E mais rápido, ainda, que
sua língua, seu ágil braço desviava as pontas, entre ambos se interpondo. Mas por baixo do braço dele
um golpe malfadado de Tebaldo a existência atinge em cheio do valente Mercúcio. Então Tebaldo se põe
em fuga, mas retorna logo para Romeu, que, nesse instante, havia concebido a vingança. Mais velozes
que o raio se engalfinham e, assim, antes de eu poder separá-los, cai sem vida o valente Tebaldo, a cuja
vista Romeu fugiu. Se nisto houver maldade, vivo Benvólio prosseguir não há de.
SENHORA CAPULETO - Parente é dos Montecchios; bom serviço presta aos seus com mentir-vos em
tudo isso. Foi de vinte, no mínimo, a sortida, para tirar apenas uma vida. Justiça, príncipe! e que seja
breve: Romeu matou Tebaldo; morrer deve.
PRÍNCIPE - Matou quem a Mercúcio antes matara. Quem paga o preço dessa vida cara?
MONTECCHIO - Príncipe, não Romeu; ele era amigo de Mercúcio; só fez dar o castigo que a própria lei
impunha: incontinenti dando a morte a Tebaldo imprevidente.
PRINCIPE - Por essa transgressão de nosso edito ficará de Verona já proscrito. Vosso ódio atinge a mim,
também, de perto; sangra-me o coração por ele aberto. Mas hei de vos impor a. pena dura que minha dor
desde hoje vos augura. Surdo serei a escusas e pedidos; nem lágrimas nem preces os ouvidos poderão
abalar-me. Assim, com pressa fazei Romeu partir; ordem é expressa. Porque se acaso nisso houver
demora, ouvido ele terá sua última hora. Levai o corpo. O excesso de demência causa mortes também,
por imprudência.
(Saem.)
ROMEU E JULIETA, ATO III, Cena II
O mesmo. Jardim de Capuleto. Entra Julieta.
JULIETA - Correi, correi, corcéis de pés de fogo, para a casa de Febo. Um condutor como Faetonte vos
teria há muito tocado para o poente e, na mesma hora, trazido a noite escura. Espalha tua cortina, ó noite,
guarda dos amores, porque os olhos curiosos nada vejam e a estes braços Romeu se precipite, de manso e
sem ser visto. Os namorados enxergam no ato do amoroso rito, pela própria beleza; ou então, se é cego,
de fato, o amor, diz bem com a negra noite. Vem, noite circunspecta, com teu manto de matrona severa,
todo preto, e me ensina a perder uma partida que já está ganha e em que se jogam duas virgindades sem
mancha. Ao rosto sobe-me o sangue tímido; em teu manto envolve-o, até que o amor esquivo, já se tendo
tornado corajoso, só inocência veja no ato do amor sincero e puro. Vem, noite! Vem, Romeu! tu, noite e
dia, pois vais ficar nas asas desta noite mais branco do que neve sobre um corvo. Vem, gentil noite! vem,
noite amorosa de escuras sobrancelhas! Restitui-me o meu Romeu, e quando, mais adiante, ele vier a
morrer, em pedacinhos o corta, como estrelas bem pequenas, e ele a face do céu fará tão bela que
apaixonado o mundo vai mostrar-se da morte, sem que o sol esplendoroso continue a cultuar. Comprei a
casa de um amor, sem estar na posse dela; vendida embora me ache, possuída não fui ainda. Tão tedioso
e lento é este dia, tal como a noite em véspera de alguma grande festa para criança impaciente que tenha
roupa nova, mas não possa vesti-la. Oh! aí vem a ama.
(Entra a ama, com cordas.)
Traz novidades, sim. Todas as línguas que só sabem dizer Romeu, Romeu, falam com eloqüência
celestial. Então, ama, que é que há? Que trazes aí? As cordas de Romeu?
AMA - Sim, sim; as cordas.
(Atira-as ao chão.)
JULIETA - Ai de mim! Que acontece? Por que torces as mãos dessa maneira?
AMA -- Oh dia! Oh dia! Morreu! morreu! morreu! Oh! dia! Estamos perdidas, senhorita! Sim! perdidas!
Mataram-no! Que dia! Está sem vida!
JULIETA - Tão invejoso o céu pode mostrar-se?
AMA - Romeu o pode, embora o céu não possa. Oh Romeu! Oh Romeu! Quem poderia ter pensado em
tal coisa?
JULIETA - Por que diabo me atormentas assim? Essa tortura rugida deveria ser no inferno. Suicidou-se
Romeu? Basta dizeres "sim" que essa palavrinha mais veneno para mim conterá do que a mirada fatal do
basilisco. Morta me acho, se esse "sim" existir, se já estiverem sem vida os olhos que esse "sim" indicam.
Já morreu? Vive? Dize "sim" ou "não"; um som é tudo para o coração.
AMA - Vi a ferida, vi com estes olhos - Deus nos acuda! - em seu valente peito. Pobre cadáver! pobre e
ensangüentado; pálido como cinza, recoberto de coágulos de sangue. A esse espetáculo desmaiei.
JULIETA - Coração, então estala! Ide para a prisão, olhos ociosos, porque não mais vereis a liberdade.
Argila vil, a morte aqui não erra; que em Romeu e em ti pese a mesma terra.
AMA - Ó Tebaldo, Tebaldo! grande amigo! Ó Tebaldo polido, cavalheiro de grande honestidade! Ter eu
vida para morto te ver!
JULIETA - Que tempestade de golpes tão atravessados? Morto foi Romeu e Tebaldo está sem vida? Meu
caro primo, meu querido esposo? Então, fatal trombeta, soa o juízo final! Quem poderá ficar com vida, se
os dois mortos estão?
AMA - Assassinado foi Tebaldo, e Romeu se acha banido; tendo-o matado, logo foi banido.
JULIETA - Deus! A mão de Romeu derramou o sangue de meu primo Tebaldo?
AMA - Derramou, derramou. Oh! que dia! Derramou.
JULIETA - Oh coração serpente, mascarado com feições de uma flor! Em algum tempo dragão já houve
em cova tão formosa? Monstro atraente, angélico demônio, corvo de belas penas, cordeirinho devorador
como o insaciável lobo, substância desprezível de aparência mais que divina, justamente o oposto do que
mostravas ser! Santo maldito, muito honrado vilão! Ó natureza, que tinhas a fazer no negro inferno,
quando puseste um infernal espírito no mortal paraíso de uma carne tão bela e tão perfeita? Já houve
livro de matéria tão vil, que encadernado fosse com tanto esmero? Oh! que a mentira tenha morada num
palácio desses!
AMA - Nos homens não há fé, não há confiança, nenhuma honestidade. Todos eles são mentirosos,
falsos e perjuros. Não valem nada. Onde está meu criado? Dêem-me aqua vitae. Todas estas dores, estas
tristezas me deixaram velha. Caia o opróbrio em Romeu!
JULIETA - Que tua língua de pústulas se cubra, por haveres formulado esse voto! Para o opróbrio não
nasceu ele. Sobre sua fronte o opróbrio se envergonha de sentar-se, pois é trono em que pode ser coroada
a honra como monarca incontestável da terra universal. Oh! fui autêntico animal, por haver falado dele.
AMA - Elogiais quem matou vosso parente?
JULIETA - Poderei falar mal de meu marido? Ah! meu pobre senhor, que língua pode teu nome
acariciar, se eu, há três horas apenas, tua esposa, o mutilei? Mas por que deste a morte, miserável, a meu
primo? É que o primo miserável teria dado a morte a meu marido. Voltai, lágrimas tolas, para vossa fonte
de origem; à tristeza são devidas as gotas tributárias que por engano ofereceis ao riso. Vivo está meu
esposo, que Tebaldo desejava matar; morto, Tebaldo, que teria matado meu marido. Isso consola. Então,
por que chorar? Mas há uma palavra pior ainda que a morte de Tebaldo e que me mata. Desejara
esquecê-la; mas, oh dor! pesa-me na memória: "Assassinado foi Tebaldo e Romeu se acha banido!" Essa
palavra só, esse "banido", matou dez mil Tebaldos. Essa morte de Tebaldo já fora dor bastante, se
terminasse aí, Ou, ainda mesmo que a dor amarga amasse a companhia, e acompanhada se fizesse
sempre de outras desgraças, por que causa, quando ela disse: "Tebaldo está sem vida", não se seguiu,
também: "teu pai foi morto", ou "tua mãe", ou ambos, sim, que fora razão de sobra para as ordinárias
lamentações? Mas vindo a retaguarda da morte de Tebaldo com este título: "Romeu banido foi", não há
limite, medida, fim, nem termo para a morte dessa palavra. Tudo está sem norte. Meus pais, ama, onde
estão?
AMA - A morte fria de Tebaldo lastimam neste dia. Quereis ir vê-los? Posso conduzir-vos.
JULIETA - Eles lavam com lágrimas doridas o corpo de Tebaldo. Mais sentidas as minhas correrão neste
momento para chorar do amor o banimento. Junta estas cordas. Ai! fostes logradas, assim como eu, ó
cordas malfadadas! porque Romeu agora está no exílio. Ele contava com o vosso auxílio para chegar até
meu virgem leito; mas viúva vai achar-me, deste jeito. Vem, ama; traze as cordas, pois à morte, não a
Romeu me liga a triste sorte.
AMA - Recolhei-vos a vossos aposentos. Hei de encontrar Romeu, para trazer-vos algum consolo. Sei
onde se encontra. Ficai certa de tê-lo aqui esta noite. Vou buscá-lo já já. Está escondido na cela de
Lourenço.
JULIETA - Oh! traze-o logo! Dá-lhe este anel e dize ao meu amado que me venha trazer o último adeus.
(Saem.)
JULIETA - Correi, correi, corcéis de pés de fogo, para a casa de Febo. Um condutor como Faetonte vos
teria há muito tocado para o poente e, na mesma hora, trazido a noite escura. Espalha tua cortina, ó noite,
guarda dos amores, porque os olhos curiosos nada vejam e a estes braços Romeu se precipite, de manso e
sem ser visto. Os namorados enxergam no ato do amoroso rito, pela própria beleza; ou então, se é cego,
de fato, o amor, diz bem com a negra noite. Vem, noite circunspecta, com teu manto de matrona severa,
todo preto, e me ensina a perder uma partida que já está ganha e em que se jogam duas virgindades sem
mancha. Ao rosto sobe-me o sangue tímido; em teu manto envolve-o, até que o amor esquivo, já se tendo
tornado corajoso, só inocência veja no ato do amor sincero e puro. Vem, noite! Vem, Romeu! tu, noite e
dia, pois vais ficar nas asas desta noite mais branco do que neve sobre um corvo. Vem, gentil noite! vem,
noite amorosa de escuras sobrancelhas! Restitui-me o meu Romeu, e quando, mais adiante, ele vier a
morrer, em pedacinhos o corta, como estrelas bem pequenas, e ele a face do céu fará tão bela que
apaixonado o mundo vai mostrar-se da morte, sem que o sol esplendoroso continue a cultuar. Comprei a
casa de um amor, sem estar na posse dela; vendida embora me ache, possuída não fui ainda. Tão tedioso
e lento é este dia, tal como a noite em véspera de alguma grande festa para criança impaciente que tenha
roupa nova, mas não possa vesti-la. Oh! aí vem a ama.
(Entra a ama, com cordas.)
Traz novidades, sim. Todas as línguas que só sabem dizer Romeu, Romeu, falam com eloqüência
celestial. Então, ama, que é que há? Que trazes aí? As cordas de Romeu?
AMA - Sim, sim; as cordas.
(Atira-as ao chão.)
JULIETA - Ai de mim! Que acontece? Por que torces as mãos dessa maneira?
AMA -- Oh dia! Oh dia! Morreu! morreu! morreu! Oh! dia! Estamos perdidas, senhorita! Sim! perdidas!
Mataram-no! Que dia! Está sem vida!
JULIETA - Tão invejoso o céu pode mostrar-se?
AMA - Romeu o pode, embora o céu não possa. Oh Romeu! Oh Romeu! Quem poderia ter pensado em
tal coisa?
JULIETA - Por que diabo me atormentas assim? Essa tortura rugida deveria ser no inferno. Suicidou-se
Romeu? Basta dizeres "sim" que essa palavrinha mais veneno para mim conterá do que a mirada fatal do
basilisco. Morta me acho, se esse "sim" existir, se já estiverem sem vida os olhos que esse "sim" indicam.
Já morreu? Vive? Dize "sim" ou "não"; um som é tudo para o coração.
AMA - Vi a ferida, vi com estes olhos - Deus nos acuda! - em seu valente peito. Pobre cadáver! pobre e
ensangüentado; pálido como cinza, recoberto de coágulos de sangue. A esse espetáculo desmaiei.
JULIETA - Coração, então estala! Ide para a prisão, olhos ociosos, porque não mais vereis a liberdade.
Argila vil, a morte aqui não erra; que em Romeu e em ti pese a mesma terra.
AMA - Ó Tebaldo, Tebaldo! grande amigo! Ó Tebaldo polido, cavalheiro de grande honestidade! Ter eu
vida para morto te ver!
JULIETA - Que tempestade de golpes tão atravessados? Morto foi Romeu e Tebaldo está sem vida? Meu
caro primo, meu querido esposo? Então, fatal trombeta, soa o juízo final! Quem poderá ficar com vida, se
os dois mortos estão?
AMA - Assassinado foi Tebaldo, e Romeu se acha banido; tendo-o matado, logo foi banido.
JULIETA - Deus! A mão de Romeu derramou o sangue de meu primo Tebaldo?
AMA - Derramou, derramou. Oh! que dia! Derramou.
JULIETA - Oh coração serpente, mascarado com feições de uma flor! Em algum tempo dragão já houve
em cova tão formosa? Monstro atraente, angélico demônio, corvo de belas penas, cordeirinho devorador
como o insaciável lobo, substância desprezível de aparência mais que divina, justamente o oposto do que
mostravas ser! Santo maldito, muito honrado vilão! Ó natureza, que tinhas a fazer no negro inferno,
quando puseste um infernal espírito no mortal paraíso de uma carne tão bela e tão perfeita? Já houve
livro de matéria tão vil, que encadernado fosse com tanto esmero? Oh! que a mentira tenha morada num
palácio desses!
AMA - Nos homens não há fé, não há confiança, nenhuma honestidade. Todos eles são mentirosos,
falsos e perjuros. Não valem nada. Onde está meu criado? Dêem-me aqua vitae. Todas estas dores, estas
tristezas me deixaram velha. Caia o opróbrio em Romeu!
JULIETA - Que tua língua de pústulas se cubra, por haveres formulado esse voto! Para o opróbrio não
nasceu ele. Sobre sua fronte o opróbrio se envergonha de sentar-se, pois é trono em que pode ser coroada
a honra como monarca incontestável da terra universal. Oh! fui autêntico animal, por haver falado dele.
AMA - Elogiais quem matou vosso parente?
JULIETA - Poderei falar mal de meu marido? Ah! meu pobre senhor, que língua pode teu nome
acariciar, se eu, há três horas apenas, tua esposa, o mutilei? Mas por que deste a morte, miserável, a meu
primo? É que o primo miserável teria dado a morte a meu marido. Voltai, lágrimas tolas, para vossa fonte
de origem; à tristeza são devidas as gotas tributárias que por engano ofereceis ao riso. Vivo está meu
esposo, que Tebaldo desejava matar; morto, Tebaldo, que teria matado meu marido. Isso consola. Então,
por que chorar? Mas há uma palavra pior ainda que a morte de Tebaldo e que me mata. Desejara
esquecê-la; mas, oh dor! pesa-me na memória: "Assassinado foi Tebaldo e Romeu se acha banido!" Essa
palavra só, esse "banido", matou dez mil Tebaldos. Essa morte de Tebaldo já fora dor bastante, se
terminasse aí, Ou, ainda mesmo que a dor amarga amasse a companhia, e acompanhada se fizesse
sempre de outras desgraças, por que causa, quando ela disse: "Tebaldo está sem vida", não se seguiu,
também: "teu pai foi morto", ou "tua mãe", ou ambos, sim, que fora razão de sobra para as ordinárias
lamentações? Mas vindo a retaguarda da morte de Tebaldo com este título: "Romeu banido foi", não há
limite, medida, fim, nem termo para a morte dessa palavra. Tudo está sem norte. Meus pais, ama, onde
estão?
AMA - A morte fria de Tebaldo lastimam neste dia. Quereis ir vê-los? Posso conduzir-vos.
JULIETA - Eles lavam com lágrimas doridas o corpo de Tebaldo. Mais sentidas as minhas correrão neste
momento para chorar do amor o banimento. Junta estas cordas. Ai! fostes logradas, assim como eu, ó
cordas malfadadas! porque Romeu agora está no exílio. Ele contava com o vosso auxílio para chegar até
meu virgem leito; mas viúva vai achar-me, deste jeito. Vem, ama; traze as cordas, pois à morte, não a
Romeu me liga a triste sorte.
AMA - Recolhei-vos a vossos aposentos. Hei de encontrar Romeu, para trazer-vos algum consolo. Sei
onde se encontra. Ficai certa de tê-lo aqui esta noite. Vou buscá-lo já já. Está escondido na cela de
Lourenço.
JULIETA - Oh! traze-o logo! Dá-lhe este anel e dize ao meu amado que me venha trazer o último adeus.
(Saem.)
ROMEU E JULIETA, ATO IV, Cena I
Verona. Cela de Frei Lourenço. Entram frei Lourenço e Páris.
FREI LOURENÇO - Quinta-feira, senhor? O prazo é curto.
PÁRIS - Foi o pai Capuleto que assim quis, sem que eu propenso esteja para frouxa deixar a pressa dele.
FREI LOURENÇO - Mas dissestes que não sabeis ainda o que a donzela sobre isso resolveu. Esse
caminho não o considero certo; não me agrada.
PÁRIS - Chora sem pausa a morte de Tebaldo. Por essa causa, pouco conversamos a respeito de amor;
não sorri Vênus numa casa de lágrimas. Agora, senhor, ficai sabendo que o pai dela considera nocivo ela
entregar-se desse modo à tristeza, e tem em sua sabedoria posto pressa às núpcias, para sustar a
inundação das lágrimas. O que na solidão toma incremento, pode minguar na vida em sociedade. Sabeis,
pois, as razões de tanta pressa.
FREI LOURENÇO (à parte) - Quisera não saber quais os motivos que à dilação obrigam. - Vede, conde:
aí vem a dama em direção à cela.
(Entra Julieta.)
PÁRIS - Feliz encontro, minha esposa e dona!
JULIETA - Assim poderá ser, quando casar-me.
PÁRIS - O "poderá" será na quinta-feira próxima.
JULIETA - O que tiver de ser, será.
FREI LOURENÇO - É um dito muito certo.
PÁRIS - Aqui viestes para vos confessar com este monge?
JULIETA - Dar-vos uma resposta, já seria confessar-me convosco.
PÁRIS - Revelai-lhe que me tendes amor.
JULIETA - A vós diria que lhe dedico amor.
PÁRIS - Do mesmo modo lhe direis que me amais, tenho certeza.
JULIETA - Se assim fosse, teria mais valia não vos dizer no rosto, mas nas costas.
PÁRIS - Pobre alma, o rosto as lágrimas te ofendem.
JULIETA - É vitória pequena para as lágrimas, pois, antes disso, ele já era feio.
PÁRIS - Mais o ofendeste agora, assim falando, do que com tuas lágrimas.
JULIETA - Calúnia não foi, senhor; só disse o que é verdade.
PÁRIS - Teu rosto é meu; com isso o caluniaste.
JULIETA - Pode ser, que a mim mesma não pertence. Tendes vagar agora, santo padre, ou voltar devo à
tarde, para a missa?
FREI LOURENÇO - Tenho vagar agora, minha filha pensativa. Senhor, será preciso que nos deixeis
sozinhos.
PÁRIS - Deus não queira que eu possa perturbar a devoção! Julieta, quinta-feira, bem cedinho, hei de vos
despertar. Até esse instante, adeus: Ficai com este beijo pio.
(Sai.)
JULIETA - Oh! fecha a porta logo! E, após a teres fechado, vem também chorar comigo. Já não há
esperança, nem remédio, não há socorro algum.
FREI LOURENÇO - O Julieta! já sei do teu desgosto. Ele ultrapassa de muito meus espíritos.
Disseram-me que vais casar na quinta-feira próxima com o Conde Páris, sem que nada possa adiar a
cerimônia.
JULIETA - Não me fales, padre, no que soubeste a esse respeito, se o meio não disseres de evitá-lo. Se
em toda tua ciência não achares nenhum recurso, ao menos chamai sábia minha resolução, pois esta faca
já já me ensejará remédio pronto. Meu coração e o de Romeu reunidos foram por Deus; as mãos tu nos
juntaste. Antes, pois, que esta mão, por ti fechada na de Romeu, possa servir de timbre para outra
transação, ou que o meu fido coração, com perfídia revoltosa, corra para outro, assim os dois liquido. Por
tudo isso, com tua experiência, dá-me logo um conselho. Do contrário, verás como esta faca sanguinária
de árbitro vai servir entre mim própria e a minha dor imensa, decidindo sobre o que a autoridade de teus
anos e de tanto saber não conseguiram levar a termo honroso. Não retardes a resposta. Viver me causa
tédio, se falar não me vieres do remédio.
FREI LOURENÇO - Pára, filha! Vislumbro uma esperança, mas a tal ponto desesperadora, como é
desesperado o que queremos impedir que aconteça. Se energia tens suficiente para suicidar-te, só para a
mão não dar ao Conde Páris, será melhor, então, que te resolvas a empreender algo que suicídio lembra,
para afastar o opróbrio, assim lutando com a morte, para dela te furtares. Se ousares isso, arranjarei os
meios.
JULIETA - Oh! mandai que eu me jogue das ameias daquela torre, mas de casamento com o conde não
faleis; ou concitai-me a andar pelas estradas de assaltantes, ou a esconder-me em ninhos de serpentes;
amarrai-me com ursos rugidores; numa carneira me fechai à noite, cheia de ossos humanos, que se
choquem, de tíbias negras, crânios sem mandíbulas; mandai-me entrar num túmulo recente, para
esconder-me, ao lado do defunto, sob sua própria mortalha; coisas essas que, só de ouvir, tremer já me
fizeram. Sem a menor vacilação, sem medo, tudo farei, contanto que prossiga como esposa sem mancha
de quem amo.
FREI LOURENÇO - Escuta, então: vai para casa, mostra-te alegre e dize que disposta te achas a
desposar o conde. Quarta-feira é amanhã; amanhã, à noite, deita-te sozinha, sem que fique a ama no
quarto. Toma este frasco, e quando te deitares em tua cama, bebe seu conteúdo, que pelas veias, logo, há
de correr-te humor frio, de efeito entorpecente, sem que a bater o pulso continue em seu curso normal,
parando logo. Calor nenhum nem hálito tua vida poderão atestar; mudadas ficam essas rosas das faces e
da boca em cinza desmaiada, a cair vindo as janelas dos olhos, como quando fecha o dia da vida a morte
escura. Do maleável poder os membros todos ficando, então, privados, hão de frios e rígidos tornar-se
como a morte. Vinte e quatro horas ficarás com esse tétrico aspecto da engelhada morte, para acordar
como de um doce sono. Quando, portanto, cedo vier o noivo despertar-te do leito, estarás morta. Então -
como é costume em nossa terra - com belas vestes, num esquife aberto, posta serás no mesmo antigo
túmulo em que toda a família Capuleto tem sido sepultada. Nesse em meio, antes de despertares, Romeu
há de, por minhas cartas, conhecer o que houve e virá para cá. Aguardaremos, eu e ele, que despertes,
conduzindo-te Romeu, na mesma noite, para Mântua. Do opróbrio ameaçador esse projeto te livrará, se o
medo feminino ou o capricho volúvel, à última hora, não te privarem do valor consueto.
JULIETA - Dai-mo! dai-mo! e vereis se tenho medo.
FREI LOURENÇO - Eis aqui. Parti logo e conservai-vos nessa resolução. Vou mandar prestes a Mântua
um portador com uma carta de minha parte para teu marido.
JULIETA - Triunfe o amor, e eis tudo resolvido. Adeus, meu caro padre.
(Saem.)
FREI LOURENÇO - Quinta-feira, senhor? O prazo é curto.
PÁRIS - Foi o pai Capuleto que assim quis, sem que eu propenso esteja para frouxa deixar a pressa dele.
FREI LOURENÇO - Mas dissestes que não sabeis ainda o que a donzela sobre isso resolveu. Esse
caminho não o considero certo; não me agrada.
PÁRIS - Chora sem pausa a morte de Tebaldo. Por essa causa, pouco conversamos a respeito de amor;
não sorri Vênus numa casa de lágrimas. Agora, senhor, ficai sabendo que o pai dela considera nocivo ela
entregar-se desse modo à tristeza, e tem em sua sabedoria posto pressa às núpcias, para sustar a
inundação das lágrimas. O que na solidão toma incremento, pode minguar na vida em sociedade. Sabeis,
pois, as razões de tanta pressa.
FREI LOURENÇO (à parte) - Quisera não saber quais os motivos que à dilação obrigam. - Vede, conde:
aí vem a dama em direção à cela.
(Entra Julieta.)
PÁRIS - Feliz encontro, minha esposa e dona!
JULIETA - Assim poderá ser, quando casar-me.
PÁRIS - O "poderá" será na quinta-feira próxima.
JULIETA - O que tiver de ser, será.
FREI LOURENÇO - É um dito muito certo.
PÁRIS - Aqui viestes para vos confessar com este monge?
JULIETA - Dar-vos uma resposta, já seria confessar-me convosco.
PÁRIS - Revelai-lhe que me tendes amor.
JULIETA - A vós diria que lhe dedico amor.
PÁRIS - Do mesmo modo lhe direis que me amais, tenho certeza.
JULIETA - Se assim fosse, teria mais valia não vos dizer no rosto, mas nas costas.
PÁRIS - Pobre alma, o rosto as lágrimas te ofendem.
JULIETA - É vitória pequena para as lágrimas, pois, antes disso, ele já era feio.
PÁRIS - Mais o ofendeste agora, assim falando, do que com tuas lágrimas.
JULIETA - Calúnia não foi, senhor; só disse o que é verdade.
PÁRIS - Teu rosto é meu; com isso o caluniaste.
JULIETA - Pode ser, que a mim mesma não pertence. Tendes vagar agora, santo padre, ou voltar devo à
tarde, para a missa?
FREI LOURENÇO - Tenho vagar agora, minha filha pensativa. Senhor, será preciso que nos deixeis
sozinhos.
PÁRIS - Deus não queira que eu possa perturbar a devoção! Julieta, quinta-feira, bem cedinho, hei de vos
despertar. Até esse instante, adeus: Ficai com este beijo pio.
(Sai.)
JULIETA - Oh! fecha a porta logo! E, após a teres fechado, vem também chorar comigo. Já não há
esperança, nem remédio, não há socorro algum.
FREI LOURENÇO - O Julieta! já sei do teu desgosto. Ele ultrapassa de muito meus espíritos.
Disseram-me que vais casar na quinta-feira próxima com o Conde Páris, sem que nada possa adiar a
cerimônia.
JULIETA - Não me fales, padre, no que soubeste a esse respeito, se o meio não disseres de evitá-lo. Se
em toda tua ciência não achares nenhum recurso, ao menos chamai sábia minha resolução, pois esta faca
já já me ensejará remédio pronto. Meu coração e o de Romeu reunidos foram por Deus; as mãos tu nos
juntaste. Antes, pois, que esta mão, por ti fechada na de Romeu, possa servir de timbre para outra
transação, ou que o meu fido coração, com perfídia revoltosa, corra para outro, assim os dois liquido. Por
tudo isso, com tua experiência, dá-me logo um conselho. Do contrário, verás como esta faca sanguinária
de árbitro vai servir entre mim própria e a minha dor imensa, decidindo sobre o que a autoridade de teus
anos e de tanto saber não conseguiram levar a termo honroso. Não retardes a resposta. Viver me causa
tédio, se falar não me vieres do remédio.
FREI LOURENÇO - Pára, filha! Vislumbro uma esperança, mas a tal ponto desesperadora, como é
desesperado o que queremos impedir que aconteça. Se energia tens suficiente para suicidar-te, só para a
mão não dar ao Conde Páris, será melhor, então, que te resolvas a empreender algo que suicídio lembra,
para afastar o opróbrio, assim lutando com a morte, para dela te furtares. Se ousares isso, arranjarei os
meios.
JULIETA - Oh! mandai que eu me jogue das ameias daquela torre, mas de casamento com o conde não
faleis; ou concitai-me a andar pelas estradas de assaltantes, ou a esconder-me em ninhos de serpentes;
amarrai-me com ursos rugidores; numa carneira me fechai à noite, cheia de ossos humanos, que se
choquem, de tíbias negras, crânios sem mandíbulas; mandai-me entrar num túmulo recente, para
esconder-me, ao lado do defunto, sob sua própria mortalha; coisas essas que, só de ouvir, tremer já me
fizeram. Sem a menor vacilação, sem medo, tudo farei, contanto que prossiga como esposa sem mancha
de quem amo.
FREI LOURENÇO - Escuta, então: vai para casa, mostra-te alegre e dize que disposta te achas a
desposar o conde. Quarta-feira é amanhã; amanhã, à noite, deita-te sozinha, sem que fique a ama no
quarto. Toma este frasco, e quando te deitares em tua cama, bebe seu conteúdo, que pelas veias, logo, há
de correr-te humor frio, de efeito entorpecente, sem que a bater o pulso continue em seu curso normal,
parando logo. Calor nenhum nem hálito tua vida poderão atestar; mudadas ficam essas rosas das faces e
da boca em cinza desmaiada, a cair vindo as janelas dos olhos, como quando fecha o dia da vida a morte
escura. Do maleável poder os membros todos ficando, então, privados, hão de frios e rígidos tornar-se
como a morte. Vinte e quatro horas ficarás com esse tétrico aspecto da engelhada morte, para acordar
como de um doce sono. Quando, portanto, cedo vier o noivo despertar-te do leito, estarás morta. Então -
como é costume em nossa terra - com belas vestes, num esquife aberto, posta serás no mesmo antigo
túmulo em que toda a família Capuleto tem sido sepultada. Nesse em meio, antes de despertares, Romeu
há de, por minhas cartas, conhecer o que houve e virá para cá. Aguardaremos, eu e ele, que despertes,
conduzindo-te Romeu, na mesma noite, para Mântua. Do opróbrio ameaçador esse projeto te livrará, se o
medo feminino ou o capricho volúvel, à última hora, não te privarem do valor consueto.
JULIETA - Dai-mo! dai-mo! e vereis se tenho medo.
FREI LOURENÇO - Eis aqui. Parti logo e conservai-vos nessa resolução. Vou mandar prestes a Mântua
um portador com uma carta de minha parte para teu marido.
JULIETA - Triunfe o amor, e eis tudo resolvido. Adeus, meu caro padre.
(Saem.)
ROMEU E JULIETA, ATO III, Cena V
O mesmo. Quarto de Julieta. Entram Romeu e Julieta.
JULIETA - Já vais partir? O dia ainda está longe. Não foi a cotovia, mas apenas o rouxinol que o fundo
amedrontado do ouvido te feriu. Todas as noites ele canta nos galhos da romeira. É o rouxinol, amor; crê
no que eu digo.
ROMEU - É a cotovia, o arauto da manhã; não foi o rouxinol. Olha, querida, para aquelas estrias
invejosas que cortam pelas nuvens do nascente. As candeias da noite se apagaram; sobre a ponta dos pés
o alegre dia se põe, no pico das montanhas úmidas. Ou parto, e vivo, ou morrerei, ficando.
JULIETA - Não é do dia aquela claridade, podes acreditar-me. É algum meteoro que o sol exala, para
que te sirva de tocheiro esta noite e te ilumine no caminho de Mântua. Assim, espera. Não precisas partir
assim tão cedo.
ROMEU - Que importa que me prendam, que me matem? Serei feliz, assim, se assim o quiseres. Direi
que aquele ponto acinzentado não é o olho do dia, mas o pálido reflexo do diadema da alta Cíntia, e
também que não foi a cotovia, cujas notas a abóbada celeste tão longe ferem sobre nossas frontes. Ficar é
para mim grande ventura; partir é dor. Vem logo, morte dura! Julieta quer assim. Não, não é dia.
JULIETA - É dia; foge! A noite se abrevia. Depressa! É a cotovia, sim, que canta desafinada e rouca,
discordantes modulações forçando e insuportáveis. Dizem que ela é só fonte de harmonia; não é assim,
pois ora nos divide. Há quem diga que o sapo e a cotovia mudam os olhos. Oh! quisera agora que ambos
a voz também trocado houvessem, pois ela nos separa e, assim tão cedo, como grito de caça mete medo.
Oh vai! A luz aumenta a cada instante.
ROMEU - A luz? A escuridão apavorante.
(Entra a ama.)
AMA - Senhora!
JULIETA - Ama?
AMA - Vossa mãe se dirige para cá. Sede prudente; já raiou o dia, como podereis ver.
(Sai.)
JULIETA - Então, janela, que o dia entre no quarto e a vida fuja.
ROMEU - Adeus, adeus! Um beijo, e desço logo.
(Desce.)
JULIETA - Já foste? Meu senhor! Amor! Amigo! Notícias quero ter todas as horas, porque um minuto
encerra muitos dias. Fazendo a conta assim, ficarei velha antes de ver de novo o meu Romeu.
ROMEU - Adeus. Não deixarei passar um só momento sem te mandar contar o meu tormento. JULIETA
- Oh! pensas mesmo que ainda nos veremos?
ROMEU - Não o duvides; todas estas dores nos servirão ainda unicamente para doces deixar nossos
colóquios.
JULIETA - Oh Deus! Um coração tenho agourento. Vendo-te assim, tão longe, só parece que estás sem
vida, dentro de um sepulcro. Ou vejo mal, ou estás, realmente, pálido.
ROMEU - Podes crer-me, querida; de igual modo tu me pareces. A aflição sedenta nos bebe todo o
sangue. Adeus! Adeus!
(Sai.)
JULIETA - Ó fortuna! fortuna! Os homens todos de inconstante te chamam. Se inconstante fores,
mesmo, que tens a ver com ele, pela fidelidade tão famoso? Sê inconstante, fortuna, pois espero que em
vez de o seqüestrares muito tempo, logo o farás voltar.
SENHORA CAPULETO (dentro) - Ó filha! filha! Já estás de pé?
JULIETA - Quem é que está chamando? É minha mãe? Não se deitou ainda, ou já acordou tão cedo?
Qual o insólito motivo que a faz vir falar-me agora?
(Entra a senhora. Capuleto.)
SENHORA CAPULETO - Então, Julieta, como estás?
JULIETA - Senhora, não estou boa.
SENHORA CAPULETO - Ainda a chorar te achas a morte de teu primo? Acaso queres com lágrimas
tirá-lo do sepulcro? Inda que o conseguisses, impossível te fora dar-lhe vida. Assim, deixa isso. Alguma
dor é indício de amizade; mas muito choro indica pouco espírito.
JULIETA - Mas deixai-me chorar tão grande perda.
SENHORA CAPULETO - Sentis a perda, apenas, não o amigo, cuja perda chorais.
JULIETA - Sentindo a perda tanto assim, outra coisa não me resta senão chorar o amigo.
SENHORA CAPULETO - Sim, menina; não choras tanto pela morte dele, como porque está vivo o
miserável que da vida o privou.
JULIETA - Que miserável, minha senhora?
SENHORA CAPULETO - Esse vilão Romeu.
JULIETA (à parte) - Vilão e ele estejam separados por milhares de léguas. - Que perdoado seja por Deus
como por mim já o foi. Contudo, homem nenhum tanto, como ele, me oprime o coração.
SENHORA CAPULETO - É que esse biltre, esse assassino ainda está com vida.
JULIETA - Sim, e longe do alcance destas mãos. Oh! se eu, tão-só, vingar pudesse a morte do meu
querido primo!
SENHORA CAPULETO - Ainda haveremos de vingá-lo; por isso não te aflijas. Pára, pois, com essas
lágrimas. A Mântua, exílio onde se encontra o renegado, mandarei quem lhe dê uma bebida tão fora do
comum, que logo ele há de companhia fazer para Tebaldo. E assim, espero-o, ficarás contente.
JULIETA - Decerto, nunca ficarei contente com Romeu sem o ter em frente - morto. Assim meu pobre
coração lamenta a perda de meu primo. Se pudésseis, senhora, achar uma pessoa, ao menos, que levasse
o veneno, eu o preparara de modo que Romeu, tomando-o, logo repousaria em paz. Oh! como sente meu
coração ouvir-lhe o nome odioso, sem conseguir aproximar-me dele para vingar o amor que eu dedicava
ao meu primo Tebaldo, sobre o corpo de quem o assassinou.
SENHORA CAPULETO - Encontra os meios, que eu acharei esse homem. Mas agora vim trazer-te
notícias mais alegres.
JULIETA - Vem a tempo a alegria em tal tristeza. E em que consistem essas alegrias, minha senhora,
poderei sabê-lo?
SENHORA CAPULETO - Bem, bem, menina; tens um pai zeloso, que para te livrar dessa tristeza
excogitou um dia de alegria como nem tu esperas, nem eu própria poderia pensar.
JULIETA - Oh! vem a tempo! Mas, senhora, que dia será esse?
SENHORA CAPULETO - Filha, vê só! Na quinta-feira próxima na igreja de São Pedro o conde Páris,
valente moço e nobre gentil-homem, para sua ventura, alegre noiva te fará finalmente.
JULIETA - Ora, por essa igreja de São Pedro, e por São Pedro, de mim não fará ele noiva alegre.
Estranho tanta pressa; por esposo ter eu de receber uma pessoa antes até de me fazer a corte! Dizei,
senhora, a meu senhor e pai, que não quero casar; é muito cedo; e que, quando o fizer, posso jurá-lo,
antes escolherei Romeu, que odeio como bem o sabeis, que o conde Páris. Eis aí novidade de primeira.
SENHORA CAPULETO - Aí vem vosso pai; dizei-lhe tudo isso vós mesma e vede as conseqüências.
(Entram Capuleto e a ama.)
CAPULETO - Quando o sol morre, o céu chuvisca orvalho; mas na morte do filho de meu mano chove
torrencialmente. Então, menina, que goteira é essa? Ainda e sempre em lágrimas? Que é isso? Sempre a
chover? Num corpo pequenino, o mar imitar queres, barco, ventos? Pois teus olhos, a que de mar eu
chamo, fluxo e refluxo mostram, só de lágrimas; teu corpo é o barco nesse mar salgado; teus suspiros, os
ventos, que em conflito permanente com as lágrimas se encontram e que hão de soçobrar-te o frágil
corpo tão maltratado pela tempestade, se não fizer a tempo calmaria. Então, mulher: falastes-lhe a
respeito de nossa decisão?
SENHORA CAPULETO - Sim, conversamos. Ela, porém, com isso não concorda. Muito vos agradece.
Eu desejara que essa tola casasse com seu túmulo.
CAPULETO - Mais devagar, mulher! Levai-me junto! Como! Não quer casar? E ainda agradece? Não se
sente orgulhosa? Não se julga muito feliz - sendo, como é, indigna - por lhe termos obtido um noivo
desses, tão digno gentil-homem?
JULIETA - Orgulhosa não estou, mas vos sou agradecida. Não posso ter orgulho do que odeio; mas
agradeço justamente esse ódio que significa amor.
CAPULETO - Que quer dizer tudo isso? Como assim, minha sofista? "Agradecida" e "não agradecida",
"orgulhosa" e também "não orgulhosa"... Não precisais agradecer-me os vossos agradecidos, nem
mostrar orgulho dos orgulhosos ou o que quer que seja. Mas tratai de aprontar vossas juntinhas galantes
para, quinta-feira próxima, a igreja de São Pedro irdes com Páris. Caso contrário, para lá te levo dentro
de uma carroça. Fora! Fora! carniça doente! Fora, marafona! cara de vela!
SENHORA CAPULETO - Ora essa! Estais maluco?
JULIETA - Bondoso pai, de joelhos vos suplico ouvirdes-me, paciente, uma palavra.
CAPULETO - Vai te enforcar, rapariguinha à-toa! Tipo desobediente! Já te mostro. Vai quinta-feira à
igreja, ou não me encares nunca mais, nunca mais! Não me repliques coisa nenhuma. Basta! Não me
fales. Nos dedos sinto cócegas. Pensávamos, mulher, que nossa dita era pequena, porque Deus só nos
dera uma menina; mas vejo agora que esta já nos sobra e que com ela a maldição nos veio. Rameira
à-toa!
AMA - Deus do céu que a ampare! Procedeis mal, senhor, por insultá-la desse modo.
CAPULETO -- Por quê, dona prudência? Guardai na boca a língua sabe-tudo. Ide mas é ensinar vossas
comadres.
AMA -- De mal não disse nada.
CAPULETO -- Bom proveito.
AMA -- Não se pode falar?
CAPULETO -- Paz, resmungona. Velha tonta! Guardai vossas sentenças para vossas iguais. Não
precisamos delas aqui.
SENHORA CAPULETO -- Estais muito excitado.
CAPULETO -- Sacramento de Deus! É de deixar-me louco de todo. Dias e mais dias, a toda hora, de
noite, o ano inteirinho, no trabalho, no jogo, só, no meio dos companheiros, tinha apenas uma
preocupação: sabê-la, enfim, casada. E agora que arranjei um gentil-homem de nobre parentesco, jovem,
rico, de fina educação, forrado, como se costuma dizer, de qualidades excepcionais, e tão proporcionado
como melhor não fora concebível, lá vem uma coisinha choramingas, uma boneca cheia de lamúrias, ao
lhe sorrir a sorte, declarar-me:"Sou muito nova", "amar não me é possível", "não desejo casar-me",
"desculpai-me, por obséquio". Pois não, vou desculpar-vos, se não quereis casar. Procurai pasto onde
bem entenderdes, que aqui em casa não ficareis comigo. Refleti; vede bem; gracejar não é meu hábito.
Quinta-feira está perto; aconselhai-vos com o coração. Se fordes minha filha, por mim a meu amigo
sereis dada. Mas se o não fordes, enforcai-vos, ide pedir esmola, perecer de fome, morrer na rua, pois --
pela alma o juro! -- jamais hei de reconhecer-te e nunca quanto for meu te poderá ser útil. Reflete bem,
pois não serei perjuro.
(Sai.) JULIETA -- Não haverá piedade em meio às nuvens, para dor me sondar até o mais fundo? Oh!
não me repilais, bondosa mãe! Adiai esse esposório pelo prazo de um mês, uma semana; ou se
impossível vos for tal coisa, preparai o tálamo nupcial no monumento em que Tebaldo se encontra
sepultado.
SENHORA CAPULETO - Não me fales. Não digo nada; faze o que entenderes, que para mim não
representas nada.
(Sai.)
JULIETA - Oh Deus! Ó ama! como evitar isso? Tenho o esposo na terra, a fé, no céu. De que modo essa
fé poderá vir-me de novo para a terra, a menos que ele do céu ma envie, após deixar a terra?
Conforta-me; aconselha-me. Oh tristeza! usar o céu de tais estratagemas com um ser tão delicado! Não
me dizes uma palavra, ao menos? Como pensas, ama? Nenhum consolo?
AMA - Sim, digo isto: Romeu está banido; o mundo todo contra nada, em como ele não retorna para vos
reclamar. Mas ainda mesmo que retorne, forçoso é que isso seja muito às ocultas. Ora, estando as coisas
nesse pé, mais razoável me parece desposardes o conde. Oh! que fidalgo tão gracioso! Romeu, ao lado
dele, não é mais do que um pano de cozinha. Uma águia, senhorita, não tem olhos tão penetrantes, verdes
e bonitos como os de Páris. Quero que maldito fique meu coração, se venturosa não vos fizer este
segundo esposo. De muito o outro ele vence; e ainda mesmo que não vencesse, aquele já está morto, ou é
como se estivesse, por viverdes aqui, sem uso algum fazerdes dele.
JULIETA - Falas de coração?
AMA - E também de alma.
JULIETA - Amém.
AMA - Como?
JULIETA - Soubeste consolar-me maravilhosamente. Vai e dize a minha mãe que por haver deixado meu
pai aborrecido, fui à cela de frei Lourenço, com o fim de confessar-me para ser absolvida.
AMA - Dir-lhe-ei isso; procedeis bem.
(Sai,)
JULIETA - Oh velha amaldiçoada! Oh demônio perverso! Que pecado será maior: querer-me ver
perjura, ou insultar meu senhor com a mesma boca que o exaltou sobre tudo neste mundo tantos milhões
de vezes? Conselheira, podes ir. Dora em diante, separados tu e meu peito estais. Vou ver o monge.
Dar-me-á remédio. Vindo a falhar tudo, porei na morte todo o meu estudo.
(Sai.)
JULIETA - Já vais partir? O dia ainda está longe. Não foi a cotovia, mas apenas o rouxinol que o fundo
amedrontado do ouvido te feriu. Todas as noites ele canta nos galhos da romeira. É o rouxinol, amor; crê
no que eu digo.
ROMEU - É a cotovia, o arauto da manhã; não foi o rouxinol. Olha, querida, para aquelas estrias
invejosas que cortam pelas nuvens do nascente. As candeias da noite se apagaram; sobre a ponta dos pés
o alegre dia se põe, no pico das montanhas úmidas. Ou parto, e vivo, ou morrerei, ficando.
JULIETA - Não é do dia aquela claridade, podes acreditar-me. É algum meteoro que o sol exala, para
que te sirva de tocheiro esta noite e te ilumine no caminho de Mântua. Assim, espera. Não precisas partir
assim tão cedo.
ROMEU - Que importa que me prendam, que me matem? Serei feliz, assim, se assim o quiseres. Direi
que aquele ponto acinzentado não é o olho do dia, mas o pálido reflexo do diadema da alta Cíntia, e
também que não foi a cotovia, cujas notas a abóbada celeste tão longe ferem sobre nossas frontes. Ficar é
para mim grande ventura; partir é dor. Vem logo, morte dura! Julieta quer assim. Não, não é dia.
JULIETA - É dia; foge! A noite se abrevia. Depressa! É a cotovia, sim, que canta desafinada e rouca,
discordantes modulações forçando e insuportáveis. Dizem que ela é só fonte de harmonia; não é assim,
pois ora nos divide. Há quem diga que o sapo e a cotovia mudam os olhos. Oh! quisera agora que ambos
a voz também trocado houvessem, pois ela nos separa e, assim tão cedo, como grito de caça mete medo.
Oh vai! A luz aumenta a cada instante.
ROMEU - A luz? A escuridão apavorante.
(Entra a ama.)
AMA - Senhora!
JULIETA - Ama?
AMA - Vossa mãe se dirige para cá. Sede prudente; já raiou o dia, como podereis ver.
(Sai.)
JULIETA - Então, janela, que o dia entre no quarto e a vida fuja.
ROMEU - Adeus, adeus! Um beijo, e desço logo.
(Desce.)
JULIETA - Já foste? Meu senhor! Amor! Amigo! Notícias quero ter todas as horas, porque um minuto
encerra muitos dias. Fazendo a conta assim, ficarei velha antes de ver de novo o meu Romeu.
ROMEU - Adeus. Não deixarei passar um só momento sem te mandar contar o meu tormento. JULIETA
- Oh! pensas mesmo que ainda nos veremos?
ROMEU - Não o duvides; todas estas dores nos servirão ainda unicamente para doces deixar nossos
colóquios.
JULIETA - Oh Deus! Um coração tenho agourento. Vendo-te assim, tão longe, só parece que estás sem
vida, dentro de um sepulcro. Ou vejo mal, ou estás, realmente, pálido.
ROMEU - Podes crer-me, querida; de igual modo tu me pareces. A aflição sedenta nos bebe todo o
sangue. Adeus! Adeus!
(Sai.)
JULIETA - Ó fortuna! fortuna! Os homens todos de inconstante te chamam. Se inconstante fores,
mesmo, que tens a ver com ele, pela fidelidade tão famoso? Sê inconstante, fortuna, pois espero que em
vez de o seqüestrares muito tempo, logo o farás voltar.
SENHORA CAPULETO (dentro) - Ó filha! filha! Já estás de pé?
JULIETA - Quem é que está chamando? É minha mãe? Não se deitou ainda, ou já acordou tão cedo?
Qual o insólito motivo que a faz vir falar-me agora?
(Entra a senhora. Capuleto.)
SENHORA CAPULETO - Então, Julieta, como estás?
JULIETA - Senhora, não estou boa.
SENHORA CAPULETO - Ainda a chorar te achas a morte de teu primo? Acaso queres com lágrimas
tirá-lo do sepulcro? Inda que o conseguisses, impossível te fora dar-lhe vida. Assim, deixa isso. Alguma
dor é indício de amizade; mas muito choro indica pouco espírito.
JULIETA - Mas deixai-me chorar tão grande perda.
SENHORA CAPULETO - Sentis a perda, apenas, não o amigo, cuja perda chorais.
JULIETA - Sentindo a perda tanto assim, outra coisa não me resta senão chorar o amigo.
SENHORA CAPULETO - Sim, menina; não choras tanto pela morte dele, como porque está vivo o
miserável que da vida o privou.
JULIETA - Que miserável, minha senhora?
SENHORA CAPULETO - Esse vilão Romeu.
JULIETA (à parte) - Vilão e ele estejam separados por milhares de léguas. - Que perdoado seja por Deus
como por mim já o foi. Contudo, homem nenhum tanto, como ele, me oprime o coração.
SENHORA CAPULETO - É que esse biltre, esse assassino ainda está com vida.
JULIETA - Sim, e longe do alcance destas mãos. Oh! se eu, tão-só, vingar pudesse a morte do meu
querido primo!
SENHORA CAPULETO - Ainda haveremos de vingá-lo; por isso não te aflijas. Pára, pois, com essas
lágrimas. A Mântua, exílio onde se encontra o renegado, mandarei quem lhe dê uma bebida tão fora do
comum, que logo ele há de companhia fazer para Tebaldo. E assim, espero-o, ficarás contente.
JULIETA - Decerto, nunca ficarei contente com Romeu sem o ter em frente - morto. Assim meu pobre
coração lamenta a perda de meu primo. Se pudésseis, senhora, achar uma pessoa, ao menos, que levasse
o veneno, eu o preparara de modo que Romeu, tomando-o, logo repousaria em paz. Oh! como sente meu
coração ouvir-lhe o nome odioso, sem conseguir aproximar-me dele para vingar o amor que eu dedicava
ao meu primo Tebaldo, sobre o corpo de quem o assassinou.
SENHORA CAPULETO - Encontra os meios, que eu acharei esse homem. Mas agora vim trazer-te
notícias mais alegres.
JULIETA - Vem a tempo a alegria em tal tristeza. E em que consistem essas alegrias, minha senhora,
poderei sabê-lo?
SENHORA CAPULETO - Bem, bem, menina; tens um pai zeloso, que para te livrar dessa tristeza
excogitou um dia de alegria como nem tu esperas, nem eu própria poderia pensar.
JULIETA - Oh! vem a tempo! Mas, senhora, que dia será esse?
SENHORA CAPULETO - Filha, vê só! Na quinta-feira próxima na igreja de São Pedro o conde Páris,
valente moço e nobre gentil-homem, para sua ventura, alegre noiva te fará finalmente.
JULIETA - Ora, por essa igreja de São Pedro, e por São Pedro, de mim não fará ele noiva alegre.
Estranho tanta pressa; por esposo ter eu de receber uma pessoa antes até de me fazer a corte! Dizei,
senhora, a meu senhor e pai, que não quero casar; é muito cedo; e que, quando o fizer, posso jurá-lo,
antes escolherei Romeu, que odeio como bem o sabeis, que o conde Páris. Eis aí novidade de primeira.
SENHORA CAPULETO - Aí vem vosso pai; dizei-lhe tudo isso vós mesma e vede as conseqüências.
(Entram Capuleto e a ama.)
CAPULETO - Quando o sol morre, o céu chuvisca orvalho; mas na morte do filho de meu mano chove
torrencialmente. Então, menina, que goteira é essa? Ainda e sempre em lágrimas? Que é isso? Sempre a
chover? Num corpo pequenino, o mar imitar queres, barco, ventos? Pois teus olhos, a que de mar eu
chamo, fluxo e refluxo mostram, só de lágrimas; teu corpo é o barco nesse mar salgado; teus suspiros, os
ventos, que em conflito permanente com as lágrimas se encontram e que hão de soçobrar-te o frágil
corpo tão maltratado pela tempestade, se não fizer a tempo calmaria. Então, mulher: falastes-lhe a
respeito de nossa decisão?
SENHORA CAPULETO - Sim, conversamos. Ela, porém, com isso não concorda. Muito vos agradece.
Eu desejara que essa tola casasse com seu túmulo.
CAPULETO - Mais devagar, mulher! Levai-me junto! Como! Não quer casar? E ainda agradece? Não se
sente orgulhosa? Não se julga muito feliz - sendo, como é, indigna - por lhe termos obtido um noivo
desses, tão digno gentil-homem?
JULIETA - Orgulhosa não estou, mas vos sou agradecida. Não posso ter orgulho do que odeio; mas
agradeço justamente esse ódio que significa amor.
CAPULETO - Que quer dizer tudo isso? Como assim, minha sofista? "Agradecida" e "não agradecida",
"orgulhosa" e também "não orgulhosa"... Não precisais agradecer-me os vossos agradecidos, nem
mostrar orgulho dos orgulhosos ou o que quer que seja. Mas tratai de aprontar vossas juntinhas galantes
para, quinta-feira próxima, a igreja de São Pedro irdes com Páris. Caso contrário, para lá te levo dentro
de uma carroça. Fora! Fora! carniça doente! Fora, marafona! cara de vela!
SENHORA CAPULETO - Ora essa! Estais maluco?
JULIETA - Bondoso pai, de joelhos vos suplico ouvirdes-me, paciente, uma palavra.
CAPULETO - Vai te enforcar, rapariguinha à-toa! Tipo desobediente! Já te mostro. Vai quinta-feira à
igreja, ou não me encares nunca mais, nunca mais! Não me repliques coisa nenhuma. Basta! Não me
fales. Nos dedos sinto cócegas. Pensávamos, mulher, que nossa dita era pequena, porque Deus só nos
dera uma menina; mas vejo agora que esta já nos sobra e que com ela a maldição nos veio. Rameira
à-toa!
AMA - Deus do céu que a ampare! Procedeis mal, senhor, por insultá-la desse modo.
CAPULETO -- Por quê, dona prudência? Guardai na boca a língua sabe-tudo. Ide mas é ensinar vossas
comadres.
AMA -- De mal não disse nada.
CAPULETO -- Bom proveito.
AMA -- Não se pode falar?
CAPULETO -- Paz, resmungona. Velha tonta! Guardai vossas sentenças para vossas iguais. Não
precisamos delas aqui.
SENHORA CAPULETO -- Estais muito excitado.
CAPULETO -- Sacramento de Deus! É de deixar-me louco de todo. Dias e mais dias, a toda hora, de
noite, o ano inteirinho, no trabalho, no jogo, só, no meio dos companheiros, tinha apenas uma
preocupação: sabê-la, enfim, casada. E agora que arranjei um gentil-homem de nobre parentesco, jovem,
rico, de fina educação, forrado, como se costuma dizer, de qualidades excepcionais, e tão proporcionado
como melhor não fora concebível, lá vem uma coisinha choramingas, uma boneca cheia de lamúrias, ao
lhe sorrir a sorte, declarar-me:"Sou muito nova", "amar não me é possível", "não desejo casar-me",
"desculpai-me, por obséquio". Pois não, vou desculpar-vos, se não quereis casar. Procurai pasto onde
bem entenderdes, que aqui em casa não ficareis comigo. Refleti; vede bem; gracejar não é meu hábito.
Quinta-feira está perto; aconselhai-vos com o coração. Se fordes minha filha, por mim a meu amigo
sereis dada. Mas se o não fordes, enforcai-vos, ide pedir esmola, perecer de fome, morrer na rua, pois --
pela alma o juro! -- jamais hei de reconhecer-te e nunca quanto for meu te poderá ser útil. Reflete bem,
pois não serei perjuro.
(Sai.) JULIETA -- Não haverá piedade em meio às nuvens, para dor me sondar até o mais fundo? Oh!
não me repilais, bondosa mãe! Adiai esse esposório pelo prazo de um mês, uma semana; ou se
impossível vos for tal coisa, preparai o tálamo nupcial no monumento em que Tebaldo se encontra
sepultado.
SENHORA CAPULETO - Não me fales. Não digo nada; faze o que entenderes, que para mim não
representas nada.
(Sai.)
JULIETA - Oh Deus! Ó ama! como evitar isso? Tenho o esposo na terra, a fé, no céu. De que modo essa
fé poderá vir-me de novo para a terra, a menos que ele do céu ma envie, após deixar a terra?
Conforta-me; aconselha-me. Oh tristeza! usar o céu de tais estratagemas com um ser tão delicado! Não
me dizes uma palavra, ao menos? Como pensas, ama? Nenhum consolo?
AMA - Sim, digo isto: Romeu está banido; o mundo todo contra nada, em como ele não retorna para vos
reclamar. Mas ainda mesmo que retorne, forçoso é que isso seja muito às ocultas. Ora, estando as coisas
nesse pé, mais razoável me parece desposardes o conde. Oh! que fidalgo tão gracioso! Romeu, ao lado
dele, não é mais do que um pano de cozinha. Uma águia, senhorita, não tem olhos tão penetrantes, verdes
e bonitos como os de Páris. Quero que maldito fique meu coração, se venturosa não vos fizer este
segundo esposo. De muito o outro ele vence; e ainda mesmo que não vencesse, aquele já está morto, ou é
como se estivesse, por viverdes aqui, sem uso algum fazerdes dele.
JULIETA - Falas de coração?
AMA - E também de alma.
JULIETA - Amém.
AMA - Como?
JULIETA - Soubeste consolar-me maravilhosamente. Vai e dize a minha mãe que por haver deixado meu
pai aborrecido, fui à cela de frei Lourenço, com o fim de confessar-me para ser absolvida.
AMA - Dir-lhe-ei isso; procedeis bem.
(Sai,)
JULIETA - Oh velha amaldiçoada! Oh demônio perverso! Que pecado será maior: querer-me ver
perjura, ou insultar meu senhor com a mesma boca que o exaltou sobre tudo neste mundo tantos milhões
de vezes? Conselheira, podes ir. Dora em diante, separados tu e meu peito estais. Vou ver o monge.
Dar-me-á remédio. Vindo a falhar tudo, porei na morte todo o meu estudo.
(Sai.)
ROMEU E JULIETA, ATO IV, Cena V
O mesmo. Quarto de Julieta.
(Entra a ama.)
AMA - Senhora, olá! Julieta! É quase certo que ainda esteja a dormir. Eh, ovelhinha! Então, senhora?
Então? Que dorminhoca! Então, amor? Senhora! Estou chamando... Coraçãozinho! Noiva!... Como!
Muda? Agora desforrais a vossa parte, dormindo uma semana; mas garanto-vos que na noite que vem o
Conde Páris repouso não terá, porque repouso também não possais ter. Deus me perdoe. Santa Virgem e
amém! Que sono calmo! Mas preciso acordá-la. Olá, senhora! Que o conde venha vos tirar da cama, e
hei de vos espantar. Não falei certo? Como assim? Já vestistes toda a roupa, e outra vez a dormir? Vou
despertá-la, Senhora! Olá!... Oh Deus!... Socorro! A patroa está morta!... Aqui!... Socorro! Oh dia triste!
Assim nunca eu nascesse. Aqua vitae! Senhor! Senhora!... Acudam!..
(Entra a senhora Capuleto.)
SENHORA CAPULETO - Que barulheira é essa?
AMA - Oh dia triste!
SENHORA CAPULETO - Que aconteceu?
AMA - Olhai, senhora... Oh dia!
SENHORA CAPULETO - Oh! minha única filha! Minha filha! Reanima-te, olha para mim, ou deixa-me
morrer também contigo. Aqui! Socorro! Vai chamar gente!
(Entra Capuleto.)
CAPULETO - Que vergonha! Trazei Julieta logo; o noivo já chegou.
AMA - Está sem vida, morta, sem vida! Oh dia desgraçado!
SENHORA CAPULETO - Oh que dia! Morreu! Morreu! Morreu!
CAPULETO - Deixai-me vê-la. Oh dor! Já está gelada. O sangue está parado; os membros, duros. Estes
lábios e a vida há muito tempo separados já estão. A morte se acha sobre ela como geada mui precoce
sobre a flor mais gentil de todo o campo.
AMA - Oh dia lamentável!
SENHORA CAPULETO - Oh tristeza!
CAPULETO - A morte que a tirou de mim com o fito de fazer-me gemer, a língua me ata, não me
deixando pronunciar palavra.
(Entram frei Lourenço e Páris, com músicos.)
FREI LOURENÇO - A noiva já está pronta para a igreja?
CAPULETO - Sim, para ir para a igreja, sem que nunca possa de lá voltar. Ó filho, a morte, na véspera
do dia de tuas núpcias, deitou-se com tua noiva; é minha herdeira; cortejou minha filha. Morrer quero,
para levar à morte o que possuo: vida, bens; tudo é dela.
PÁRIS - Quis tanto ver a face deste dia, para enfim contemplar este espetáculo?
SENHORA CAPULETO - Dia infeliz, maldito, desgraçado! A hora mais triste que já viu o tempo em
toda a sua peregrinação comprida e laboriosa. Uma só filha, uma só, pobre filha, e tão amada, para gozo
e consolo um ser apenas, e a cruel morte arrancar-ma, assim, da vista
AMA - Oh dia triste! Oh dia triste! Oh dor! O dia mais escuro e lamentável que eu vi em toda. a vida. Oh
dia triste! Oh dia odioso! Oh dia! Oh dia triste Nunca vi dia de tão densas trevas. Oh dia triste! Oh dia!
PÁRIS - Ludibriado, ofendido, separado desprezado, destruído... Morte odiosa, ludibriado por ti, por ti,
cruel morte, arruinado de todo. Oh amor! Oh vida...! Não, vida não: amor na própria morte!
CAPULETO - Odiado, desprezado, desolado, martirizado, morto! Inconsolável tempo, por que motivo
vieste agora matar, matar nossa solenidade? Oh filha! Filha, não: alma querida! Já não vives! morreste!
Ah! minha filha já não vive e, com ela, sepultada vai ser minha alegria.
FREI LOURENÇO - Calma! peço-vos; a cura da desordem vir não pode da desorientação. Tal como vós,
tinha o céu parte nesta bela criança. Agora o céu tem tudo, o que é, por certo, melhor para a donzela. Não
vos fora possível subtrair da morte a parte que tínheis nela, mas o céu à dele vida eterna vai dar. O que
queríeis era vê-la elevada; todo o vosso céu consistia justamente nisso. E agora a lastimais, vendo-a
exaltada, tão acima das nuvens, no alto céu? Com vosso amor amais a vossa filha tão mal que vos
mostrais desesperados por sabê-la tão bem? As bem casadas não são as que assim vivem muito tempo;
mas bem casada está quem morre cedo. Interrompei o pranto; sobre o belo corpo espalhai bastante
rosmaninho, e, tal como é de praxe, em suas vestes mais vistosas levai-o para a igreja. Embora chorar
mande a natureza, ri a razão ao choro da tristeza.
CAPULETO - Tudo o que havia para o festival usado ora vai ser no funeral. Os instrumentos viram
melancólicos sinos; nosso festim, jantar funéreo; nossos hinos solenes, puras nênias; as flores nupciais
irão de enfeite servir para o cadáver, transmudando-se, assim, em seu contrário as coisas todas.
FREI LOURENÇO - Retirai-vos, senhor; acompanhai-o, minha senhora; e vós, conde, também. Que
todos se preparem para o belo corpo levar à tumba. Porventura o céu vos pune por qualquer maldade; não
o irriteis, pois essa é a sua vontade.
(Saem Capuleto, a senhora Capuleto, Páris e monge.)
PRIMEIRO MÚSICO - Por minha fé, podemos guardar as gaitas e ir embora.
AMA - Ah! meus homens, guardai-as, guardai-as, que isso é um caso doloroso!
PRIMEIRO MÚSICO - Oh! é certo; poderia ser melhor.
(Entra Pedro.)
PEDRO - Músicos! Olá! "Alegra-te, coração !"Alegra-te, coração!" Se quereis que eu viva, tocai
"Alegra-te coração!"
PRIMEIRO MÚSICO - Por que "Alegra-te, coração?"
PEDRO - Oh! músicos, porque meu próprio coração toca "O coração me pesa de tristeza". Oh! tocai uma
litania alegre, para reconfortar-me.
SEGUNDO MÚSICO - Não, nada de litanias; não é hora de tocar música.
PEDRO - Então não quereis tocar?
MÚSICOS - Não.
PEDRO - Nesse caso vou tratar-vos como o mereceis.
PRIMEIRO MÚSICO - De que modo pretendes tratar-nos?
PEDRO - Não será com dinheiro, é claro; mas com pilhérias. Vou arranjar-vos um arranhador de rabeca.
PRIMEIRO MÚSICO - Nesse caso eu arranjarei para ti um servente de cozinheiro.
PEDRO - E eu vos atirarei na cabeça a faca do servente de cozinheiro. Eu sou assim; não levo semínimas
para casa. Vou fazer de vós ré e fá. Tomastes nota?
PRIMEIRO MÚSICO - Se de nós fizerdes ré e fá, viraremos notas.
SEGUNDO MÚSICO - Por obséquio, por obséquio: esconde essa faca e mostra o espírito.
PEDRO - Tomai cuidado com meu espirito! Vou malhar-vos com meu espírito de aço e embainhar
minha faca. Respondei-me como homens: Quando a dor e a tristeza libertinas me oprimem a cabeça e o
coração, a música de notas argentinas... Por que "notas argentinas"? Por que "música de notas
argentinas"? Que dizeis a isso, Simão Catling?
PRIMEIRO MÚSICO - Ora, senhor, porque a prata tem um som agradável.
PEDRO - Tolice! Que pensais, Hugo Rabeca?
SEGUNDO MÚSICO - Penso que "notas argentinas" significam que os músicos tocam suas notas para
adquirir prata.
PEDRO - Oh! peço perdão. E sois cantores! Vou dar a explicação por vós. A frase "música de notas
argentinas" significa que os músicos nunca vêem ouro com suas notas...a música de notas argentinas com
seu poder me deixa outra vez são.
PRIMEIRO MÚSICO - Que sujeito pestilencioso!
SEGUNDO MÚSICO - Que se enforque! Vamos; entremos, para assistir ao enterro e esperar pelo jantar.
(Saem.)
(Entra a ama.)
AMA - Senhora, olá! Julieta! É quase certo que ainda esteja a dormir. Eh, ovelhinha! Então, senhora?
Então? Que dorminhoca! Então, amor? Senhora! Estou chamando... Coraçãozinho! Noiva!... Como!
Muda? Agora desforrais a vossa parte, dormindo uma semana; mas garanto-vos que na noite que vem o
Conde Páris repouso não terá, porque repouso também não possais ter. Deus me perdoe. Santa Virgem e
amém! Que sono calmo! Mas preciso acordá-la. Olá, senhora! Que o conde venha vos tirar da cama, e
hei de vos espantar. Não falei certo? Como assim? Já vestistes toda a roupa, e outra vez a dormir? Vou
despertá-la, Senhora! Olá!... Oh Deus!... Socorro! A patroa está morta!... Aqui!... Socorro! Oh dia triste!
Assim nunca eu nascesse. Aqua vitae! Senhor! Senhora!... Acudam!..
(Entra a senhora Capuleto.)
SENHORA CAPULETO - Que barulheira é essa?
AMA - Oh dia triste!
SENHORA CAPULETO - Que aconteceu?
AMA - Olhai, senhora... Oh dia!
SENHORA CAPULETO - Oh! minha única filha! Minha filha! Reanima-te, olha para mim, ou deixa-me
morrer também contigo. Aqui! Socorro! Vai chamar gente!
(Entra Capuleto.)
CAPULETO - Que vergonha! Trazei Julieta logo; o noivo já chegou.
AMA - Está sem vida, morta, sem vida! Oh dia desgraçado!
SENHORA CAPULETO - Oh que dia! Morreu! Morreu! Morreu!
CAPULETO - Deixai-me vê-la. Oh dor! Já está gelada. O sangue está parado; os membros, duros. Estes
lábios e a vida há muito tempo separados já estão. A morte se acha sobre ela como geada mui precoce
sobre a flor mais gentil de todo o campo.
AMA - Oh dia lamentável!
SENHORA CAPULETO - Oh tristeza!
CAPULETO - A morte que a tirou de mim com o fito de fazer-me gemer, a língua me ata, não me
deixando pronunciar palavra.
(Entram frei Lourenço e Páris, com músicos.)
FREI LOURENÇO - A noiva já está pronta para a igreja?
CAPULETO - Sim, para ir para a igreja, sem que nunca possa de lá voltar. Ó filho, a morte, na véspera
do dia de tuas núpcias, deitou-se com tua noiva; é minha herdeira; cortejou minha filha. Morrer quero,
para levar à morte o que possuo: vida, bens; tudo é dela.
PÁRIS - Quis tanto ver a face deste dia, para enfim contemplar este espetáculo?
SENHORA CAPULETO - Dia infeliz, maldito, desgraçado! A hora mais triste que já viu o tempo em
toda a sua peregrinação comprida e laboriosa. Uma só filha, uma só, pobre filha, e tão amada, para gozo
e consolo um ser apenas, e a cruel morte arrancar-ma, assim, da vista
AMA - Oh dia triste! Oh dia triste! Oh dor! O dia mais escuro e lamentável que eu vi em toda. a vida. Oh
dia triste! Oh dia odioso! Oh dia! Oh dia triste Nunca vi dia de tão densas trevas. Oh dia triste! Oh dia!
PÁRIS - Ludibriado, ofendido, separado desprezado, destruído... Morte odiosa, ludibriado por ti, por ti,
cruel morte, arruinado de todo. Oh amor! Oh vida...! Não, vida não: amor na própria morte!
CAPULETO - Odiado, desprezado, desolado, martirizado, morto! Inconsolável tempo, por que motivo
vieste agora matar, matar nossa solenidade? Oh filha! Filha, não: alma querida! Já não vives! morreste!
Ah! minha filha já não vive e, com ela, sepultada vai ser minha alegria.
FREI LOURENÇO - Calma! peço-vos; a cura da desordem vir não pode da desorientação. Tal como vós,
tinha o céu parte nesta bela criança. Agora o céu tem tudo, o que é, por certo, melhor para a donzela. Não
vos fora possível subtrair da morte a parte que tínheis nela, mas o céu à dele vida eterna vai dar. O que
queríeis era vê-la elevada; todo o vosso céu consistia justamente nisso. E agora a lastimais, vendo-a
exaltada, tão acima das nuvens, no alto céu? Com vosso amor amais a vossa filha tão mal que vos
mostrais desesperados por sabê-la tão bem? As bem casadas não são as que assim vivem muito tempo;
mas bem casada está quem morre cedo. Interrompei o pranto; sobre o belo corpo espalhai bastante
rosmaninho, e, tal como é de praxe, em suas vestes mais vistosas levai-o para a igreja. Embora chorar
mande a natureza, ri a razão ao choro da tristeza.
CAPULETO - Tudo o que havia para o festival usado ora vai ser no funeral. Os instrumentos viram
melancólicos sinos; nosso festim, jantar funéreo; nossos hinos solenes, puras nênias; as flores nupciais
irão de enfeite servir para o cadáver, transmudando-se, assim, em seu contrário as coisas todas.
FREI LOURENÇO - Retirai-vos, senhor; acompanhai-o, minha senhora; e vós, conde, também. Que
todos se preparem para o belo corpo levar à tumba. Porventura o céu vos pune por qualquer maldade; não
o irriteis, pois essa é a sua vontade.
(Saem Capuleto, a senhora Capuleto, Páris e monge.)
PRIMEIRO MÚSICO - Por minha fé, podemos guardar as gaitas e ir embora.
AMA - Ah! meus homens, guardai-as, guardai-as, que isso é um caso doloroso!
PRIMEIRO MÚSICO - Oh! é certo; poderia ser melhor.
(Entra Pedro.)
PEDRO - Músicos! Olá! "Alegra-te, coração !"Alegra-te, coração!" Se quereis que eu viva, tocai
"Alegra-te coração!"
PRIMEIRO MÚSICO - Por que "Alegra-te, coração?"
PEDRO - Oh! músicos, porque meu próprio coração toca "O coração me pesa de tristeza". Oh! tocai uma
litania alegre, para reconfortar-me.
SEGUNDO MÚSICO - Não, nada de litanias; não é hora de tocar música.
PEDRO - Então não quereis tocar?
MÚSICOS - Não.
PEDRO - Nesse caso vou tratar-vos como o mereceis.
PRIMEIRO MÚSICO - De que modo pretendes tratar-nos?
PEDRO - Não será com dinheiro, é claro; mas com pilhérias. Vou arranjar-vos um arranhador de rabeca.
PRIMEIRO MÚSICO - Nesse caso eu arranjarei para ti um servente de cozinheiro.
PEDRO - E eu vos atirarei na cabeça a faca do servente de cozinheiro. Eu sou assim; não levo semínimas
para casa. Vou fazer de vós ré e fá. Tomastes nota?
PRIMEIRO MÚSICO - Se de nós fizerdes ré e fá, viraremos notas.
SEGUNDO MÚSICO - Por obséquio, por obséquio: esconde essa faca e mostra o espírito.
PEDRO - Tomai cuidado com meu espirito! Vou malhar-vos com meu espírito de aço e embainhar
minha faca. Respondei-me como homens: Quando a dor e a tristeza libertinas me oprimem a cabeça e o
coração, a música de notas argentinas... Por que "notas argentinas"? Por que "música de notas
argentinas"? Que dizeis a isso, Simão Catling?
PRIMEIRO MÚSICO - Ora, senhor, porque a prata tem um som agradável.
PEDRO - Tolice! Que pensais, Hugo Rabeca?
SEGUNDO MÚSICO - Penso que "notas argentinas" significam que os músicos tocam suas notas para
adquirir prata.
PEDRO - Oh! peço perdão. E sois cantores! Vou dar a explicação por vós. A frase "música de notas
argentinas" significa que os músicos nunca vêem ouro com suas notas...a música de notas argentinas com
seu poder me deixa outra vez são.
PRIMEIRO MÚSICO - Que sujeito pestilencioso!
SEGUNDO MÚSICO - Que se enforque! Vamos; entremos, para assistir ao enterro e esperar pelo jantar.
(Saem.)
REI LEAR, ATO I, Cena III
Um quarto no palácio do duque de Albânia. Entram Goneril e seu intendente Osvaldo.
GONERIL - Meu pai bateu no gentil-homem, por ter este ralhado com o bobo dele?
OSVALDO - Sim, minha senhora.
GONERIL - Dia e noite me ofende. Não se passa nenhuma hora sem que ele não fuzile com qualquer
grosseria, que a nós todos traz somente discórdia. Não o suporto; turbulentos estão seus cavaleiros e a
censurar-nos ele próprio vive por dá cá aquela palha. Não pretendo falar com ele, quando vier da caça.
Dizei que estou doente; e, se cumprirdes com certa negligência algum serviço, estará bem; responderei
por tudo.
OSVALDO - Ei-lo, senhora; ouço o barulho, dele.
(Ouve-se toque de trompa.)
GONERIL - Mostrai a negligência que quiserdes, vós e os outros de casa, pois desejo que me venha falar
a esse respeito. Se não gostar, então que se transfira para a casa da mana, cujo modo de pensar, estou
certa, está de acordo com o meu, em não querer ser governada. Velho caduco, a pretender o mando sobre
o que já doou! Por minha vida, os velhos tontos são de novo crianças; com ralhos, só, precisam ser
tratados. Lembrai-vos do que eu disse.
OSVALDO - Sim, senhora.
GONERIL - E lançai frio olhar para seus homens. Pouco importa o que vier; avisai todos. Quero achar
nisso tudo algum pretexto para poder falar. Sem mais delongas, escreverei à mana, para que ela faça
como eu. Prepara logo a ceia.
(Saem.)
GONERIL - Meu pai bateu no gentil-homem, por ter este ralhado com o bobo dele?
OSVALDO - Sim, minha senhora.
GONERIL - Dia e noite me ofende. Não se passa nenhuma hora sem que ele não fuzile com qualquer
grosseria, que a nós todos traz somente discórdia. Não o suporto; turbulentos estão seus cavaleiros e a
censurar-nos ele próprio vive por dá cá aquela palha. Não pretendo falar com ele, quando vier da caça.
Dizei que estou doente; e, se cumprirdes com certa negligência algum serviço, estará bem; responderei
por tudo.
OSVALDO - Ei-lo, senhora; ouço o barulho, dele.
(Ouve-se toque de trompa.)
GONERIL - Mostrai a negligência que quiserdes, vós e os outros de casa, pois desejo que me venha falar
a esse respeito. Se não gostar, então que se transfira para a casa da mana, cujo modo de pensar, estou
certa, está de acordo com o meu, em não querer ser governada. Velho caduco, a pretender o mando sobre
o que já doou! Por minha vida, os velhos tontos são de novo crianças; com ralhos, só, precisam ser
tratados. Lembrai-vos do que eu disse.
OSVALDO - Sim, senhora.
GONERIL - E lançai frio olhar para seus homens. Pouco importa o que vier; avisai todos. Quero achar
nisso tudo algum pretexto para poder falar. Sem mais delongas, escreverei à mana, para que ela faça
como eu. Prepara logo a ceia.
(Saem.)
REI LEAR, ATO II, Cena II
Diante do castelo de Gloster. Entram Kent e Osvaldo, por lados diferentes.
OSVALDO - Boa manhã para ti, amigo; és desta casa?
KENT - Sou.
OSVALDO - Onde poderemos pôr os cavalos?
KENT - No charco.
OSVALDO - Informa-me, por obséquio, se me tens amizade.
KENT - Não te tenho amizade nenhuma.
OSVALDO - Nesse caso não me preocuparei contigo.
KENT - Se eu te pegasse no curral de Lipsbury, obrigar-te-ia a te preocupares comigo.
OSVALDO - Por que me tratas desse modo? Não te conheço.
KENT - Mas eu te conheço, traste.
OSVALDO - Por quem me tomas tu?
KENT - Por um biltre, um canalha, devorador de restos; um biltre ignóbil, atrevido, oco, indigente, de
três librés, massabruta, imundo, de meias estragadas; um biltre com fígado de lírio, um chicanista;
nascido na sarjeta, namorador do espelho, espinha mole, petimetre; um lacaio que só herdou uma roupa,
um tipo que servirá de alcoviteiro, à guisa de bons serviços, mas que não passa de um misto de velhaco,
mendigo, covarde, alcoviteiro e herdeiro de uma cadela bastarda; um tipo em que darei uma coça de
arrancar rugidos, no caso de contestares a menor sílaba de todos estes teus títulos honoríficos.
OSVALDO - Ora, que sujeito monstruoso és tu, para deblaterares contra uma pessoa que nem te conhece
nem é conhecida por ti?
KENT - Que tipo de cara de bronze és tu, para dizeres que não me conheces, se há dois dias eu te dei um
pontapé na frente do rei? Saca a tua espada, pulha; ser noite não importa, visto que há luar; vou fazer de
ti uma sopa à luz da lua.
(Sacando da espada.)
Vamos, desembainha também a tua espada, maroto, coisa à toa, peralvilho! Vamos, desembainha!
OSVALDO - Retira-te daqui! Não tenho nada que ver contigo.
KENT - Desembainha, maroto! Trouxestes cartas contra o rei e tomais o partido da boneca vaidosa,
contra a realeza do pai dela. Saca a espada, biltre; se não retalho-te as canelas. Saca da espada, biltre!
Toma posição!
OSVALDO - Socorro! Olá! Assassino! Socorro!
KENT - Ataca, escravo! Defende-te, patife! Defende-te! Vamos, ataca, lacaio!
(Bate-lhe.)
(Entra Edmundo, de florete na mão.)
EDMUNDO - Então, que aconteceu?
KENT - E convosco, se vos aprouver, meu rapazinho. Vinde, meu jovem mestre, que desejo dar-vos uma
lição.
(Entram Cornualha, Regane, Gloster e criados.)
GLOSTER - Espadas! Armas! Que se passa aqui?
CORNUALHA - Por vossa vida, paz! Morre quem prosseguir. Que é que se passa?
REGANE - Os mensageiros são do rei e da mana.
CORNUALHA - Qual o motivo dessa briga? Vamos!
OSVALDO - Quase não posso respirar, milorde.
KENT - Não admira, pois forçaste demais a valentia. Pulha covarde! A natureza te renega; foste feito por
algum alfaiate.
CORNUALHA - Es um tipo curioso; um alfaiate fazer um homem?
KENT - Sim, um alfaiate, senhor; um escultor ou um pintor não o teriam feito tão mal, ainda que só
trabalhassem duas horas.
CORNUALHA - Falai vós agora: que foi que originou essa briga?
OSVALDO - Este velho desordeiro, senhor, cuja vida eu poupei só por causa daquelas barbas brancas...
KENT - Z amaldiçoado! Letra inútil! Milorde, se o permitirdes, amassarei num pilão esse vilão grosseiro,
para enlambuzar com ele as paredes da latrina. Então poupastes-me as barbas brancas, meu ranheta?
CORNUALHA - Silêncio, biltre! Grosseirão, desconheces o respeito?
KENT - Conheço, sim senhor; mas é que a cólera também tem privilégios.
CORNUALHA - Por que causa ficastes tão colérico?
KENT - Por ver de espada um pulha destituído de honestidade. Os biltres sorridentes como este aqui, tal
qual os ratos, roem os laços sacrossantos que, por fortes, não podem desmanchar; adulam todas as
paixões que refervam no imo peito de seus amos; no fogo põem mais óleo; mais neve, nos humores, de si
frios; afirmam, negam, viram seus pescoços de alcião, de acordo com as menores brisas e variações dos
amos, ignorando, como os cães, tudo o mais, senão seguir. A peste nessa cara de epiléptico! Do meu
discurso ris como de um tolo? Ganso, se eu te apanhasse na planície de Sarnum, tocar-te-ia a Camelot,
fazendo-te grasnar.
CORNUALHA - Que é isso, velho? Ficastes louco?
GLOSTER - Qual a razão disso? Vamos, falai.
KENT - Não pode haver contrários que revelem maior antipatia do que eu e esse patife.
CORNUALHA - Por que causa o chamas de patife? Que te fez?
KENT - Não vou com a cara dele.
CORNUALHA - Nem com a minha não é assim? E a deste aqui, e a dela?... KENT - Senhor, tenho por
hábito ser franco: em minha vida toda já vi rostos mais agradáveis do que quantos posso discernir sobre
os ombros dos presentes.
CORNUALHA - E algum sujeito que por já ter sido louvado de franqueza, usa linguagem rude e
insolente, contra as próprias vestes de sua natureza. É- lhe impossível adular. Não! Caráter reto e
honesto. Só diz o que é a verdade; os mais que a aceitem, se puderem; se não, falou sincero. Conheço
muito bem esses bargantes, cuja franqueza abriga mais enganos e corruptos intentos do que vinte desses
coitados cheios de zumbaias que cumprem belamente seus deveres.
KENT - Por minha alma, senhor, pela verdade, com a permissão de vosso augusto aspecto, cujo poder é
como a auréola rútila da cabeça de Febo coruscante...
CORNUALHA - Que pretendeis com isso?
KENT - Deixando de lado meu estilo, que tanto desaprovais, senhor, sei perfeitamente que não sou
bajulador. Quem vos enganou com fraseado polido não passava de um velhaco, o que, de minha parte,
não pretendo ser, ainda que disso me adviesse conquistar o vosso desagrado.
CORNUALHA - Que ofensa lhe fizestes?
OSVALDO - Eu? Nenhuma. Por um mal-entendido, não faz muito, aprouve ao rei, seu mestre,
castigar-me. Para adular-lhe a cólera, atirou-se-me este aqui por detrás e derrubou-me, sobre insultar-me,
por me ver caído, remoques atirando-me e estadeando tanta virilidade, como se algo, de fato, fosse, e
encômios ganhou logo do rei, porque atacara quem já estava vencido por si mesmo. E ora, animado pelo
êxito de tão grandioso feito, me atacou novamente. KENT - Todos esses covardes e mandriões fazem de
bobo ao próprio Ajaz.
CORNUALHA - Tragam-me logo o cepo! Maroto pertinaz, encanecido fanfarrão, haveremos de
ensinar-vos...
KENT - Senhor, para aprender sou muito velho. Para mim não mandeis trazer o cepo. Pertenço ao rei, e
foi por seu mandado que vos vim procurar. Revelaríeis pouco respeito e excesso de arrogância contra a
pessoa e a graça de meu amo, pondo no cepo o mensageiro dele.
CORNUALHA - Trazei-me o cepo! Por minha alma e honra, há de ficar aí até ao meio-dia.
REGANE - Meio-dia? Até à noite, meu senhor; a noite toda, aliás.
KENT - Como, senhora! Se eu fosse o cão de vosso pai, decerto não me daríeis esse tratamento.
REGANE - Mas dou-vo-lo, por serdes seu criado
. CORNUALHA - Este tipo é da cor dos que nos fala nossa irmã. Vamos; tragam logo o cepo!
(O cepo é trazido.)
GLOSTER - Deixai-me suplicar a Vossa Graça que não façais tal coisa. Sua falta foi grande; mas o rei,
seu bondoso amo, saberá castigá-lo. A pena baixa que ora lhe destinais só é aplicável aos mais vis
transgressores, por delitos ordinários ou crimes de pilhagem. O rei há de achar mal ver-se tratado com
tão pouco respeito no emissário que aqui vai ficar preso.
CORNUALHA - Isso é comigo; responderei por tudo.
REGANE - Pior ainda há de achar minha irmã que houvesse sido agredido e insultado o gentil-homem
da parte dela. - Assim; prendei-lhe os pés. Caro senhor, partamos.
(Kent é posto no cepo.)
(Saem todos, com exceção de Gloster e Kent.)
GLOSTER - Amigo, dás-me pena; mas o duque foi que o determinou, sabendo todos que seu
temperamento não suporta ser friccionado em nada ou posto em xeque. Hei de pedir por ti.
KENT - Não, por obséquio, senhor; não dormi nada e andei bastante. Parte do tempo dormirei; o resto
passarei assobiando. Pode dar-se que pelos calcanhares cresça a sorte de um homem de valor. Dou-vos
bom dia.
GLOSTER - Está errado o duque. Isto vai mal.
(Sai.)
KENT - Bom rei, confirmas o brocardo antigo: deixas as bênçãos de um céu calmo e límpido pelo sol
escaldante. Vem para perto, luz do mundo baixo, porque eu consiga ler esta missiva sob os teus raios
brandos. Quase nunca vemos milagres, se não for apenas quando infelizes. Veio-me esta carta, sei-o bem,
de Cordélia, que, por sorte, ficou sabendo de meu curso obscuro e há de achar ocasião, nesta nossa época
desordenada, para dar remédio ao que estiver doente. Tão cansados por contínuas vigílias, alegrai-vos,
olhos pesados, por não conseguirdes ver bem neste aposento vergonhoso. Fortuna, passa bem; sorri de
novo e faze andar mais uma vez a roda.
(Adormece.)
OSVALDO - Boa manhã para ti, amigo; és desta casa?
KENT - Sou.
OSVALDO - Onde poderemos pôr os cavalos?
KENT - No charco.
OSVALDO - Informa-me, por obséquio, se me tens amizade.
KENT - Não te tenho amizade nenhuma.
OSVALDO - Nesse caso não me preocuparei contigo.
KENT - Se eu te pegasse no curral de Lipsbury, obrigar-te-ia a te preocupares comigo.
OSVALDO - Por que me tratas desse modo? Não te conheço.
KENT - Mas eu te conheço, traste.
OSVALDO - Por quem me tomas tu?
KENT - Por um biltre, um canalha, devorador de restos; um biltre ignóbil, atrevido, oco, indigente, de
três librés, massabruta, imundo, de meias estragadas; um biltre com fígado de lírio, um chicanista;
nascido na sarjeta, namorador do espelho, espinha mole, petimetre; um lacaio que só herdou uma roupa,
um tipo que servirá de alcoviteiro, à guisa de bons serviços, mas que não passa de um misto de velhaco,
mendigo, covarde, alcoviteiro e herdeiro de uma cadela bastarda; um tipo em que darei uma coça de
arrancar rugidos, no caso de contestares a menor sílaba de todos estes teus títulos honoríficos.
OSVALDO - Ora, que sujeito monstruoso és tu, para deblaterares contra uma pessoa que nem te conhece
nem é conhecida por ti?
KENT - Que tipo de cara de bronze és tu, para dizeres que não me conheces, se há dois dias eu te dei um
pontapé na frente do rei? Saca a tua espada, pulha; ser noite não importa, visto que há luar; vou fazer de
ti uma sopa à luz da lua.
(Sacando da espada.)
Vamos, desembainha também a tua espada, maroto, coisa à toa, peralvilho! Vamos, desembainha!
OSVALDO - Retira-te daqui! Não tenho nada que ver contigo.
KENT - Desembainha, maroto! Trouxestes cartas contra o rei e tomais o partido da boneca vaidosa,
contra a realeza do pai dela. Saca a espada, biltre; se não retalho-te as canelas. Saca da espada, biltre!
Toma posição!
OSVALDO - Socorro! Olá! Assassino! Socorro!
KENT - Ataca, escravo! Defende-te, patife! Defende-te! Vamos, ataca, lacaio!
(Bate-lhe.)
(Entra Edmundo, de florete na mão.)
EDMUNDO - Então, que aconteceu?
KENT - E convosco, se vos aprouver, meu rapazinho. Vinde, meu jovem mestre, que desejo dar-vos uma
lição.
(Entram Cornualha, Regane, Gloster e criados.)
GLOSTER - Espadas! Armas! Que se passa aqui?
CORNUALHA - Por vossa vida, paz! Morre quem prosseguir. Que é que se passa?
REGANE - Os mensageiros são do rei e da mana.
CORNUALHA - Qual o motivo dessa briga? Vamos!
OSVALDO - Quase não posso respirar, milorde.
KENT - Não admira, pois forçaste demais a valentia. Pulha covarde! A natureza te renega; foste feito por
algum alfaiate.
CORNUALHA - Es um tipo curioso; um alfaiate fazer um homem?
KENT - Sim, um alfaiate, senhor; um escultor ou um pintor não o teriam feito tão mal, ainda que só
trabalhassem duas horas.
CORNUALHA - Falai vós agora: que foi que originou essa briga?
OSVALDO - Este velho desordeiro, senhor, cuja vida eu poupei só por causa daquelas barbas brancas...
KENT - Z amaldiçoado! Letra inútil! Milorde, se o permitirdes, amassarei num pilão esse vilão grosseiro,
para enlambuzar com ele as paredes da latrina. Então poupastes-me as barbas brancas, meu ranheta?
CORNUALHA - Silêncio, biltre! Grosseirão, desconheces o respeito?
KENT - Conheço, sim senhor; mas é que a cólera também tem privilégios.
CORNUALHA - Por que causa ficastes tão colérico?
KENT - Por ver de espada um pulha destituído de honestidade. Os biltres sorridentes como este aqui, tal
qual os ratos, roem os laços sacrossantos que, por fortes, não podem desmanchar; adulam todas as
paixões que refervam no imo peito de seus amos; no fogo põem mais óleo; mais neve, nos humores, de si
frios; afirmam, negam, viram seus pescoços de alcião, de acordo com as menores brisas e variações dos
amos, ignorando, como os cães, tudo o mais, senão seguir. A peste nessa cara de epiléptico! Do meu
discurso ris como de um tolo? Ganso, se eu te apanhasse na planície de Sarnum, tocar-te-ia a Camelot,
fazendo-te grasnar.
CORNUALHA - Que é isso, velho? Ficastes louco?
GLOSTER - Qual a razão disso? Vamos, falai.
KENT - Não pode haver contrários que revelem maior antipatia do que eu e esse patife.
CORNUALHA - Por que causa o chamas de patife? Que te fez?
KENT - Não vou com a cara dele.
CORNUALHA - Nem com a minha não é assim? E a deste aqui, e a dela?... KENT - Senhor, tenho por
hábito ser franco: em minha vida toda já vi rostos mais agradáveis do que quantos posso discernir sobre
os ombros dos presentes.
CORNUALHA - E algum sujeito que por já ter sido louvado de franqueza, usa linguagem rude e
insolente, contra as próprias vestes de sua natureza. É- lhe impossível adular. Não! Caráter reto e
honesto. Só diz o que é a verdade; os mais que a aceitem, se puderem; se não, falou sincero. Conheço
muito bem esses bargantes, cuja franqueza abriga mais enganos e corruptos intentos do que vinte desses
coitados cheios de zumbaias que cumprem belamente seus deveres.
KENT - Por minha alma, senhor, pela verdade, com a permissão de vosso augusto aspecto, cujo poder é
como a auréola rútila da cabeça de Febo coruscante...
CORNUALHA - Que pretendeis com isso?
KENT - Deixando de lado meu estilo, que tanto desaprovais, senhor, sei perfeitamente que não sou
bajulador. Quem vos enganou com fraseado polido não passava de um velhaco, o que, de minha parte,
não pretendo ser, ainda que disso me adviesse conquistar o vosso desagrado.
CORNUALHA - Que ofensa lhe fizestes?
OSVALDO - Eu? Nenhuma. Por um mal-entendido, não faz muito, aprouve ao rei, seu mestre,
castigar-me. Para adular-lhe a cólera, atirou-se-me este aqui por detrás e derrubou-me, sobre insultar-me,
por me ver caído, remoques atirando-me e estadeando tanta virilidade, como se algo, de fato, fosse, e
encômios ganhou logo do rei, porque atacara quem já estava vencido por si mesmo. E ora, animado pelo
êxito de tão grandioso feito, me atacou novamente. KENT - Todos esses covardes e mandriões fazem de
bobo ao próprio Ajaz.
CORNUALHA - Tragam-me logo o cepo! Maroto pertinaz, encanecido fanfarrão, haveremos de
ensinar-vos...
KENT - Senhor, para aprender sou muito velho. Para mim não mandeis trazer o cepo. Pertenço ao rei, e
foi por seu mandado que vos vim procurar. Revelaríeis pouco respeito e excesso de arrogância contra a
pessoa e a graça de meu amo, pondo no cepo o mensageiro dele.
CORNUALHA - Trazei-me o cepo! Por minha alma e honra, há de ficar aí até ao meio-dia.
REGANE - Meio-dia? Até à noite, meu senhor; a noite toda, aliás.
KENT - Como, senhora! Se eu fosse o cão de vosso pai, decerto não me daríeis esse tratamento.
REGANE - Mas dou-vo-lo, por serdes seu criado
. CORNUALHA - Este tipo é da cor dos que nos fala nossa irmã. Vamos; tragam logo o cepo!
(O cepo é trazido.)
GLOSTER - Deixai-me suplicar a Vossa Graça que não façais tal coisa. Sua falta foi grande; mas o rei,
seu bondoso amo, saberá castigá-lo. A pena baixa que ora lhe destinais só é aplicável aos mais vis
transgressores, por delitos ordinários ou crimes de pilhagem. O rei há de achar mal ver-se tratado com
tão pouco respeito no emissário que aqui vai ficar preso.
CORNUALHA - Isso é comigo; responderei por tudo.
REGANE - Pior ainda há de achar minha irmã que houvesse sido agredido e insultado o gentil-homem
da parte dela. - Assim; prendei-lhe os pés. Caro senhor, partamos.
(Kent é posto no cepo.)
(Saem todos, com exceção de Gloster e Kent.)
GLOSTER - Amigo, dás-me pena; mas o duque foi que o determinou, sabendo todos que seu
temperamento não suporta ser friccionado em nada ou posto em xeque. Hei de pedir por ti.
KENT - Não, por obséquio, senhor; não dormi nada e andei bastante. Parte do tempo dormirei; o resto
passarei assobiando. Pode dar-se que pelos calcanhares cresça a sorte de um homem de valor. Dou-vos
bom dia.
GLOSTER - Está errado o duque. Isto vai mal.
(Sai.)
KENT - Bom rei, confirmas o brocardo antigo: deixas as bênçãos de um céu calmo e límpido pelo sol
escaldante. Vem para perto, luz do mundo baixo, porque eu consiga ler esta missiva sob os teus raios
brandos. Quase nunca vemos milagres, se não for apenas quando infelizes. Veio-me esta carta, sei-o bem,
de Cordélia, que, por sorte, ficou sabendo de meu curso obscuro e há de achar ocasião, nesta nossa época
desordenada, para dar remédio ao que estiver doente. Tão cansados por contínuas vigílias, alegrai-vos,
olhos pesados, por não conseguirdes ver bem neste aposento vergonhoso. Fortuna, passa bem; sorri de
novo e faze andar mais uma vez a roda.
(Adormece.)
REI LEAR, ATO III, Cena III
Um quarto no castelo de Gloster. Entram Gloster e Edmundo.
GLOSTER - Ah, Edmundo, Edmundo! Não me agrada esse procedimento desnaturado. Quando lhes pedi
permissão para apiedar-me dele, privaram-me do uso de minha própria casa, proibindo-me, sob pena de
seu perpétuo descontentamento, de falar a respeito dele, de interceder a seu favor ou de ir-lhe em auxílio
de qualquer maneira.
EDMUNDO - Por demais selvagem e contrário à natureza.
GLOSTER - Acomoda-te; não digas nada. Há divisão entre os duques, e pior do que isso. Esta noite
recebi uma carta. É perigoso falar nisso. Tranquei-a no meu gabinete. Os sofrimentos por que o rei agora
está passando, serão oportunamente vingados. Parte do exército já desembarcou; teremos de ficar do lado
do rei. Vou procurá-lo secretamente e ajudá-lo. Ide conversar com o duque, para que não seja percebida
minha caridade. Se ele perguntar por mim, estou doente e de cama. Ainda que eu venha a perder a vida -
que é o menos com que estou ameaçado - é preciso que o rei, meu velho amo, seja socorrido. Há alguma
coisa muito estranha em perspectiva, Edmundo. Aconselho-vos cautela.
(Sai.)
EDMUNDO - A caridade que te foi proibida será comunicada logo ao duque, como a carta também, o
que parece serviço meritório que me rende quanto meu pai perder, a saber: tudo. Exulta o moço, o velho
fica mudo.
(Sai.)
GLOSTER - Ah, Edmundo, Edmundo! Não me agrada esse procedimento desnaturado. Quando lhes pedi
permissão para apiedar-me dele, privaram-me do uso de minha própria casa, proibindo-me, sob pena de
seu perpétuo descontentamento, de falar a respeito dele, de interceder a seu favor ou de ir-lhe em auxílio
de qualquer maneira.
EDMUNDO - Por demais selvagem e contrário à natureza.
GLOSTER - Acomoda-te; não digas nada. Há divisão entre os duques, e pior do que isso. Esta noite
recebi uma carta. É perigoso falar nisso. Tranquei-a no meu gabinete. Os sofrimentos por que o rei agora
está passando, serão oportunamente vingados. Parte do exército já desembarcou; teremos de ficar do lado
do rei. Vou procurá-lo secretamente e ajudá-lo. Ide conversar com o duque, para que não seja percebida
minha caridade. Se ele perguntar por mim, estou doente e de cama. Ainda que eu venha a perder a vida -
que é o menos com que estou ameaçado - é preciso que o rei, meu velho amo, seja socorrido. Há alguma
coisa muito estranha em perspectiva, Edmundo. Aconselho-vos cautela.
(Sai.)
EDMUNDO - A caridade que te foi proibida será comunicada logo ao duque, como a carta também, o
que parece serviço meritório que me rende quanto meu pai perder, a saber: tudo. Exulta o moço, o velho
fica mudo.
(Sai.)
REI LEAR, ATO IV, Cena V
Um quarto no castelo de Gloster. Entram Regane e Osvaldo.
REGANE - Mas as forças do mano estão em campo?
OSVALDO - Sim, senhora.
REGANE - E ele próprio à frente delas?
OSVALDO - Com muita relutância; vossa mana é melhor combatente.
REGANE - Lorde Edmundo não falou com vosso amo em casa deste?
OSVALDO - Não, senhora.
REGANE - Qual pode ser o assunto da carta dela, então?
OSVALDO - Não sei, senhora.
REGANE - É certeza ter sido enviado em muito séria missão. Foi erro indesculpável deixar Gloster com
vida, após os olhos lhe termos arrancado. Onde aparece levanta os corações, contra nós todos. Edmundo,
quero crer, compadecido de sua dor, foi dar remate logo a sua vida enoitada e, ao mesmo tempo, tentar
saber das forças do inimigo.
OSVALDO - Preciso partir logo, para a carta, senhora, lhe entregar.
REGANE - As nossas tropas partirão amanhã. Fica conosco, pois não há segurança nas estradas.
OSVALDO - Senhora, não é possível; a patroa confia em minha diligência nisso.
REGANE - Qual a necessidade que ela tinha de escrever a Edmundo? Não podíeis transmitir
verbalmente seu recado? Talvez... Alguma coisa... Como posso sabê-lo? Amar-te-ia imensamente se
permitisses que eu abrisse a carta.
OSVALDO - Preferira, senhora...
REGANE - Não ignoro que vossa ama não gosta do marido. Tenho certeza disso. Quando da última vez
ela esteve aqui, lançou estranhos olhares, eloqüentes sobremodo, para o nobre Edmundo. Confidente dela
sei bem que sois.
OSVALDO - Como! Eu, senhora?
REGANE - Sei o que estou dizendo: confidente, tenho certeza disso. Mas sugiro-vos aceitar meu
conselho. Meu marido faleceu; eu e Edmundo já falamos a esse respeito, sendo mais razoável, assim, que
ele me peça a mão, deixando de lado a mana. Deduzi o resto. Se o encontrardes, dai-lhe isto, por
obséquio. E quando conversardes com vossa ama sobre este assunto, peço concitarde-la a readquirir sua
usual prudência. Portanto, passai bem. Se vierdes a encontrar o traidor cego, ganhará muito quem der
cabo dele.
OSVALDO - Oh! Quem dera que o visse! Assim, mostrara de que lado me encontro.
REGANE - Passai bem.
(Saem.)
REGANE - Mas as forças do mano estão em campo?
OSVALDO - Sim, senhora.
REGANE - E ele próprio à frente delas?
OSVALDO - Com muita relutância; vossa mana é melhor combatente.
REGANE - Lorde Edmundo não falou com vosso amo em casa deste?
OSVALDO - Não, senhora.
REGANE - Qual pode ser o assunto da carta dela, então?
OSVALDO - Não sei, senhora.
REGANE - É certeza ter sido enviado em muito séria missão. Foi erro indesculpável deixar Gloster com
vida, após os olhos lhe termos arrancado. Onde aparece levanta os corações, contra nós todos. Edmundo,
quero crer, compadecido de sua dor, foi dar remate logo a sua vida enoitada e, ao mesmo tempo, tentar
saber das forças do inimigo.
OSVALDO - Preciso partir logo, para a carta, senhora, lhe entregar.
REGANE - As nossas tropas partirão amanhã. Fica conosco, pois não há segurança nas estradas.
OSVALDO - Senhora, não é possível; a patroa confia em minha diligência nisso.
REGANE - Qual a necessidade que ela tinha de escrever a Edmundo? Não podíeis transmitir
verbalmente seu recado? Talvez... Alguma coisa... Como posso sabê-lo? Amar-te-ia imensamente se
permitisses que eu abrisse a carta.
OSVALDO - Preferira, senhora...
REGANE - Não ignoro que vossa ama não gosta do marido. Tenho certeza disso. Quando da última vez
ela esteve aqui, lançou estranhos olhares, eloqüentes sobremodo, para o nobre Edmundo. Confidente dela
sei bem que sois.
OSVALDO - Como! Eu, senhora?
REGANE - Sei o que estou dizendo: confidente, tenho certeza disso. Mas sugiro-vos aceitar meu
conselho. Meu marido faleceu; eu e Edmundo já falamos a esse respeito, sendo mais razoável, assim, que
ele me peça a mão, deixando de lado a mana. Deduzi o resto. Se o encontrardes, dai-lhe isto, por
obséquio. E quando conversardes com vossa ama sobre este assunto, peço concitarde-la a readquirir sua
usual prudência. Portanto, passai bem. Se vierdes a encontrar o traidor cego, ganhará muito quem der
cabo dele.
OSVALDO - Oh! Quem dera que o visse! Assim, mostrara de que lado me encontro.
REGANE - Passai bem.
(Saem.)
REI LEAR, ATO IV, Cena VI
Região perto de Dover. Entram Gloster e Edgar vestido como camponês.
GLOSTER - Quando estarei no cimo da colina?
EDGAR - Já estais subindo. Vede nosso esforço.
GLOSTER - Tenho a impressão de que o terreno é plano.
EDGAR - Horrivelmente abrupto. Não ouvis o barulho do mar?
GLOSTER - Não, em verdade.
EDGAR - E que os outros sentidos tendes fracos pelo que os olhos sofrem.
GLOSTER - É possível. Parece-me que tens a voz mudada e que com mais sentido agora falas e melhor
expressão.
EDGAR - É puro engano de vossa parte; em nada estou mudado, se não for nestas vestes.
GLOSTER - Não; parece-me que te exprimes melhor.
EDGAR - Vamos, senhor; eis o lugar. Chegamos. Ficai quieto. Como é terrível! É de dar vertigens olhar
nesta distância para baixo. Como os corvos e as gralhas que transvoam o ar intermédio ficam pequeninos
como besouros! Vê-se à meia altura, suspenso, um homem que procura funcho. Profissão arriscada! A
impressão tenho de que ele é do tamanho da cabeça. Os pescadores que andam pela praia parecem-se
com ratos; a barcaça ali ancorada, tão pequena se acha como o próprio escaler, e este se encontra
reduzido a uma bóia, pequenina demais para ser vista. As marulhosas vagas que batem nos inumeráveis e
preguiçosos seixos não se fazem ouvir de tanta altura. É-me impossível olhar mais tempo assim, pois
tenho medo de vir a ter vertigens, atirando-me a vista de cabeça para baixo.
GLOSTER - Coloca-me no ponto em que te encontras.
EDGAR - Dai-me a mão; só um passo vos separa da borda extrema. Por quanto há debaixo da lua, eu não
saltara dessa altura.
GLOSTER - Solta-me a mão; recebe esta outra bolsa; dentro dela há uma jóia que merece ficar com
algum pobre. Os deuses todos e as fadas te protejam. Vai-te embora; dize adeus, pois desejo ouvir teus
passos.
EDGAR - Passai bem, bom senhor.
GLOSTER - Agradecido de todo coração.
EDGAR (à parte) - A brincadeira que faço com a desgraça dele, visa, tão-somente, curá-lo.
GLOSTER - Ó deuses grandes, renuncio a este mundo e, em vossa vista, paciente, me despojo do meu
grande sofrimento! Pudesse eu suportá-lo por mais tempo, sem luta abrir com vossa vontade irresistível,
este abjeto morrão da natureza se deixara consumir até ao fim. Se ainda com vida estiver meu Edgar, oh!
abençoai-o! E agora, amigo, adeus.
(Cai para a frente.)
EDGAR - Adeus, senhor; já fui embora. (À parte.) Conceber não posso como a imaginação roubar
consegue da vida a rara jóia, quando a própria vida se presta ao roubo. Se se achasse onde pensava estar,
neste momento pensar já não pudera. Vivo ou morto? (A Gloster.) Então, senhor! Amigo! Estais me
ouvindo? Poderia morrer... Mas não; revive. Que sois, senhor? Dizei-me. GLOSTER - Vai-te embora e
deixa-me morrer.
EDGAR - Se algo mais fosses do que ar, teia de aranha, leve pluma, caindo assim de tantas braças do
alto, partido já estarias como um ovo. Mas respiras, possuis pesado corpo, não perdes sangue, estás
inteiro, filas. Dez mastros superpostos não bastaram para medir a altura de onde caíste
perpendicularmente. Verdadeiro milagre é tua vida. Vamos, fala!
GLOSTER - Mas eu caí ou não?
EDGAR - Sim, lá do pico desta penha calcária. Olha para o alto; ver e ouvir não se pode a cotovia de
garganta estridente. Olha para o alto!
GLOSTER - Ai de mim! Não tenho olhos! É negada à desgraça o benefício de pôr termo com a morte á
própria angústia. Era consolo para o sofrimento poder lograr a raiva do tirano e frustrar seus intentos
orgulhosos.
EDGAR - Dai-me o braço. De pé! Então, e agora? Sentis as pernas? Eis-vos levantado.
GLOSTER - Bem; muito bem.
EDGAR - Tudo isso é muito estranho. Que era que estava no alto do penhasco e se apartou de vós?
GLOSTER - Um miserável. Um mendigo infeliz.
EDGAR - Daqui debaixo onde me achava, pareciam duas luas os olhos dele. Dotado era de mil narizes,
cornos retorcidos e ondeados como os sulcos do mar bravo. Decerto era um demônio. Por tudo isso,
lembra-te, feliz pai, que os deuses claros que da importância dos mortais constroem toda sua glória, a
vida te salvaram.
GLOSTER - Agora penso nisso; de hoje em diante pretendo suportar o sofrimento até que por si mesmo
ele me grite: "Basta! Basta!" e pereça. Por um homem tomei a coisa a que vos referistes. Dizia muitas
vezes: "O demônio!" Foi ele que me pôs naquela ponta.
EDGAR - Possas agora ter só pensamentos tranqüilos e confiantes. Mas, que vejo! Quem vem aí
(Entra Lear, fantasticamente enfeitado com flores.)
Jamais a sã razão vestirá seu senhor dessa maneira.
LEAR - Não; não poderão pegar-me por cunhar moedas; sou o rei.
EDGAR - Oh espetáculo de transpassar o coração!
LEAR - Nisto a natureza sobrepuja a arte. Eis vosso soldo. Aquele sujeito maneja o arco como se fosse
um espantalho... Cortai-me uma jarda de pano. Vede! Um rato! Paz! Paz! Este pedaço de queijo frio
resolverá o assunto. Eis minha luva; medir-me-ei com um gigante. Trazei as alabardas escuras. Oh!
Bonito vôo, passarinho! No alvo! No alvo, hu! A senha, vamos!
EDGAR - Doce mangerona.
LEAR - Passai.
GLOSTER - Conheço essa voz.
LEAR - Ah! Goneril de barba branca! Adularam-me como um cão e me disseram que os pêlos brancos
de minha barba nasceram antes dos pretos. Responder "sim" e "não" a tudo o que eu dizia! "Sim" e "não"
ao mesmo tempo não era boa teologia. No dia em que a chuva veio para molhar-me e o vento para me
fazer bater o queixo, e em que o trovão se recusava a obedecer-me, foi quando as encontrei; foi quando
lhes percebi o cheiro. Ide embora; não têm palavra. Disseram-me que eu era tudo. É mentira! Não estou à
prova de febre.
GLOSTER - Lembro-me dessa voz perfeitamente. Não é o rei?
LEAR - Rei da cabeça aos pés. Vede os vassalos como tremem, quando fito neles os olhos. Ora apraz-me
perdoar a este homem. Qual o crime dele? Adultério? Não morrerás! Morrer por adultério? Não; isso faz
o pintassilgo, e à minha vista a mosca dourada é libertina. Porque o filho bastardo do bom Gloster foi
melhor para o pai que minhas filhas lealmente geradas. A vontade, luxúria, em toda parte! Preciso de
soldados. Vede aquela senhora sorridente, cujo rosto anuncia pura neve na união das coxas. Só virtude
mostra, sacudindo a cabeça sempre que ouve o nome do prazer. O furão e o corcel arrebatado não
revelam mais lúbrico apetite. Abaixo da cintura são centauros, muito embora mulheres para cima. Até à
cintura os deuses é que mandam; para baixo, os demônios. Ali é o inferno, escuridão, abismo sulfuroso,
calor, fervura, cheiro de podridão... Xi! Xi! Pá! Ó bondoso boticário, dá-me uma onça de almíscar, para
eu temperar a imaginação. Aqui tens dinheiro. GLOSTER -- Deixai-me beijar essa mão.
LEAR -- Primeiro deixai que a limpe; cheira a mortalidade.
GLOSTER -- Ó arruinada peça da natura! O imenso mundo há de gastar-se todo, reduzindo-se a nada.
Reconheces-me?
LEAR -- Lembro-me perfeitamente de teus olhos. Estás piscando para mim? Não, Cupido cego; por
mais que faças, não chegarei a amar-te. Lê este desafio; observa bem o traço das letras.
GLOSTER -- Se outros tantos sóis fossem, não as vira.
EDGAR(à parte) -- Se mo dissessem, não o acreditara. No entanto é certo e o coração me parte.
LEAR -- Lê!
GLOSTER -- Como! Com as órbitas apenas?
LEAR -- Oh! oh! Alcançastes-me nesse ponto? Nem olhos na cabeça, nem dinheiro na bolsa? Tendes os
olhos pesados e a bolsa leve; no entanto, podeis ver como vai o mundo.
GLOSTER -- Vejo-o porque o sinto.
LEAR -- Como! Estais louco! A gente pode ver sem olhos como vai o mundo. Olha com as orelhas; vê
como aquele juiz invectiva contra um simples ladrão. Escuta aqui, só uma palavrinha ao ouvido. Muda
de lugar... Um, dois, três! E ago ra: qual é o ladrão? Qual é o juiz? Já viste um cachorro de fazendeiro
ladrar para um mendigo?
GLOSTER -- Já, sim senhor.
LEAR -- E a criatura fugir do mastim? Nisso poderás contemplar a grande imagem da autoridade: um
cachorro no desempenho de suas funções é obedecido. Oficial de justiça desonesto, suspende a mão
sangrenta! Por que açoitas essa pobre rameira? Vira contra ti próprio essa chibata. Estás ardendo de
desejos de com ela realizares o ato por que a castigas. O onzeneiro põe na forca o ladrão. As faltazinhas
se deixam ver nos furos dos andrajos; mas as togas e as peles tudo encobrem. Forra de ouro o pecado, e a
forte lança da Justiça se quebra sem feri-lo;
cobre-o de trapos, e uma simples palha vibrada por pigmeu vai transpassá-lo. Ninguém comete falta, é o
que te afirmo; ninguém. A todos sirvo de fiador. Podes acreditar-me, amigo; fala-te quem força tem para
fechar a boca da acusação. Arranja umas lunetas e, como vil político, imagina ver coisas que não vês.
Bum, bum, bum, bum! Tirai-me as botas. Força! Força!... Assim...
EDGAR (à parte) - Que mistura de senso e de incoerência! A razão na loucura.
LEAR - Toma meus olhos, se chorar desejas minha infelicidade. Sei de sobra quem és. Teu nome é
Gloster. Pois bem sabes: ao respirarmos pela vez primeira, choramos e gememos. Vou fazer-te sobre isso
um bom sermão; sê, pois, atento.
GLOSTER - Oh dia triste!
LEAR - Mas nascemos, choramos por nos vermos neste grande tablado de dementes. Que bela forma de
chapéu! Seria idéia mui sutil pôr ferraduras de feltro nos cavalos de uma tropa. Vou tentá-lo; e, uma vez
caindo em cima de meus genros: matar, matar, matar!
(Entra um gentil-homem, com criados.)
GENTIL-HOMEM - Oh, ei-lo aqui! Com jeito segurai-o. Meu senhor, vossa filha muito amada...
LEAR - Não há socorro! Como! Prisioneiro? Sou realmente joguete da fortuna. Tratei-me bem;
pagar-vos-ei resgate. Trazei-me um cirurgião, pois tenho o cérebro muito ofendido.
GENTIL-HOMEM - Haveis de ter de tudo.
LEAR - Ninguém vem ajudar-me? Estou sozinho? Isso em homem de sal mudara um homem, para fazer
de irrigador os olhos, sim, e a poeira do outono deixar úmida.
GENTIL-HOMEM - Meu bom senhor...
LEAR - Morrerei como bravo, como noivo... Como! Jovial hei de mostrar-me. Vamos! Sou rei, meus
mestres; ignorais tal coisa?
GENTIL-HOMEM - É rei notável, a quem muito amamos.
LEAR - Então ainda há vida. Se a alcançardes, há de ser na carreira. Sá, sá, sá!...
(Sai; os criados o acompanham.)
GENTIL-HOMEM - Lastimoso já fora este espetáculo no mais ínfimo ser e desgraçado. Num rei, não
cabe no discurso humano. Uma filha ainda tens que a natureza limpa da maldição geral que as outras
fizeram vir sobre ela.
EDGAR - Salve, senhor.
GENTIL-HOMEM - Senhor, o céu vos guarde. Que desejais?
EDGAR - Ouvistes, porventura, falar de uma batalha a ser travada?
GENTIL-HOMEM - É certo e mui sabido. Todo o mundo que sons distingue, ouviu falar sobre isso.
EDGAR - Mas, por obséquio: a que distância se acha o outro exército?
GENTIL-HOMEM- Perto, e vem com pressa. A vista surgirá dentro de uma hora; é o que se espera.
EDGAR - Agradecido. É tudo.
GENTIL-HOMEM - Muito embora a rainha aqui se encontre por um motivo especial, o exército dela
avançou.
EDGAR - Bem; muito agradecido.
(Sai o gentil-homem.)
GLOSTER - Ó deuses sempre bons! tirai-me a vida, não permitindo que meu mau espírito tentar me
venha novamente, para que à vossa revelia eu peça a morte.
EDGAR - Pai, rezais muito bem.
GLOSTER - Quem sois, amigo?
EDGAR - Indivíduo mui pobre, que os reveses da fortuna amansou e que pela arte das desgraças alheias
e das próprias à compaixão se revelou sensível.
GLOSTER - Do imo peito agradeço. Que a bondade do céu e sua bênção te acompanhem sempre e
sempre.
(Entra Osvaldo.)
OSVALDO - Oh! Cabeça posta a prêmio! Encontro mui feliz! Essa cabeça sem olhos só criou carne
porque a minha fortuna prosperasse. Miserável traidor, concentra-te depressa, a espada que vai tirar-te a
vida está sacada.
GLOSTER - Então põe força em tua mão amiga.
(Edgar se interpõe.)
OSVALDO - Por que te atreves, rústico atrevido, a amparar um traidor, publicamente como tal
proclamado? Vai-te embora; do contrário, a infecção da sorte dele passará para ti. Larga-lhe o braço!
EDGAR - Não largo ele, seu moço; não há percisão disso.
OSVALDO - Solta-o, escravo! Do contrário, morrerás.
EDGAR - Ide embora, seu moço; ide embora e deixai os pobre viver. Se as ameaças pudessem tirar-me a
vida, esta teria sido encurtada de uma quinzena. Não vos aproximeis do velho; ficai de longe, é o que eu
digo, ou então vamos tirar a prova para ver o que é mais duro, se vosso coco ou este meu cacete. Gosto
de franqueza.
OSVALDO - Sai da frente, monturo!
EDGAR - Vou curar vossos dentes, seu moço. Vinde. Vossos botes não me metem medo.
(Batem-se; Edgar o abate.)
OSVALDO - Oh! matas-te-me, escravo! Coisa à-toa, fica com minha bolsa. Se desejas prosperar,
sepultura dá a meu corpo e entrega as cartas que aqui trago a Edmundo, conde de Gloster. Morte
intempestiva!
(Morre.)
EDGAR - Sei quem és, um velhaco diligente; tão dedicado aos vícios da patroa quanto a maldade desejar
pudera.
GLOSTER - Como! Morreu?
EDGAR - Pai, repousai; Sentai-vos. Revistemos-lhe os bolsos. Essas cartas de que falou serão talvez
amigas. Morreu; só me aborrece não ter ele tido um outro carrasco. Mas vejamos. Permiti mole cera; e
vós, costumes, não nos culpeis; porque saber possamos as idéias de nossos inimigos os próprios corações
lhes abriríamos. Abrir cartas, assim é mais legítimo. "Lembrai-vos de nossos juramentos recíprocos.
Tendes muitas oportunidades de suprimi-lo; se vontade não vos faltar, oportunidade e lugar haveis de ter
de sobra. Nada se terá feito se ele voltar como vencedor, porque ficarei como sua prisioneira e o leito
dele como minha prisão. Libertai-me, portanto, desse calor odioso, e, pelo vosso trabalho, ficai com o
lugar dele. Vossa - esposa é o que eu desejara chamar-me - serva afetuosa Goneril. " Oh insondável
campo da perfídia feminina! Uma conjura contra a vida de um marido tão virtuoso, para ser por meu
mano substituído! Vou enterrar-te aqui na areia mesmo, sacrilego correio de assassinos luxuriosos, a fim
de em tempo certo ferir a vista do ameaçado duque com este papel fatal. E está com sorte por eu poder
contar-lhe de tua morte.
GLOSTER - O rei ficou insano; quão teimoso meu vil juízo se mostra, permitindo-me ficar de pé e
intacto me deixando o sentido de minha dor imensa. Fora melhor ficar de todo louco. Assim se
apartariam das tristezas os pensamentos, que as desgraças perdem a autoconsciência, quando sob o
império de errôneas fantasias.
(Ruído de tambor ao longe.)
EDGAR - Dai-me a mão. Ouço ao longe um tambor, se não me engano. Vamos, pai; vou confiar-vos a
um amigo.
(Saem.)
Cena VII
Uma tenda no acampamento francês. Entram Cordélia, Kent, um médico e um gentil-homem.
CORDÉLIA - Ó meu bondoso Kent, de que maneira posso viver e agir, para que a tua bondade
recompense? Minha vida será curta demais, sem que eu disponha de medida adequada.
KENT - Já me sobram, senhora, os vossos agradecimentos Vai de par meu relato com a mais simples
verdade, sem acréscimos nem falhas.
CORDÉLIA - Veste roupa melhor; essa roupagem faz lembrados momentos muito tristes. Por favor,
troca-a.
KENT - Não, cara senhora; perdoai-me; mas prejudicara muito meus planos dar-me a conhecer agora.
Como graça vos peço continuardes sem me reconhecer, até que o tempo e eu concordemos nisso.
CORDÉLIA - Pois que seja, meu bondoso senhor. (Ao médico.) Que faz o rei?
O MÉDICO - Ainda dorme, senhora.
CORDÉLIA - Ó divindades piedosas, deixai boa a grande brecha de sua natureza maltratada! Afinai os
sentidos em desordem e dissonantes deste pai que em criança voltou a transformar-se.
O MEDICO - Vossa Alteza permitirá que o rei nós despertemos? Já dormiu muito.
CORDÉLIA - Segui nisso apenas vossos conhecimentos, procedendo como melhor julgardes. Já o
vestiram?
(Entra Lear numa cadeira, carregado por criados.)
GENTIL-HOMEM - Já sim, senhora, pois no mais pesado do sono lhe trocamos toda a roupa.
O MÉDICO - Ficai junto, senhora, no momento de o despertarmos, pois não tenho dúvidas quanto a suas
melhoras.
CORDÉLIA - Muito bem.
(Música.)
O MÉDICO - Aproximai-vos, por favor. A música, aí, mais alto!
CORDÉLIA - Ó meu querido pai! Em meus lábios suspende teus remédios, convalescença, e deixa que
este beijo repare a imensa dor que minhas manas produziram em tua reverência.
KENT - Minha boa princesa e mui querida!
CORDÉLIA - Mesmo que pai não fosse delas duas. estes cabelos brancos lhes teriam forçado à
compaixão. Uma cabeça como esta poderia ser exposta à fúria das rajadas? defrontar-se com o trovão
pavoroso e o mais terrível ziguezaguear de temerosos raios? Ficar de guarda - pobre sentinela! - com este
elmo tão fino? O próprio cão do meu imigro, embora me tivesse mordido, houvera, numa noite dessas,
permanecido junto do meu fogo. E tu, meu pobre pai, foste forçado a abrigar-te com porcos e mendigos
numa pouca de palha embolorada! Ai, que dor. Maravilha é não haveres a um só tempo perdido a vida e
o espírito. Vai acordar; falai-lhe.
O MÉDICO - Vós, senhora; será melhor.
CORDÉLIA - Como se sente agora meu real senhor? E Vossa Majestade como passa?
LEAR - Foi mal de vossa parte retirar-me do túmulo. És uma alma da bem-aventurança; eu, porém, me
acho a uma roda de fogo sempre atado, que minhas próprias lágrimas escaldam como chumbo fundido.
CORDÉLIA - Conheceis-me, senhor?
LEAR - És um espírito; conheço-te. Desde quando morreste?
CORDÉLIA - Divagando sempre por muito longe.
O MÉDICO - Concedei-lhe mais algum tempo; despertou há pouco.
LEAR - Onde estive? Onde estou? É dia claro? Oh! Procederam muito mal comigo; morrer de
compaixão eu poderia, se visse alguém tratado desse modo. Não sei o que dizer; jurar não quero que
estas mãos sejam minhas. Mas vejamos: sinto esta alfinetada. Quem me dera saber quem sou, realmente.
CORDÉLIA - Senhor, olhai para o meu lado, e as mãos estendei sobre mim, para abençoar-me. Não,
meu senhor! Não vos ponhais de joelhos!
LEAR - Ah! Não zombeis de mim, é o que vos peço. Sou um velho imprestável e caduco, para cima de
oitenta, nem uma hora mais nem menos. E, para ser sincero, receio ter o espírito avariado. Creio vos
conhecer e, assim, a este homem; mas em dúvida me acho, pois ignoro de todo onde me encontro, sem
que possa lembrar-me destas vestes. De igual modo não sei onde passei a última noite. Oh! não riais de
mim! Porque tão certo como eu ser homem, quer afigurar-me que esta dama é Cordélia, minha filha.
CORDÉLIA - Sou ela mesma, meu senhor; sou ela.
LEAR - Tendes lágrimas úmidas? Realmente. Não choreis, é o que peço. Se tiverdes veneno para
dar-me, hei de bebê-lo. Sei que amor não me tendes. Vossas manas - tanto quanto me lembro -
procederam comigo muito mal. Mas tendes causa; ao passo que nenhuma delas tinha.
CORDÉLIA - Nenhuma causa! Não; nenhuma causa!
LEAR - Estou na França?
KENT - Em vosso próprio reino, senhor.
LEAR - Não me enganeis.
O MÉDICO - Ficai tranqüila, boa senhora. Já está morta nele, como estais vendo, a grande fúria. Agora
perigoso é fazê-lo novamente subir ao longo do perdido tempo. Levai-o para dentro, sem cansá-lo com
perguntas, até que se refaça.
CORDÉLIA - Quererá Vossa Alteza andar um pouco?
LEAR - Precisareis comigo ter paciência. Esquecei e perdoai-me, por obséquio. Estou velho e caduco.
(Saem Lear, Cordélia, o médico e os criados.)
GENTIL-HOMEM - Confirmou-se a notícia, senhor, de que o duque de Cornualha foi morto?
KENT - Perfeitamente, senhor.
GENTIL-HOMEM - Quem está à testa de seus homens?
KENT - Ao que dizem, o filho bastardo de Gloster.
GENTIL-HOMEM - Dizem que Edgar, seu filho exilado, está na Alemanha com o conde de Kent.
KENT - Os boatos variam. É tempo de abrirmos os olhos; as forças do reino se aproximam com presteza.
GENTIL-HOMEM - A decisão promete ser sangrenta. Passai bem, senhor.
(Sai.)
KENT - Ou boa ou má, a minha conclusão os golpes de hoje à luz sair farão.
(Sai.)
GLOSTER - Quando estarei no cimo da colina?
EDGAR - Já estais subindo. Vede nosso esforço.
GLOSTER - Tenho a impressão de que o terreno é plano.
EDGAR - Horrivelmente abrupto. Não ouvis o barulho do mar?
GLOSTER - Não, em verdade.
EDGAR - E que os outros sentidos tendes fracos pelo que os olhos sofrem.
GLOSTER - É possível. Parece-me que tens a voz mudada e que com mais sentido agora falas e melhor
expressão.
EDGAR - É puro engano de vossa parte; em nada estou mudado, se não for nestas vestes.
GLOSTER - Não; parece-me que te exprimes melhor.
EDGAR - Vamos, senhor; eis o lugar. Chegamos. Ficai quieto. Como é terrível! É de dar vertigens olhar
nesta distância para baixo. Como os corvos e as gralhas que transvoam o ar intermédio ficam pequeninos
como besouros! Vê-se à meia altura, suspenso, um homem que procura funcho. Profissão arriscada! A
impressão tenho de que ele é do tamanho da cabeça. Os pescadores que andam pela praia parecem-se
com ratos; a barcaça ali ancorada, tão pequena se acha como o próprio escaler, e este se encontra
reduzido a uma bóia, pequenina demais para ser vista. As marulhosas vagas que batem nos inumeráveis e
preguiçosos seixos não se fazem ouvir de tanta altura. É-me impossível olhar mais tempo assim, pois
tenho medo de vir a ter vertigens, atirando-me a vista de cabeça para baixo.
GLOSTER - Coloca-me no ponto em que te encontras.
EDGAR - Dai-me a mão; só um passo vos separa da borda extrema. Por quanto há debaixo da lua, eu não
saltara dessa altura.
GLOSTER - Solta-me a mão; recebe esta outra bolsa; dentro dela há uma jóia que merece ficar com
algum pobre. Os deuses todos e as fadas te protejam. Vai-te embora; dize adeus, pois desejo ouvir teus
passos.
EDGAR - Passai bem, bom senhor.
GLOSTER - Agradecido de todo coração.
EDGAR (à parte) - A brincadeira que faço com a desgraça dele, visa, tão-somente, curá-lo.
GLOSTER - Ó deuses grandes, renuncio a este mundo e, em vossa vista, paciente, me despojo do meu
grande sofrimento! Pudesse eu suportá-lo por mais tempo, sem luta abrir com vossa vontade irresistível,
este abjeto morrão da natureza se deixara consumir até ao fim. Se ainda com vida estiver meu Edgar, oh!
abençoai-o! E agora, amigo, adeus.
(Cai para a frente.)
EDGAR - Adeus, senhor; já fui embora. (À parte.) Conceber não posso como a imaginação roubar
consegue da vida a rara jóia, quando a própria vida se presta ao roubo. Se se achasse onde pensava estar,
neste momento pensar já não pudera. Vivo ou morto? (A Gloster.) Então, senhor! Amigo! Estais me
ouvindo? Poderia morrer... Mas não; revive. Que sois, senhor? Dizei-me. GLOSTER - Vai-te embora e
deixa-me morrer.
EDGAR - Se algo mais fosses do que ar, teia de aranha, leve pluma, caindo assim de tantas braças do
alto, partido já estarias como um ovo. Mas respiras, possuis pesado corpo, não perdes sangue, estás
inteiro, filas. Dez mastros superpostos não bastaram para medir a altura de onde caíste
perpendicularmente. Verdadeiro milagre é tua vida. Vamos, fala!
GLOSTER - Mas eu caí ou não?
EDGAR - Sim, lá do pico desta penha calcária. Olha para o alto; ver e ouvir não se pode a cotovia de
garganta estridente. Olha para o alto!
GLOSTER - Ai de mim! Não tenho olhos! É negada à desgraça o benefício de pôr termo com a morte á
própria angústia. Era consolo para o sofrimento poder lograr a raiva do tirano e frustrar seus intentos
orgulhosos.
EDGAR - Dai-me o braço. De pé! Então, e agora? Sentis as pernas? Eis-vos levantado.
GLOSTER - Bem; muito bem.
EDGAR - Tudo isso é muito estranho. Que era que estava no alto do penhasco e se apartou de vós?
GLOSTER - Um miserável. Um mendigo infeliz.
EDGAR - Daqui debaixo onde me achava, pareciam duas luas os olhos dele. Dotado era de mil narizes,
cornos retorcidos e ondeados como os sulcos do mar bravo. Decerto era um demônio. Por tudo isso,
lembra-te, feliz pai, que os deuses claros que da importância dos mortais constroem toda sua glória, a
vida te salvaram.
GLOSTER - Agora penso nisso; de hoje em diante pretendo suportar o sofrimento até que por si mesmo
ele me grite: "Basta! Basta!" e pereça. Por um homem tomei a coisa a que vos referistes. Dizia muitas
vezes: "O demônio!" Foi ele que me pôs naquela ponta.
EDGAR - Possas agora ter só pensamentos tranqüilos e confiantes. Mas, que vejo! Quem vem aí
(Entra Lear, fantasticamente enfeitado com flores.)
Jamais a sã razão vestirá seu senhor dessa maneira.
LEAR - Não; não poderão pegar-me por cunhar moedas; sou o rei.
EDGAR - Oh espetáculo de transpassar o coração!
LEAR - Nisto a natureza sobrepuja a arte. Eis vosso soldo. Aquele sujeito maneja o arco como se fosse
um espantalho... Cortai-me uma jarda de pano. Vede! Um rato! Paz! Paz! Este pedaço de queijo frio
resolverá o assunto. Eis minha luva; medir-me-ei com um gigante. Trazei as alabardas escuras. Oh!
Bonito vôo, passarinho! No alvo! No alvo, hu! A senha, vamos!
EDGAR - Doce mangerona.
LEAR - Passai.
GLOSTER - Conheço essa voz.
LEAR - Ah! Goneril de barba branca! Adularam-me como um cão e me disseram que os pêlos brancos
de minha barba nasceram antes dos pretos. Responder "sim" e "não" a tudo o que eu dizia! "Sim" e "não"
ao mesmo tempo não era boa teologia. No dia em que a chuva veio para molhar-me e o vento para me
fazer bater o queixo, e em que o trovão se recusava a obedecer-me, foi quando as encontrei; foi quando
lhes percebi o cheiro. Ide embora; não têm palavra. Disseram-me que eu era tudo. É mentira! Não estou à
prova de febre.
GLOSTER - Lembro-me dessa voz perfeitamente. Não é o rei?
LEAR - Rei da cabeça aos pés. Vede os vassalos como tremem, quando fito neles os olhos. Ora apraz-me
perdoar a este homem. Qual o crime dele? Adultério? Não morrerás! Morrer por adultério? Não; isso faz
o pintassilgo, e à minha vista a mosca dourada é libertina. Porque o filho bastardo do bom Gloster foi
melhor para o pai que minhas filhas lealmente geradas. A vontade, luxúria, em toda parte! Preciso de
soldados. Vede aquela senhora sorridente, cujo rosto anuncia pura neve na união das coxas. Só virtude
mostra, sacudindo a cabeça sempre que ouve o nome do prazer. O furão e o corcel arrebatado não
revelam mais lúbrico apetite. Abaixo da cintura são centauros, muito embora mulheres para cima. Até à
cintura os deuses é que mandam; para baixo, os demônios. Ali é o inferno, escuridão, abismo sulfuroso,
calor, fervura, cheiro de podridão... Xi! Xi! Pá! Ó bondoso boticário, dá-me uma onça de almíscar, para
eu temperar a imaginação. Aqui tens dinheiro. GLOSTER -- Deixai-me beijar essa mão.
LEAR -- Primeiro deixai que a limpe; cheira a mortalidade.
GLOSTER -- Ó arruinada peça da natura! O imenso mundo há de gastar-se todo, reduzindo-se a nada.
Reconheces-me?
LEAR -- Lembro-me perfeitamente de teus olhos. Estás piscando para mim? Não, Cupido cego; por
mais que faças, não chegarei a amar-te. Lê este desafio; observa bem o traço das letras.
GLOSTER -- Se outros tantos sóis fossem, não as vira.
EDGAR(à parte) -- Se mo dissessem, não o acreditara. No entanto é certo e o coração me parte.
LEAR -- Lê!
GLOSTER -- Como! Com as órbitas apenas?
LEAR -- Oh! oh! Alcançastes-me nesse ponto? Nem olhos na cabeça, nem dinheiro na bolsa? Tendes os
olhos pesados e a bolsa leve; no entanto, podeis ver como vai o mundo.
GLOSTER -- Vejo-o porque o sinto.
LEAR -- Como! Estais louco! A gente pode ver sem olhos como vai o mundo. Olha com as orelhas; vê
como aquele juiz invectiva contra um simples ladrão. Escuta aqui, só uma palavrinha ao ouvido. Muda
de lugar... Um, dois, três! E ago ra: qual é o ladrão? Qual é o juiz? Já viste um cachorro de fazendeiro
ladrar para um mendigo?
GLOSTER -- Já, sim senhor.
LEAR -- E a criatura fugir do mastim? Nisso poderás contemplar a grande imagem da autoridade: um
cachorro no desempenho de suas funções é obedecido. Oficial de justiça desonesto, suspende a mão
sangrenta! Por que açoitas essa pobre rameira? Vira contra ti próprio essa chibata. Estás ardendo de
desejos de com ela realizares o ato por que a castigas. O onzeneiro põe na forca o ladrão. As faltazinhas
se deixam ver nos furos dos andrajos; mas as togas e as peles tudo encobrem. Forra de ouro o pecado, e a
forte lança da Justiça se quebra sem feri-lo;
cobre-o de trapos, e uma simples palha vibrada por pigmeu vai transpassá-lo. Ninguém comete falta, é o
que te afirmo; ninguém. A todos sirvo de fiador. Podes acreditar-me, amigo; fala-te quem força tem para
fechar a boca da acusação. Arranja umas lunetas e, como vil político, imagina ver coisas que não vês.
Bum, bum, bum, bum! Tirai-me as botas. Força! Força!... Assim...
EDGAR (à parte) - Que mistura de senso e de incoerência! A razão na loucura.
LEAR - Toma meus olhos, se chorar desejas minha infelicidade. Sei de sobra quem és. Teu nome é
Gloster. Pois bem sabes: ao respirarmos pela vez primeira, choramos e gememos. Vou fazer-te sobre isso
um bom sermão; sê, pois, atento.
GLOSTER - Oh dia triste!
LEAR - Mas nascemos, choramos por nos vermos neste grande tablado de dementes. Que bela forma de
chapéu! Seria idéia mui sutil pôr ferraduras de feltro nos cavalos de uma tropa. Vou tentá-lo; e, uma vez
caindo em cima de meus genros: matar, matar, matar!
(Entra um gentil-homem, com criados.)
GENTIL-HOMEM - Oh, ei-lo aqui! Com jeito segurai-o. Meu senhor, vossa filha muito amada...
LEAR - Não há socorro! Como! Prisioneiro? Sou realmente joguete da fortuna. Tratei-me bem;
pagar-vos-ei resgate. Trazei-me um cirurgião, pois tenho o cérebro muito ofendido.
GENTIL-HOMEM - Haveis de ter de tudo.
LEAR - Ninguém vem ajudar-me? Estou sozinho? Isso em homem de sal mudara um homem, para fazer
de irrigador os olhos, sim, e a poeira do outono deixar úmida.
GENTIL-HOMEM - Meu bom senhor...
LEAR - Morrerei como bravo, como noivo... Como! Jovial hei de mostrar-me. Vamos! Sou rei, meus
mestres; ignorais tal coisa?
GENTIL-HOMEM - É rei notável, a quem muito amamos.
LEAR - Então ainda há vida. Se a alcançardes, há de ser na carreira. Sá, sá, sá!...
(Sai; os criados o acompanham.)
GENTIL-HOMEM - Lastimoso já fora este espetáculo no mais ínfimo ser e desgraçado. Num rei, não
cabe no discurso humano. Uma filha ainda tens que a natureza limpa da maldição geral que as outras
fizeram vir sobre ela.
EDGAR - Salve, senhor.
GENTIL-HOMEM - Senhor, o céu vos guarde. Que desejais?
EDGAR - Ouvistes, porventura, falar de uma batalha a ser travada?
GENTIL-HOMEM - É certo e mui sabido. Todo o mundo que sons distingue, ouviu falar sobre isso.
EDGAR - Mas, por obséquio: a que distância se acha o outro exército?
GENTIL-HOMEM- Perto, e vem com pressa. A vista surgirá dentro de uma hora; é o que se espera.
EDGAR - Agradecido. É tudo.
GENTIL-HOMEM - Muito embora a rainha aqui se encontre por um motivo especial, o exército dela
avançou.
EDGAR - Bem; muito agradecido.
(Sai o gentil-homem.)
GLOSTER - Ó deuses sempre bons! tirai-me a vida, não permitindo que meu mau espírito tentar me
venha novamente, para que à vossa revelia eu peça a morte.
EDGAR - Pai, rezais muito bem.
GLOSTER - Quem sois, amigo?
EDGAR - Indivíduo mui pobre, que os reveses da fortuna amansou e que pela arte das desgraças alheias
e das próprias à compaixão se revelou sensível.
GLOSTER - Do imo peito agradeço. Que a bondade do céu e sua bênção te acompanhem sempre e
sempre.
(Entra Osvaldo.)
OSVALDO - Oh! Cabeça posta a prêmio! Encontro mui feliz! Essa cabeça sem olhos só criou carne
porque a minha fortuna prosperasse. Miserável traidor, concentra-te depressa, a espada que vai tirar-te a
vida está sacada.
GLOSTER - Então põe força em tua mão amiga.
(Edgar se interpõe.)
OSVALDO - Por que te atreves, rústico atrevido, a amparar um traidor, publicamente como tal
proclamado? Vai-te embora; do contrário, a infecção da sorte dele passará para ti. Larga-lhe o braço!
EDGAR - Não largo ele, seu moço; não há percisão disso.
OSVALDO - Solta-o, escravo! Do contrário, morrerás.
EDGAR - Ide embora, seu moço; ide embora e deixai os pobre viver. Se as ameaças pudessem tirar-me a
vida, esta teria sido encurtada de uma quinzena. Não vos aproximeis do velho; ficai de longe, é o que eu
digo, ou então vamos tirar a prova para ver o que é mais duro, se vosso coco ou este meu cacete. Gosto
de franqueza.
OSVALDO - Sai da frente, monturo!
EDGAR - Vou curar vossos dentes, seu moço. Vinde. Vossos botes não me metem medo.
(Batem-se; Edgar o abate.)
OSVALDO - Oh! matas-te-me, escravo! Coisa à-toa, fica com minha bolsa. Se desejas prosperar,
sepultura dá a meu corpo e entrega as cartas que aqui trago a Edmundo, conde de Gloster. Morte
intempestiva!
(Morre.)
EDGAR - Sei quem és, um velhaco diligente; tão dedicado aos vícios da patroa quanto a maldade desejar
pudera.
GLOSTER - Como! Morreu?
EDGAR - Pai, repousai; Sentai-vos. Revistemos-lhe os bolsos. Essas cartas de que falou serão talvez
amigas. Morreu; só me aborrece não ter ele tido um outro carrasco. Mas vejamos. Permiti mole cera; e
vós, costumes, não nos culpeis; porque saber possamos as idéias de nossos inimigos os próprios corações
lhes abriríamos. Abrir cartas, assim é mais legítimo. "Lembrai-vos de nossos juramentos recíprocos.
Tendes muitas oportunidades de suprimi-lo; se vontade não vos faltar, oportunidade e lugar haveis de ter
de sobra. Nada se terá feito se ele voltar como vencedor, porque ficarei como sua prisioneira e o leito
dele como minha prisão. Libertai-me, portanto, desse calor odioso, e, pelo vosso trabalho, ficai com o
lugar dele. Vossa - esposa é o que eu desejara chamar-me - serva afetuosa Goneril. " Oh insondável
campo da perfídia feminina! Uma conjura contra a vida de um marido tão virtuoso, para ser por meu
mano substituído! Vou enterrar-te aqui na areia mesmo, sacrilego correio de assassinos luxuriosos, a fim
de em tempo certo ferir a vista do ameaçado duque com este papel fatal. E está com sorte por eu poder
contar-lhe de tua morte.
GLOSTER - O rei ficou insano; quão teimoso meu vil juízo se mostra, permitindo-me ficar de pé e
intacto me deixando o sentido de minha dor imensa. Fora melhor ficar de todo louco. Assim se
apartariam das tristezas os pensamentos, que as desgraças perdem a autoconsciência, quando sob o
império de errôneas fantasias.
(Ruído de tambor ao longe.)
EDGAR - Dai-me a mão. Ouço ao longe um tambor, se não me engano. Vamos, pai; vou confiar-vos a
um amigo.
(Saem.)
Cena VII
Uma tenda no acampamento francês. Entram Cordélia, Kent, um médico e um gentil-homem.
CORDÉLIA - Ó meu bondoso Kent, de que maneira posso viver e agir, para que a tua bondade
recompense? Minha vida será curta demais, sem que eu disponha de medida adequada.
KENT - Já me sobram, senhora, os vossos agradecimentos Vai de par meu relato com a mais simples
verdade, sem acréscimos nem falhas.
CORDÉLIA - Veste roupa melhor; essa roupagem faz lembrados momentos muito tristes. Por favor,
troca-a.
KENT - Não, cara senhora; perdoai-me; mas prejudicara muito meus planos dar-me a conhecer agora.
Como graça vos peço continuardes sem me reconhecer, até que o tempo e eu concordemos nisso.
CORDÉLIA - Pois que seja, meu bondoso senhor. (Ao médico.) Que faz o rei?
O MÉDICO - Ainda dorme, senhora.
CORDÉLIA - Ó divindades piedosas, deixai boa a grande brecha de sua natureza maltratada! Afinai os
sentidos em desordem e dissonantes deste pai que em criança voltou a transformar-se.
O MEDICO - Vossa Alteza permitirá que o rei nós despertemos? Já dormiu muito.
CORDÉLIA - Segui nisso apenas vossos conhecimentos, procedendo como melhor julgardes. Já o
vestiram?
(Entra Lear numa cadeira, carregado por criados.)
GENTIL-HOMEM - Já sim, senhora, pois no mais pesado do sono lhe trocamos toda a roupa.
O MÉDICO - Ficai junto, senhora, no momento de o despertarmos, pois não tenho dúvidas quanto a suas
melhoras.
CORDÉLIA - Muito bem.
(Música.)
O MÉDICO - Aproximai-vos, por favor. A música, aí, mais alto!
CORDÉLIA - Ó meu querido pai! Em meus lábios suspende teus remédios, convalescença, e deixa que
este beijo repare a imensa dor que minhas manas produziram em tua reverência.
KENT - Minha boa princesa e mui querida!
CORDÉLIA - Mesmo que pai não fosse delas duas. estes cabelos brancos lhes teriam forçado à
compaixão. Uma cabeça como esta poderia ser exposta à fúria das rajadas? defrontar-se com o trovão
pavoroso e o mais terrível ziguezaguear de temerosos raios? Ficar de guarda - pobre sentinela! - com este
elmo tão fino? O próprio cão do meu imigro, embora me tivesse mordido, houvera, numa noite dessas,
permanecido junto do meu fogo. E tu, meu pobre pai, foste forçado a abrigar-te com porcos e mendigos
numa pouca de palha embolorada! Ai, que dor. Maravilha é não haveres a um só tempo perdido a vida e
o espírito. Vai acordar; falai-lhe.
O MÉDICO - Vós, senhora; será melhor.
CORDÉLIA - Como se sente agora meu real senhor? E Vossa Majestade como passa?
LEAR - Foi mal de vossa parte retirar-me do túmulo. És uma alma da bem-aventurança; eu, porém, me
acho a uma roda de fogo sempre atado, que minhas próprias lágrimas escaldam como chumbo fundido.
CORDÉLIA - Conheceis-me, senhor?
LEAR - És um espírito; conheço-te. Desde quando morreste?
CORDÉLIA - Divagando sempre por muito longe.
O MÉDICO - Concedei-lhe mais algum tempo; despertou há pouco.
LEAR - Onde estive? Onde estou? É dia claro? Oh! Procederam muito mal comigo; morrer de
compaixão eu poderia, se visse alguém tratado desse modo. Não sei o que dizer; jurar não quero que
estas mãos sejam minhas. Mas vejamos: sinto esta alfinetada. Quem me dera saber quem sou, realmente.
CORDÉLIA - Senhor, olhai para o meu lado, e as mãos estendei sobre mim, para abençoar-me. Não,
meu senhor! Não vos ponhais de joelhos!
LEAR - Ah! Não zombeis de mim, é o que vos peço. Sou um velho imprestável e caduco, para cima de
oitenta, nem uma hora mais nem menos. E, para ser sincero, receio ter o espírito avariado. Creio vos
conhecer e, assim, a este homem; mas em dúvida me acho, pois ignoro de todo onde me encontro, sem
que possa lembrar-me destas vestes. De igual modo não sei onde passei a última noite. Oh! não riais de
mim! Porque tão certo como eu ser homem, quer afigurar-me que esta dama é Cordélia, minha filha.
CORDÉLIA - Sou ela mesma, meu senhor; sou ela.
LEAR - Tendes lágrimas úmidas? Realmente. Não choreis, é o que peço. Se tiverdes veneno para
dar-me, hei de bebê-lo. Sei que amor não me tendes. Vossas manas - tanto quanto me lembro -
procederam comigo muito mal. Mas tendes causa; ao passo que nenhuma delas tinha.
CORDÉLIA - Nenhuma causa! Não; nenhuma causa!
LEAR - Estou na França?
KENT - Em vosso próprio reino, senhor.
LEAR - Não me enganeis.
O MÉDICO - Ficai tranqüila, boa senhora. Já está morta nele, como estais vendo, a grande fúria. Agora
perigoso é fazê-lo novamente subir ao longo do perdido tempo. Levai-o para dentro, sem cansá-lo com
perguntas, até que se refaça.
CORDÉLIA - Quererá Vossa Alteza andar um pouco?
LEAR - Precisareis comigo ter paciência. Esquecei e perdoai-me, por obséquio. Estou velho e caduco.
(Saem Lear, Cordélia, o médico e os criados.)
GENTIL-HOMEM - Confirmou-se a notícia, senhor, de que o duque de Cornualha foi morto?
KENT - Perfeitamente, senhor.
GENTIL-HOMEM - Quem está à testa de seus homens?
KENT - Ao que dizem, o filho bastardo de Gloster.
GENTIL-HOMEM - Dizem que Edgar, seu filho exilado, está na Alemanha com o conde de Kent.
KENT - Os boatos variam. É tempo de abrirmos os olhos; as forças do reino se aproximam com presteza.
GENTIL-HOMEM - A decisão promete ser sangrenta. Passai bem, senhor.
(Sai.)
KENT - Ou boa ou má, a minha conclusão os golpes de hoje à luz sair farão.
(Sai.)
REI LEAR, ATO V, Cena III
O acampamento inglês, perto de Dover. Entra Edmundo, como vencedor, com tambores e bandeiras;
Lear e Cordélia, prisioneiros; oficiais, soldados, etc.
EDMUNDO - Alguns oficiais os levem logo. Que fiquem bem guardados, até que a alta vontade se
conheça das pessoas que terão de julgá-los.
CORDÉLIA - Os primeiros não somos a ficar sobre braseiros com boas intenções. Rei oprimido, por ti,
somente, falta-me o sentido, que eu, por mim, poderia, carrancuda, enfrentar as carrancas da Fortuna.
Tais irmãs e tais filhas não veremos?
LEAR - Não, não, não, não! Levai-nos para o cárcere. Nós dois, sozinhos, cantaremos como pássaros na
gaiola. No momento de a benção me pedires, eu me ajoelho e te imploro perdão. Dessa maneira
viveremos, dizendo nossas preces, cantando e velhos contos enarrando, rindo das borboletas variegadas e
ouvindo os pobres diabos discorrerem sobre os boatos da corte, aos quais, decerto, nos juntaremos para
dar palpite sobre quem perde ou ganha, quem se encontra no alto da escada ou em baixo, discorrendo
sobre os altos mistérios do universo como se espiões de Deus, acaso, fôssemos. Gastaremos, assim, no
duro cárcere, os partidos e as lutas dos graúdos que com a lua sobem sempre e descem.
EDMUNDO - Levai-os!
LEAR - Sobre um sacrifício destes, minha boa Cordélia, os próprios deuses jogam incenso. Tenho-te
bem presa? Quem quiser separar-nos há de um facho trazer do céu, para tocar-nos, como a raposas.
Enxuga, enxuga os olhos. A carne e a pele a peste há de comer-lhes antes de que eles a chorar nos
forcem. Primeiro morrerão de fome. Vamos!
(Saem Lear e Cordélia, escoltados.)
EDMUNDO - Capitão, vem aqui. Toma este escrito. Ouve-me atento. Segue-os até o cárcere. Já te
beneficiei de um grau; no caso de cumprires esta ordem, o caminho terás franqueado da mais nobre sorte.
Reflete no seguinte: os homens mudam conforme as épocas. Uma alma terna não se casa com a espada.
Este mandato não permite objeções: ou vais cumpri-lo, ou procura subir por outros meios.
OFICIAL - Senhor, hei de cumpri-lo.
EDMUNDO - Cuida disso, e, feito isso, feliz te considera. Ouve-me bem: sem perda de um momento, e
cumpre as minhas instruções à risca.
OFICIAL - Puxar carro não sei, nem comer feno; mas se é trabalho de homem, já está feito.
(Sai.)
(Fanfarra. Entram Albânia, Goneril, Regane, oficiais e criados.)
ALBÂNIA - Senhor, mostrastes vossa altiva raça e bem guiado fostes pela sorte. Tendes os prisioneiros
que adversários nossos foram na luta deste dia. De vós os requeremos, para dar-lhes tratamento conforme
o próprio mérito o exigir e, assim, nossa segurança.
EDMUNDO - Pareceu-me, senhor, mais conveniente mandar o velho e desgraçado rei para alguma
prisão, sob guarda certa, pois de grande feitiço se revela sua diade e, ainda mais, o próprio título para
arrastar o coração do vulgo, voltar fazendo contra nossos olhos as lanças que nós mesmos alistamos.
Pelas mesmas razões foi a rainha juntamente com ele. Ambos se encontram prontos, amanhã cedo ou
mais de espaço, para comparecer onde quiserdes formar o tribunal. De suor e sangue todo coberto ainda
estou; o amigo perdeu o amigo e, no calor, as lutas mais altas são amaldiçoadas pelos que o corte delas
sentem. O problema de Cordélia e do pai requer um sítio mais conveniente.
ALBÂNIA - Não vos desagrade, senhor, mas nesta guerra considero-vos súdito, não irmão.
REGANE - Irmão, lhe digo, o que me apraz dele fazer. Parece-me que devia ter sido consultado nosso
prazer antes de tal discurso. Foi nosso general, representante de mim própria e de minha dignidade,
intimidade que bem pode a fronte levantar para vosso irmão chamar-se.
GONERIL - Por que tanto calor? Seu próprio mérito o exalta mais que vossas distinções.
REGANE - Com meus direitos, minha investidura, aos melhores se iguala.
GONERIL - Atingiria, decerto, o ápice, vindo a desposar-vos.
REGANE - Por vezes os trocistas se revelam verdadeiros profetas.
GONERIL - Olará! O olho que vos disse isso estava vesgo.
REGANE - Não estou bem, senhora; não fora isso, vos daria a resposta merecida. General, toma conta
dos meus homens, dos prisioneiros, meus haveres todos. Dispõe deles, de mim; teu é este burgo. Seja o
universo testemunha em como te creio agora meu senhor e mestre.
GONERIL - Pensais que já sois dele?
ALBÂNIA - Não depende de vós a permissão.
EDMUNDO - Oh! nem de ti!
ALBÂNIA - Depende, sim, tipo de meio sangue.
REGANE - Faze soar o tambor, e que este prove que meu título é teu.
ALBÂNIA - Um momentinho; a razão escutai: Edmundo, prendo-te por traição capital, e juntamente
contigo esta serpente cheia de ouro,
(Apontando para Goneril.)
porque, formosa irmã, me oponho a vossas pretensões, no interesse, tão-somente, de minha esposa, que
ligada se acha a este senhor por um formal contrato. Eu, seu marido, oponho-me, portanto, a esses vossos
proclamas. Se quiserdes casar, fazei-me a corte, que esta dama já está comprometida.
GONERIL - Que comédia!
ALBÂNIA - Gloster, estás armado. Que a trombeta dê logo o toque. Caso ninguém venha para ao rosto
lançar-te as tuas próprias traições odiosas, múltiplas e claras, aqui está meu penhor.
(Atira a luva.)
Nessa cabeça demonstrarei antes de novamente provar pão, que és tudo isso que ora afirmo.
REGANE - Oh! doente, muito doente!
GONERIL (à parte) - De outro modo não voltara a confiar na medicina.
EDMUNDO - Eis meu penhor, também.
(Joga a luva.)
Em todo o mundo quem quer que de traidor ouse chamar-me, mente como um vilão. Soe a trombeta!
Contra quem se atrever a apresentar-se, contra ele, contra vós, contra quem seja, firme defenderei a honra
e a lealdade.
ALBÂNIA - Eh! Um arauto!
EDMUNDO - Olá! O arauto! O arauto!
ALBÂNIA - Confia apenas na coragem própria; pois teus soldados, alistados todos em meu nome, já
foram licenciados.
REGANE - Meus incômodos crescem!
ALBÂNIA - Não se encontra passando bem; levai-a para a tenda.
(Sai Regane, amparada.)
Aproxima-te, arauto.
(Entra um arauto.) Que a trombeta soe logo e, depois, proclama isto.
OFICIAL - Soe a trombeta!
(Ouve-se um toque de trombeta.)
ARAUTO - "Se houver nas fileiras do exército qualquer homem de qualidade ou posição que queira
sustentar contra Edmundo, suposto conde de Gloster, que ele é muitas vezes traidor, apresente-se ao
terceiro toque da trombeta. Edmundo está decidido a defender-se."
EDMUNDO - Tocai!
(Primeiro toque.)
ARAUTO - Outra vez!
(Segundo toque.)
ARAUTO - Outra vez!
(Terceiro toque.)
(Uma trombeta responde dentro.)
(Entra Edgar, armado, precedido de um trombeteiro.)
ALBÂNIA - Interrogai-o sobre seus intuitos e porque veio ao toque da trombeta.
ARAUTO - Quem sois vós? Vosso nome? Vosso estado? Por que viestes aqui a esta chamada?
EDGAR - Meu nome se perdeu, ficai sabendo. Roeu-o o dente da traição, deixando-o lacerado de todo.
Mas sou nobre tanto quanto o adversário que procuro.
ALBÂNIA - Quem é esse adversário?
EDGAR - Quem responde pelo conde de Gloster, por Edmundo?
EDMUNDO - Ele próprio. Que tens para dizer-lhe?
EDGAR - Saca da espada, para que, no caso de um nobre coração vir meu discurso magoar, justiça
obtenhas por teu braço. Eis aqui a minha, como privilégio de minha qualidade, juramentos e honrarias,
que aqui venho afirmar-te, apesar de tua força, mocidade, posição e alto estado; não obstante tua sorte
forjada há pouco tempo e a espada vitoriosa, tua grandeza, valentia e coragem, que és traidor, falso aos
deuses, ao próprio irmão e ao pai, conspirador contra este ilustre príncipe, e que do ponto extremo da
cabeça ao mais baixo do pé que pisa a poeira, és um traidor manchado como o sapo. Se "Não" disseres,
esta espada, o braço, minha melhor coragem vão provar-te no coração que mentes.
EDMUNDO - A prudência me mandaria perguntar teu nome. Mas visto teres um exterior tão belo, tão
marcial, e expressar os pensamentos tua língua com nobreza, com desprezo ponho de lado todas as
delongas que as próprias regras da cavalaria sem desdoiro nenhum me asseguraram. Essas traições, em
tua fronte as jogo, e o coração aperto-te na própria calúnia odiosa como o duro inferno. De leve,
tão-somente, me tocaram. Por isso, minha espada vai mostrar-lhes neste instante o caminho para o ponto
em que repouso irão achar eterno. Falai, trombetas!
(Alarma; batem-se; Edmundo cai.)
ALBÂNIA - Poupai-lhe a vida!
GONERIL - É uma cilada, Gloster! Segundo as leis das armas, não devias aceitar luta com um
desconhecido. Vencido não caíste; foste vítima do embuste e da traição.
ALBÂNIA - Fechai a boca, senhora; do contrário, eu mesmo a tapo com esta carta. Olha para este lado,
senhor, pior do que os mais feios nomes; lê teu próprio delito. Não, senhora! Não a rasgueis! Vejo que a
conheceis.
(Dá a carta a Edmundo.)
GONERIL - E se fosse esse o caso? A lei é minha, não tua. Quem me chamará a juízo?
(Sai.)
ALBÂNIA - Oh! Monstruoso! Conheces essa carta?
EDMUNDO - Oh! não me pergunteis o que eu conheço.
ALBÂNIA - Ide atrás dela; está desesperada. Vigiai-a bem.
(Sai o oficial.)
EDMUNDO - Sim, perpetrei os crimes de que ora me acusais, e muitas coisas, ainda, muitas mais. Aos
poucos há de revelá-las o tempo. Mas tudo isso já passou, tal como eu. Mas quem és tu, que tal vantagem
sobre mim tiveste? Se fores nobre, o meu perdão concedo-te.
EDGAR - Então reciproquemos caridade. Não é menor que o teu meu sangue, Edmundo. Se maior for,
maior será tua culpa com relação a mim. Chamo-me Edgar; sou filho de teu pai. Justos os deuses sempre
são, e instrumentos de castigo fazem de nossos vícios agradáveis. Custou-lhe os olhos o lugar vicioso
onde foste gerado.
EDMUNDO - Com acerto falaste; é verdadeiro o que disseste. Estou aqui: ficou completo o círculo.
ALBÂNIA - Bem vi que tua forma revelava uma nobreza real. Quero abraçar-te. Que a dor me parta o
coração, se acaso te tive ódio, ou a teu pai, em qualquer tempo.
EDGAR - Sei disso, digno príncipe.
ALBÂNIA - Em que ponto vos escondestes? Como a saber viestes das misérias de vosso pobre pai?
EDGAR - Tratando delas, meu senhor, apenas. Ouvi uma história curta, e logo que ela tiver sido contada,
oh! que me estale de dor o coração. Da sanguinária proclamação porque escapar pudesse, que tão de
perto os passos me seguia - Ó doçura da vida, que nos fazes preferir morrer de hora em hora as dores da
morte a de uma vez morrer de todo! - precisei disfarçar-me com os andrajos de um demente, assumindo
uma aparência que até mesmo os cachorros repelia. Com essas vestes fui achar meu pai, cujos anéis
sangrentos as preciosas pedras tinham perdido. Transformei-me em seu guia, pedi para ele esmola, por
toda parte o conduzi, salvei-o do desespero, sem que nunca - oh falta! - lhe houvesse revelado quem eu
era, senão há cerca de meia hora, quando já me encontrava armado. Não me achando seguro de vencer,
pedi-lhe a bênção e minha peregrinação contei-lhe, do começo até ao fim. Mas seu rachado coração, ah!
muito fraco porque a luta pudesse suportar dos dois extremos da paixão, alegria e sofrimento, sorrindo
arrebentou.
EDMUNDO - Vosso discurso me comoveu, sendo possível, mesmo, que produza algum bem. Mas
prossegui; parece que ainda não contastes tudo.
ALBÂNIA - Se houver outras misérias, ocultai-as, porque no ponto de chorar me encontro, ouvindo o
que contastes.
EDGAR - Julgaria quem não amasse a dor que esse relato já representa tudo. Porém se outro viesse
juntar-se ainda a tantos males, ampliando-os muito e muito, ultrapassara decerto o ponto extremo.
Quando a clamar de dor eu me encontrava, chegou um homem que me vira em minha ínfima condição e
se esquivara de minha companhia repelente, mas que, ao notar, então, quem era o grande sofredor, em
seus braços vigorosos me apertou o pescoço, urrou a ponto de arrebentar o céu, lançou-se em cima do
corpo de meu pai e a mais dorida história me contou sobre ele e Lear, que jamais percebeu o ouvido
humano. Ao relatá-la, a dor o dominava, começando a estalar-lhe as próprias cordas da vida. Mas nessa
hora duas vezes soou a trombeta e exânime o deixei.
ALBÂNIA - Mas quem é ele?
EDGAR - Kent, senhor; o mesmo Kent exilado, o qual sob um disfarce seguia o rei seu inimigo, tendo
lhe prestado serviços nada próprios, ai! nem mesmo de escravos.
(Entra um gentil-homem com uma faca ensanguentada.)
GENTIL-HOMEM - Aqui, socorro! Socorro, aqui!
EDGAR - Socorro de que jeito?
ALBÂNIA - Fala, homem.
EDGAR - E essa faca ensangüentada?
GENTIL-HOMEM - Está quente; fumega; neste instante saiu do coração dela... Oh! Morreu!
ALBÂNIA - Quem morreu, homem? Fala.
GENTIL-HOMEM - Vossa esposa, senhor, vossa consorte, e a irmã por ela envenenada; confessou o
fato.
EDMUNDO - Fiquei noivo das duas; na mesma hora casamo-nos os três.
EDGAR - Kent aí vem vindo.
ALBÂNIA - Trazei os corpos, mortos ou com vida. Este juízo dos céus, que nos abala, não nos deixa,
por isso, enternecido.
(Sai o gentil-homem.)
(Entra Kent.)
Oh! É ele mesmo? Não permite o tempo saudá-lo como a cortesia manda.
KENT - Só vim aqui para dizer boa noite ao meu rei e senhor. Não se acha aqui?
ALBÂNIA - Oh! Esquecemos do que mais importa! Dize-nos, Edmundo, onde está o rei? Onde ficou
Cordélia? Kent, vês isto?
(São trazidos os corpos de Goneril e Regane.)
KENT - Oh! Como aconteceu?
EDMUNDO - No entanto, Edmundo foi amado! Uma deu veneno à outra, por minha causa, e se matou
depois.
ALBÂNIA - Justamente; cobri-lhes ora o rosto.
EDMUNDO - A vida já me foge, mas quisera fazer ainda algum bem, embora contra minha própria
feição. Mandai depressa, bem depressa, ao castelo. Meu escrito ameaça a vida de Cordélia e Lear. Não
percais tempo.
ALBÂNIA - Corre! Corre! Corre! EDGAR - Para onde, meu senhor? Qual a pessoa que está disso
incumbida? É necessário enviares um penhor como contra-ordem.
EDMUNDO - Foi bem pensado; toma minha espada e a entrega ao capitão.
ALBÂNIA -Por tua vida, não percas tempo.
(Sai Edgar.)
EDMUNDO - A comissão tem ele de tua esposa morta e minha, para na prisão a Cordélia dar a morte,
atribuindo, depois, ao desespero dela mesma sua própria destruição.
ALBÂNIA - Que os deuses a protejam! Retirai-o.
(Entram Lear, com Cordélia nos braços, morta; Edgar, oficiais e outras pessoas.)
LEAR - Uivai! Uivai! Ulvai! Sois empedrados! Se vossas línguas e olhos eu tivesse, usara-os de tal
modo, que faria rachar a abóbada celeste. Foi-se para sempre! Conheço muito bem quando alguém está
morto ou quando vive. Morta está como terra. Ide buscar-me um espelho; no caso de seu hálito embaçar
ou cobrir a superfície, então é que ela ainda está com vida.
KENT - Este é o fim prometido?
EDGAR - Ou bem a imagem de tanto horror?
ALBÂNIA - Cai de uma vez e acaba.
LEAR - A pluma está a mexer! Ela está viva! Oh! se for assim mesmo, é uma ventura que recompensa
todos os pesares por que tenho passado.
KENT (ajoelhando-se) - Oh meu bom mestre!
LEAR - Sai, por favor!
EDGAR - É Kent, o vosso amigo.
LEAR - A peste sobre vós, traidores todos! Sois todos assassinos! Poderia tê-la salvo, mas foi-se para
sempre. Ó Cordélia! Cordélia! Espera um pouco! Ah! Que disseste? A voz tinha sempre branda,
agradável e baixa, predicado na mulher de valor inestimável. Matei o escravo, quando te enforcava.
OFICIAL - É certo, meu senhor; matou-o, de fato.
LEAR - Não é verdade, amigo? Já houve tempo em que com minha espada de bom gume os fazia dançar.
Ora estou velho e estes trabalhos todos me deprimem. Quem Sois? Não vejo bem. Vou já dizer-vos.
KENT - Se blasona a fortuna de a dois seres ao mesmo tempo haver odiado e amado, a um deles aqui
vemos.
LEAR - Tenho a vista um tanto baça. Acaso não sois Kent?
KENT - O mesmo; Kent, o vosso servidor. Onde se encontra vosso criado Caius?
LEAR - Um bom sujeito, posso asseverar-vos; sabe bater nos outros com aprumo. Está morto e bem
podre.
KENT - Não, bondoso senhor; sou ele mesmo...
LEAR - Verei isso neste momento.
KENT - que desde o começo de vossos infortúnios e declínio vos tem seguido os lastimosos passos.
LEAR - Sois bem-vindo.
KENT - Ninguém é aqui bem-vindo. Tudo é sem alegria, escuro e morto. Vossas filhas mais velhas se
mataram, morrendo em desespero.
LEAR - Oh! Acredito-o.
ALBÂNIA - Já não sabe o que diz; absurdo fora tentarmos conversar com ele.
KENT - É inútil.
(Entra um oficial.)
OFICIAL - Edmundo faleceu, milorde.
ALBÂNIA - Nada significa isso agora. Vós, senhores e meus caros amigos, comunico-vos minha
intenção, que é dar todo o conforto que com esta grande ruína se coadune. Enquanto a nós, durante a vida
desta cândida majestade, conferimos-lhe todo o nosso poder. (A Kent e Edgar). A vós, as vossas
honrarias, que vossos grandes préstimos mais do que mereceram. Os amigos receberão a paga da virtude
provando todos nossos inimigos da copa do castigo. Oh! Vede! vede! LEAR - Foi enforcada minha
bonequinha! Não, não! Vida nenhuma! Por que causa terá vida um cavalo, um cão, um rato, e tu, fôlego
algum? Não voltarás, oh! nunca, nunca, nunca, nunca, nunca! Por obséquio, soltai-me este botão.
Obrigado, senhor. Oh! vedes isto? Olhai para ela! Vede os lábios dela! Olhai aqui! Olhai aqui!
(Morre.)
EDGAR - Desmaia! Senhor! Senhor!
KENT - Estala, coração! Estala, peço-te.
EDGAR - Senhor, olhai-me!
KENT - Não lhe molesteis a alma. Que se fine. Ódio lhe tem quem desejar deitá-lo por mais tempo no
banco de tormentos deste mundo tão duro.
EDGAR - Já não vive, realmente.
KENT - O que é admirável é que tenha agüentado a esse ponto. Sua vida já era usurpada.
ALBÂNIA - O corpo removei. Luto geral vai ser a nossa ocupação precípua.
(A Kent e Edgar.)
Amigos d'alma, governai o Estado, que tão ferido se acha e malfadado.
KENT - Para uma viagem longa vou partir. O mestre é que me chama; tenho de ir.
ALBÂNIA - Do tempo triste somos os arrimos; digamos tão-somente o que sentimos. Muito o velho
sofreu; mais desgraçada nossa velhice não será em nada.
Lear e Cordélia, prisioneiros; oficiais, soldados, etc.
EDMUNDO - Alguns oficiais os levem logo. Que fiquem bem guardados, até que a alta vontade se
conheça das pessoas que terão de julgá-los.
CORDÉLIA - Os primeiros não somos a ficar sobre braseiros com boas intenções. Rei oprimido, por ti,
somente, falta-me o sentido, que eu, por mim, poderia, carrancuda, enfrentar as carrancas da Fortuna.
Tais irmãs e tais filhas não veremos?
LEAR - Não, não, não, não! Levai-nos para o cárcere. Nós dois, sozinhos, cantaremos como pássaros na
gaiola. No momento de a benção me pedires, eu me ajoelho e te imploro perdão. Dessa maneira
viveremos, dizendo nossas preces, cantando e velhos contos enarrando, rindo das borboletas variegadas e
ouvindo os pobres diabos discorrerem sobre os boatos da corte, aos quais, decerto, nos juntaremos para
dar palpite sobre quem perde ou ganha, quem se encontra no alto da escada ou em baixo, discorrendo
sobre os altos mistérios do universo como se espiões de Deus, acaso, fôssemos. Gastaremos, assim, no
duro cárcere, os partidos e as lutas dos graúdos que com a lua sobem sempre e descem.
EDMUNDO - Levai-os!
LEAR - Sobre um sacrifício destes, minha boa Cordélia, os próprios deuses jogam incenso. Tenho-te
bem presa? Quem quiser separar-nos há de um facho trazer do céu, para tocar-nos, como a raposas.
Enxuga, enxuga os olhos. A carne e a pele a peste há de comer-lhes antes de que eles a chorar nos
forcem. Primeiro morrerão de fome. Vamos!
(Saem Lear e Cordélia, escoltados.)
EDMUNDO - Capitão, vem aqui. Toma este escrito. Ouve-me atento. Segue-os até o cárcere. Já te
beneficiei de um grau; no caso de cumprires esta ordem, o caminho terás franqueado da mais nobre sorte.
Reflete no seguinte: os homens mudam conforme as épocas. Uma alma terna não se casa com a espada.
Este mandato não permite objeções: ou vais cumpri-lo, ou procura subir por outros meios.
OFICIAL - Senhor, hei de cumpri-lo.
EDMUNDO - Cuida disso, e, feito isso, feliz te considera. Ouve-me bem: sem perda de um momento, e
cumpre as minhas instruções à risca.
OFICIAL - Puxar carro não sei, nem comer feno; mas se é trabalho de homem, já está feito.
(Sai.)
(Fanfarra. Entram Albânia, Goneril, Regane, oficiais e criados.)
ALBÂNIA - Senhor, mostrastes vossa altiva raça e bem guiado fostes pela sorte. Tendes os prisioneiros
que adversários nossos foram na luta deste dia. De vós os requeremos, para dar-lhes tratamento conforme
o próprio mérito o exigir e, assim, nossa segurança.
EDMUNDO - Pareceu-me, senhor, mais conveniente mandar o velho e desgraçado rei para alguma
prisão, sob guarda certa, pois de grande feitiço se revela sua diade e, ainda mais, o próprio título para
arrastar o coração do vulgo, voltar fazendo contra nossos olhos as lanças que nós mesmos alistamos.
Pelas mesmas razões foi a rainha juntamente com ele. Ambos se encontram prontos, amanhã cedo ou
mais de espaço, para comparecer onde quiserdes formar o tribunal. De suor e sangue todo coberto ainda
estou; o amigo perdeu o amigo e, no calor, as lutas mais altas são amaldiçoadas pelos que o corte delas
sentem. O problema de Cordélia e do pai requer um sítio mais conveniente.
ALBÂNIA - Não vos desagrade, senhor, mas nesta guerra considero-vos súdito, não irmão.
REGANE - Irmão, lhe digo, o que me apraz dele fazer. Parece-me que devia ter sido consultado nosso
prazer antes de tal discurso. Foi nosso general, representante de mim própria e de minha dignidade,
intimidade que bem pode a fronte levantar para vosso irmão chamar-se.
GONERIL - Por que tanto calor? Seu próprio mérito o exalta mais que vossas distinções.
REGANE - Com meus direitos, minha investidura, aos melhores se iguala.
GONERIL - Atingiria, decerto, o ápice, vindo a desposar-vos.
REGANE - Por vezes os trocistas se revelam verdadeiros profetas.
GONERIL - Olará! O olho que vos disse isso estava vesgo.
REGANE - Não estou bem, senhora; não fora isso, vos daria a resposta merecida. General, toma conta
dos meus homens, dos prisioneiros, meus haveres todos. Dispõe deles, de mim; teu é este burgo. Seja o
universo testemunha em como te creio agora meu senhor e mestre.
GONERIL - Pensais que já sois dele?
ALBÂNIA - Não depende de vós a permissão.
EDMUNDO - Oh! nem de ti!
ALBÂNIA - Depende, sim, tipo de meio sangue.
REGANE - Faze soar o tambor, e que este prove que meu título é teu.
ALBÂNIA - Um momentinho; a razão escutai: Edmundo, prendo-te por traição capital, e juntamente
contigo esta serpente cheia de ouro,
(Apontando para Goneril.)
porque, formosa irmã, me oponho a vossas pretensões, no interesse, tão-somente, de minha esposa, que
ligada se acha a este senhor por um formal contrato. Eu, seu marido, oponho-me, portanto, a esses vossos
proclamas. Se quiserdes casar, fazei-me a corte, que esta dama já está comprometida.
GONERIL - Que comédia!
ALBÂNIA - Gloster, estás armado. Que a trombeta dê logo o toque. Caso ninguém venha para ao rosto
lançar-te as tuas próprias traições odiosas, múltiplas e claras, aqui está meu penhor.
(Atira a luva.)
Nessa cabeça demonstrarei antes de novamente provar pão, que és tudo isso que ora afirmo.
REGANE - Oh! doente, muito doente!
GONERIL (à parte) - De outro modo não voltara a confiar na medicina.
EDMUNDO - Eis meu penhor, também.
(Joga a luva.)
Em todo o mundo quem quer que de traidor ouse chamar-me, mente como um vilão. Soe a trombeta!
Contra quem se atrever a apresentar-se, contra ele, contra vós, contra quem seja, firme defenderei a honra
e a lealdade.
ALBÂNIA - Eh! Um arauto!
EDMUNDO - Olá! O arauto! O arauto!
ALBÂNIA - Confia apenas na coragem própria; pois teus soldados, alistados todos em meu nome, já
foram licenciados.
REGANE - Meus incômodos crescem!
ALBÂNIA - Não se encontra passando bem; levai-a para a tenda.
(Sai Regane, amparada.)
Aproxima-te, arauto.
(Entra um arauto.) Que a trombeta soe logo e, depois, proclama isto.
OFICIAL - Soe a trombeta!
(Ouve-se um toque de trombeta.)
ARAUTO - "Se houver nas fileiras do exército qualquer homem de qualidade ou posição que queira
sustentar contra Edmundo, suposto conde de Gloster, que ele é muitas vezes traidor, apresente-se ao
terceiro toque da trombeta. Edmundo está decidido a defender-se."
EDMUNDO - Tocai!
(Primeiro toque.)
ARAUTO - Outra vez!
(Segundo toque.)
ARAUTO - Outra vez!
(Terceiro toque.)
(Uma trombeta responde dentro.)
(Entra Edgar, armado, precedido de um trombeteiro.)
ALBÂNIA - Interrogai-o sobre seus intuitos e porque veio ao toque da trombeta.
ARAUTO - Quem sois vós? Vosso nome? Vosso estado? Por que viestes aqui a esta chamada?
EDGAR - Meu nome se perdeu, ficai sabendo. Roeu-o o dente da traição, deixando-o lacerado de todo.
Mas sou nobre tanto quanto o adversário que procuro.
ALBÂNIA - Quem é esse adversário?
EDGAR - Quem responde pelo conde de Gloster, por Edmundo?
EDMUNDO - Ele próprio. Que tens para dizer-lhe?
EDGAR - Saca da espada, para que, no caso de um nobre coração vir meu discurso magoar, justiça
obtenhas por teu braço. Eis aqui a minha, como privilégio de minha qualidade, juramentos e honrarias,
que aqui venho afirmar-te, apesar de tua força, mocidade, posição e alto estado; não obstante tua sorte
forjada há pouco tempo e a espada vitoriosa, tua grandeza, valentia e coragem, que és traidor, falso aos
deuses, ao próprio irmão e ao pai, conspirador contra este ilustre príncipe, e que do ponto extremo da
cabeça ao mais baixo do pé que pisa a poeira, és um traidor manchado como o sapo. Se "Não" disseres,
esta espada, o braço, minha melhor coragem vão provar-te no coração que mentes.
EDMUNDO - A prudência me mandaria perguntar teu nome. Mas visto teres um exterior tão belo, tão
marcial, e expressar os pensamentos tua língua com nobreza, com desprezo ponho de lado todas as
delongas que as próprias regras da cavalaria sem desdoiro nenhum me asseguraram. Essas traições, em
tua fronte as jogo, e o coração aperto-te na própria calúnia odiosa como o duro inferno. De leve,
tão-somente, me tocaram. Por isso, minha espada vai mostrar-lhes neste instante o caminho para o ponto
em que repouso irão achar eterno. Falai, trombetas!
(Alarma; batem-se; Edmundo cai.)
ALBÂNIA - Poupai-lhe a vida!
GONERIL - É uma cilada, Gloster! Segundo as leis das armas, não devias aceitar luta com um
desconhecido. Vencido não caíste; foste vítima do embuste e da traição.
ALBÂNIA - Fechai a boca, senhora; do contrário, eu mesmo a tapo com esta carta. Olha para este lado,
senhor, pior do que os mais feios nomes; lê teu próprio delito. Não, senhora! Não a rasgueis! Vejo que a
conheceis.
(Dá a carta a Edmundo.)
GONERIL - E se fosse esse o caso? A lei é minha, não tua. Quem me chamará a juízo?
(Sai.)
ALBÂNIA - Oh! Monstruoso! Conheces essa carta?
EDMUNDO - Oh! não me pergunteis o que eu conheço.
ALBÂNIA - Ide atrás dela; está desesperada. Vigiai-a bem.
(Sai o oficial.)
EDMUNDO - Sim, perpetrei os crimes de que ora me acusais, e muitas coisas, ainda, muitas mais. Aos
poucos há de revelá-las o tempo. Mas tudo isso já passou, tal como eu. Mas quem és tu, que tal vantagem
sobre mim tiveste? Se fores nobre, o meu perdão concedo-te.
EDGAR - Então reciproquemos caridade. Não é menor que o teu meu sangue, Edmundo. Se maior for,
maior será tua culpa com relação a mim. Chamo-me Edgar; sou filho de teu pai. Justos os deuses sempre
são, e instrumentos de castigo fazem de nossos vícios agradáveis. Custou-lhe os olhos o lugar vicioso
onde foste gerado.
EDMUNDO - Com acerto falaste; é verdadeiro o que disseste. Estou aqui: ficou completo o círculo.
ALBÂNIA - Bem vi que tua forma revelava uma nobreza real. Quero abraçar-te. Que a dor me parta o
coração, se acaso te tive ódio, ou a teu pai, em qualquer tempo.
EDGAR - Sei disso, digno príncipe.
ALBÂNIA - Em que ponto vos escondestes? Como a saber viestes das misérias de vosso pobre pai?
EDGAR - Tratando delas, meu senhor, apenas. Ouvi uma história curta, e logo que ela tiver sido contada,
oh! que me estale de dor o coração. Da sanguinária proclamação porque escapar pudesse, que tão de
perto os passos me seguia - Ó doçura da vida, que nos fazes preferir morrer de hora em hora as dores da
morte a de uma vez morrer de todo! - precisei disfarçar-me com os andrajos de um demente, assumindo
uma aparência que até mesmo os cachorros repelia. Com essas vestes fui achar meu pai, cujos anéis
sangrentos as preciosas pedras tinham perdido. Transformei-me em seu guia, pedi para ele esmola, por
toda parte o conduzi, salvei-o do desespero, sem que nunca - oh falta! - lhe houvesse revelado quem eu
era, senão há cerca de meia hora, quando já me encontrava armado. Não me achando seguro de vencer,
pedi-lhe a bênção e minha peregrinação contei-lhe, do começo até ao fim. Mas seu rachado coração, ah!
muito fraco porque a luta pudesse suportar dos dois extremos da paixão, alegria e sofrimento, sorrindo
arrebentou.
EDMUNDO - Vosso discurso me comoveu, sendo possível, mesmo, que produza algum bem. Mas
prossegui; parece que ainda não contastes tudo.
ALBÂNIA - Se houver outras misérias, ocultai-as, porque no ponto de chorar me encontro, ouvindo o
que contastes.
EDGAR - Julgaria quem não amasse a dor que esse relato já representa tudo. Porém se outro viesse
juntar-se ainda a tantos males, ampliando-os muito e muito, ultrapassara decerto o ponto extremo.
Quando a clamar de dor eu me encontrava, chegou um homem que me vira em minha ínfima condição e
se esquivara de minha companhia repelente, mas que, ao notar, então, quem era o grande sofredor, em
seus braços vigorosos me apertou o pescoço, urrou a ponto de arrebentar o céu, lançou-se em cima do
corpo de meu pai e a mais dorida história me contou sobre ele e Lear, que jamais percebeu o ouvido
humano. Ao relatá-la, a dor o dominava, começando a estalar-lhe as próprias cordas da vida. Mas nessa
hora duas vezes soou a trombeta e exânime o deixei.
ALBÂNIA - Mas quem é ele?
EDGAR - Kent, senhor; o mesmo Kent exilado, o qual sob um disfarce seguia o rei seu inimigo, tendo
lhe prestado serviços nada próprios, ai! nem mesmo de escravos.
(Entra um gentil-homem com uma faca ensanguentada.)
GENTIL-HOMEM - Aqui, socorro! Socorro, aqui!
EDGAR - Socorro de que jeito?
ALBÂNIA - Fala, homem.
EDGAR - E essa faca ensangüentada?
GENTIL-HOMEM - Está quente; fumega; neste instante saiu do coração dela... Oh! Morreu!
ALBÂNIA - Quem morreu, homem? Fala.
GENTIL-HOMEM - Vossa esposa, senhor, vossa consorte, e a irmã por ela envenenada; confessou o
fato.
EDMUNDO - Fiquei noivo das duas; na mesma hora casamo-nos os três.
EDGAR - Kent aí vem vindo.
ALBÂNIA - Trazei os corpos, mortos ou com vida. Este juízo dos céus, que nos abala, não nos deixa,
por isso, enternecido.
(Sai o gentil-homem.)
(Entra Kent.)
Oh! É ele mesmo? Não permite o tempo saudá-lo como a cortesia manda.
KENT - Só vim aqui para dizer boa noite ao meu rei e senhor. Não se acha aqui?
ALBÂNIA - Oh! Esquecemos do que mais importa! Dize-nos, Edmundo, onde está o rei? Onde ficou
Cordélia? Kent, vês isto?
(São trazidos os corpos de Goneril e Regane.)
KENT - Oh! Como aconteceu?
EDMUNDO - No entanto, Edmundo foi amado! Uma deu veneno à outra, por minha causa, e se matou
depois.
ALBÂNIA - Justamente; cobri-lhes ora o rosto.
EDMUNDO - A vida já me foge, mas quisera fazer ainda algum bem, embora contra minha própria
feição. Mandai depressa, bem depressa, ao castelo. Meu escrito ameaça a vida de Cordélia e Lear. Não
percais tempo.
ALBÂNIA - Corre! Corre! Corre! EDGAR - Para onde, meu senhor? Qual a pessoa que está disso
incumbida? É necessário enviares um penhor como contra-ordem.
EDMUNDO - Foi bem pensado; toma minha espada e a entrega ao capitão.
ALBÂNIA -Por tua vida, não percas tempo.
(Sai Edgar.)
EDMUNDO - A comissão tem ele de tua esposa morta e minha, para na prisão a Cordélia dar a morte,
atribuindo, depois, ao desespero dela mesma sua própria destruição.
ALBÂNIA - Que os deuses a protejam! Retirai-o.
(Entram Lear, com Cordélia nos braços, morta; Edgar, oficiais e outras pessoas.)
LEAR - Uivai! Uivai! Ulvai! Sois empedrados! Se vossas línguas e olhos eu tivesse, usara-os de tal
modo, que faria rachar a abóbada celeste. Foi-se para sempre! Conheço muito bem quando alguém está
morto ou quando vive. Morta está como terra. Ide buscar-me um espelho; no caso de seu hálito embaçar
ou cobrir a superfície, então é que ela ainda está com vida.
KENT - Este é o fim prometido?
EDGAR - Ou bem a imagem de tanto horror?
ALBÂNIA - Cai de uma vez e acaba.
LEAR - A pluma está a mexer! Ela está viva! Oh! se for assim mesmo, é uma ventura que recompensa
todos os pesares por que tenho passado.
KENT (ajoelhando-se) - Oh meu bom mestre!
LEAR - Sai, por favor!
EDGAR - É Kent, o vosso amigo.
LEAR - A peste sobre vós, traidores todos! Sois todos assassinos! Poderia tê-la salvo, mas foi-se para
sempre. Ó Cordélia! Cordélia! Espera um pouco! Ah! Que disseste? A voz tinha sempre branda,
agradável e baixa, predicado na mulher de valor inestimável. Matei o escravo, quando te enforcava.
OFICIAL - É certo, meu senhor; matou-o, de fato.
LEAR - Não é verdade, amigo? Já houve tempo em que com minha espada de bom gume os fazia dançar.
Ora estou velho e estes trabalhos todos me deprimem. Quem Sois? Não vejo bem. Vou já dizer-vos.
KENT - Se blasona a fortuna de a dois seres ao mesmo tempo haver odiado e amado, a um deles aqui
vemos.
LEAR - Tenho a vista um tanto baça. Acaso não sois Kent?
KENT - O mesmo; Kent, o vosso servidor. Onde se encontra vosso criado Caius?
LEAR - Um bom sujeito, posso asseverar-vos; sabe bater nos outros com aprumo. Está morto e bem
podre.
KENT - Não, bondoso senhor; sou ele mesmo...
LEAR - Verei isso neste momento.
KENT - que desde o começo de vossos infortúnios e declínio vos tem seguido os lastimosos passos.
LEAR - Sois bem-vindo.
KENT - Ninguém é aqui bem-vindo. Tudo é sem alegria, escuro e morto. Vossas filhas mais velhas se
mataram, morrendo em desespero.
LEAR - Oh! Acredito-o.
ALBÂNIA - Já não sabe o que diz; absurdo fora tentarmos conversar com ele.
KENT - É inútil.
(Entra um oficial.)
OFICIAL - Edmundo faleceu, milorde.
ALBÂNIA - Nada significa isso agora. Vós, senhores e meus caros amigos, comunico-vos minha
intenção, que é dar todo o conforto que com esta grande ruína se coadune. Enquanto a nós, durante a vida
desta cândida majestade, conferimos-lhe todo o nosso poder. (A Kent e Edgar). A vós, as vossas
honrarias, que vossos grandes préstimos mais do que mereceram. Os amigos receberão a paga da virtude
provando todos nossos inimigos da copa do castigo. Oh! Vede! vede! LEAR - Foi enforcada minha
bonequinha! Não, não! Vida nenhuma! Por que causa terá vida um cavalo, um cão, um rato, e tu, fôlego
algum? Não voltarás, oh! nunca, nunca, nunca, nunca, nunca! Por obséquio, soltai-me este botão.
Obrigado, senhor. Oh! vedes isto? Olhai para ela! Vede os lábios dela! Olhai aqui! Olhai aqui!
(Morre.)
EDGAR - Desmaia! Senhor! Senhor!
KENT - Estala, coração! Estala, peço-te.
EDGAR - Senhor, olhai-me!
KENT - Não lhe molesteis a alma. Que se fine. Ódio lhe tem quem desejar deitá-lo por mais tempo no
banco de tormentos deste mundo tão duro.
EDGAR - Já não vive, realmente.
KENT - O que é admirável é que tenha agüentado a esse ponto. Sua vida já era usurpada.
ALBÂNIA - O corpo removei. Luto geral vai ser a nossa ocupação precípua.
(A Kent e Edgar.)
Amigos d'alma, governai o Estado, que tão ferido se acha e malfadado.
KENT - Para uma viagem longa vou partir. O mestre é que me chama; tenho de ir.
ALBÂNIA - Do tempo triste somos os arrimos; digamos tão-somente o que sentimos. Muito o velho
sofreu; mais desgraçada nossa velhice não será em nada.
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