O mesmo. Um salão em casa de Capuleto. Músicos esperam. Entram criados.
PRIMEIRO CRIADO - Onde está o Caçarola, que não vem ajudar a tirar a mesa? Aquele troca-pratos!
Olá, Raspa-pratos!
SEGUNDO CRIADO - Retira esses tamboretes, arrasta o aparador. Cuidado com a baixela! Amigo,
separa para mim um pedaço de massapão. E se me tens amizade, dize ao porteiro que deixe entrar Nell e
Susana Grindstone. Antônio! Caçarola!
TERCEIRO CRIADO - Aqui, rapaz! Estamos prontos.
PRIMEIRO CRIADO - Estão vos chamando, estão vos procurando, reclamam vossa presença na sala
grande.
TERCEIRO CRIADO - Não podemos estar aqui e lá ao mesmo tempo.
SEGUNDO CRIADO - Alegria, rapazes! Ficai lépidos pelo menos uma vez na vida. Quem viver mais
tempo, ficará com tudo.
(Afastam-se para o fundo.)
(Entram Capuleto, Julieta e outras pessoas da casa, que se encontram com hóspedes e mascarados.)
CAPULETO - Cavalheiros, bem-vindos. As senhoras que não sofrerem no dedão de calos hão de dançar
convosco. Olá, senhoras! Qual de vós há de agora recusar-se a dar uma voltinha? A que mimosa se
mostrar por demais, faço uma aposta em como terá calos. Como! Agora ficamos juntos? Sede aqui
bem-vindos, meus senhores! Já vi também os dias em que punha uma máscara e sabia cochichar uma ou
duas palavrinhas nuns ouvidos bonitos. E agradavam! Mas já lá vai o tempo... Tudo passa. Sois
bem-vindos, senhores. Vinde, músicos! Tocai logo! Licença! Abri caminho... Com licença! Meninas,
ligeireza!
(Música e dança.)
Mais luz, marotos! Arrastai as mesas e apagai esse fogo, que está muito quente aqui dentro. Ah! essas
brincadeiras inesperadas chegam sempre a tempo. Sim, sentai-vos, sentai-vos, caro primo Capuleto; nós
dois já não estamos na idade de dançar. Há quanto tempo deixamos de pôr máscara?
SEGUNDO CAPULETO -- Trinta anos, pela Virgem; trinta anos.
CAPULETO - Como, primo! Não, não faz tanto tempo; é muita coisa. Foi desde o casamento de
Lucêncio. Venha quando quiser o Pentecostes, serão vinte e cinco anos.... Nós, de máscara...
SEGUNDO CAPULETO - Muito mais! Muito mais! O filho dele, senhor, tem mais idade; tem trinta
anos.
CAPULETO - Que dizeis! Pois se esse filho dele há uns dois anos maior não era ainda!
ROMEU - Que dama é aquela que enriquece o braço daquele cavalheiro?
CRIADO - Desconheço-a, meu senhor.
ROMEU - Oh! ela ensina a tocha a ser luzente. Dir-se-ia que da face está pendente da noite, tal qual jóia
mui preciosa da orelha de uma etíope mimosa. Bela demais para o uso, muito cara para a vida terrena.
Como clara pomba ao lado de gralhas tagarelas, anda no meio das demais donzelas. Vou procurá-la, ao
terminar a dança porque a esta rude mão possa dar ansa de tocar nela e, assim, ficar bendita. Meu
coração, até hoje, teve a dita de conhecer o amor? Oh! que simpleza! Nunca soube até agora o que é
beleza.
TEBALDO - Pela voz este aqui é algum Montecchio. Rapaz, vai buscar logo minha espada. Como! Esse
escravo atreve-se a, com máscara grotesca, vir aqui, para de nossa festividade rir e fazer pouco? Pela
honra do meu sangue e nobre estado, dar-lhe a morte não julgo ser pecado.
CAPULETO - Que tens, sobrinho? Que se dá contigo?
TEBALDO - Tio, aquele é um Montecchio, nosso imigo; um vilão que aqui entrou por zombaria, para
nos estragar toda a alegria.
CAPULETO - Não é o jovem Romeu?
TEBALDO - O mesmo, o biltre Romeu.
CAPULETO - Gentil sobrinho, fica quieto; deixa-o tranqüilo. Ele se tem mostrado perfeito
gentil-homem. Para ser-te franco, Verona tem orgulho dele, como rapaz virtuoso e mui polido. Nem por
toda a riqueza da cidade quisera que ele aqui fosse ofendido. Acalma-te, portanto, e fica alegre; essa é a
minha vontade. Se a acatares, fica alegre e desfaze essa carranca que não vai bem com nossa alacridade.
TEBALDO - Vai, sim, quando um vilão se mete nela. Não o suporto.
CAPULETO - Terás de suportá-lo. Como, rapaz! Estou mandando: deixa-o! Quem manda aqui, acaso;
vós ou eu? Ora, não o suportais! Deus me salve a alma. Quereis fazer barulho entre meus hóspedes?
Provocar briga? Ser mandão na festa?
TEBALDO - Mas, tio, é vergonhoso...
CAPULETO - Ide, ide. Sois petulante, não? Prejudicar-vos ainda pode esta história. Sei de tudo.
Procurais contrariar-me? Eis o momento. - Muito bem, corações! - Sois um fedelho. Ide acalmar-vos -
Luz! Mais luz! - Que opróbrio! Já vou deixar-vos quieto. - Assim, meus caros! Alegria! Alegria!
TEBALDO - A paciência e o furor, equilibrados, inativos me deixam com seus brados. Vou sair; mas o
intruso que hoje é mel, será amanhã o mais amargo fel.
(Sai.)
ROMEU - (a Julieta) - Se minha mão profana o relicário em remissão aceito a penitência: meu lábio,
peregrino solitário, demonstrará, com sobra, reverência.
JULIETA - Ofendeis vossa mão, bom peregrino, que se mostrou devota e reverente. Nas mãos dos santos
pega o paladino. Esse é o beijo mais santo e conveniente.
ROMEU - Os santos e os devotos não têm boca?
JULIETA - Sim, peregrino, só para orações.
ROMEU - Deixai, então, ó santa! que esta boca mostre o caminho certo aos corações.
JULIETA - Sem se mexer, o santo exalça o voto.
ROMEU - Então fica quietinha: eis o devoto. Em tua boca me limpo dos pecados.
(Beija-a.)
JULIETA - Que passaram, assim, para meus lábios.
ROMEU - Pecados meus? Oh! Quero-os retornados. Devolve-mos.
JULIETA - Beijais tal qual os sábios.
AMA - Vossa mãe quer falar-vos, senhorita.
ROMEU - Quem é a mãe dela?
AMA -.Ora essa, cavalheiro! A dona desta casa, certamente, uma digna senhora, honesta e sábia.
Amamentei-lhe a filha, a senhorita com que falastes. E uma coisa eu digo, com certeza: quem vier a
desposá-la, ficará cheio de ouro.
ROMEU - É Capuleto? Oh conta cara! Minha vida é dívida de hoje em diante no livro do inimigo.
BENVÓLIO - A festa já acabou; vamos embora.
ROMEU - Acabou? Para mim começa agora.
CAPULETO - Não, cavalheiros, não saiais tão cedo; ainda teremos uma ceiazinha. Mas partis mesmo? A
todos, obrigado. Muito obrigado, honesto cavalheiro. Boa noite. - Trazei-me aqui mais tochas! Sendo
assim, vou deitar-me. É certo, amigo: já está ficando tarde. Vou deitar-me.
(Saem todos, com exceção de Julieta e a ama.)
JULIETA - Ama, quem é aquele gentil-homem?
AMA - Herdeiro e filho de Tibério, o velho.
JULIETA - E aquele que ora passa pela porta?
AMA - Se não me engano, é o filho de Petrucchio.
JULIETA - E aquele que ali vai, que não dançou?
AMA - Não sei quem seja.
JULIETA - Então vai perguntar-lhe como se chama. Vai! Se for casado, um túmulo será todo o meu
fado.
AMA - Romeu é o nome dele; é um dos Montecchios, filho único do vosso grande imigo.
JULIETA - Como do amor a inimizade me arde! Desconhecido e asnado muito tarde. Como esse
monstro, o amor, brinca comigo: apaixonada ver-me do inimigo!
AMA - Como assim? Como assim?
JULIETA - Isso é uma rima que aprender fui com quem dancei há pouco.
AMA - Já vamos! Um momento! - Está na hora; já se foram os hóspedes embora.
(Saem.)
PRÓLOGO
(Entra o coro.)
CORO - Moribundo se encontra o antigo afeto, querendo o novo amor ser seu herdeiro; da beldade fatal
o externo aspecto frente a Julieta é monstro verdadeiro. Ama Romeu, sendo também amado. Cada um
nos olhos do outro acha feitiço; queixa-se ele do imigo proclamado; na mais pungente dor cria ela viço.
Sendo inimigo, acesso junto dela não obtém ele para suas juras; nem ela sabe, como, com cautela, lhe
poderá dizer palavras puras. Mas o amor, em tamanha extremidade. sabe fazer da dor felicidade.
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ROMEU E JULIETA, ATO I, Cena V
ROMEU E JULIETA, ATO II, Cena II
O mesmo. Jardim de Capuleto. Entra Romeu.
ROMEU - Só ri das cicatrizes quem ferida nunca sofreu no corpo.
(Julieta aparece na janela.)
Mas silêncio! Que luz se escoa agora da janela? Será Julieta o sol daquele oriente? Surge, formoso sol, e
mata a lua cheia de inveja, que se mostra pálida e doente de tristeza, por ter visto que, como serva, és
mais formosa que ela. Deixa, pois, de servi-la; ela é invejosa. Somente os tolos usam sua túnica de vestal,
verde e doente; joga-a fora. Eis minha dama. Oh, sim! é o meu amor. Se ela soubesse disso! Ela fala;
contudo, não diz nada. Que importa? Com o olhar está falando. Vou responder-lhe. Não; sou muito
ousado; não se dirige a mim: duas estrelas do céu, as mais formosas, tendo tido qualquer ocupação, aos
olhos dela pediram que brilhassem nas esferas, até que elas voltassem. Que se dera se ficassem lá no alto
os olhos dela, e na sua cabeça os dois luzeiros? Suas faces nitentes deixariam corridas as estrelas, como o
dia faz com a luz das candeias, e seus olhos tamanha luz no céu espalhariam, que os pássaros, despertos,
cantariam. Vede como ela apoia o rosto à mão. Ah! se eu fosse uma luva dessa mão, para poder tocar
naquela face!
JULIETA - Ai de mim!
ROMEU - Oh, falou! Fala de novo, anjo brilhante, porque és tão glorioso para esta noite, sobre a minha
fronte, como o emissário alado das alturas ser poderia para os olhos brancos e revirados dos mortais
atônitos, que, para vê-lo, se reviram, quando montado passa nas ociosas nuvens e veleja no seio do ar
sereno.
JULIETA - Romeu, Romeu! Ah! por que és tu Romeu? Renega o pai, despoja-te do nome; ou então, se
não quiseres, jura ao menos que amor me tens, porque uma Capuleto deixarei de ser logo.
ROMEU (à parte) - Continuo ouvindo-a mais um pouco, ou lhe respondo?
JULIETA - Meu inimigo é apenas o teu nome. Continuarias sendo o que és, se acaso Montecchio tu não
fosses. Que é Montecchio? Não será mão, nem pé, nem braço ou rosto, nem parte alguma que pertença
ao corpo. Sê outro nome. Que há num simples nome? O que chamamos rosa, sob uma outra designação
teria igual perfume. Assim Romeu, se não tivesse o nome de Romeu, conservara a tão preciosa perfeição
que dele é sem esse título. Romeu, risca teu nome, e, em troca dele, que não é parte alguma de ti mesmo,
fica comigo inteira.
ROMEU - Sim, aceito tua palavra. Dá-me o nome apenas de amor, que ficarei rebatizado. De agora em
diante não serei Romeu.
JULIETA - Quem és tu que, encoberto pela noite, entras em meu segredo?
ROMEU - Por um nome não sei como dizer-te quem eu seja. Meu nome, cara santa, me é odioso, por ser
teu inimigo; se o tivesse diante de mim, escrito, o rasgaria.
JULIETA - Minhas orelhas ainda não beberam cem palavras sequer de tua boca, mas reconheço o tom.
Não és Romeu, um dos Montecchios?
ROMEU - Não, bela menina; nem um nem outro, se isso te desgosta.
JULIETA - Dize-me como entraste e porque vieste. Muito alto é o muro do jardim, difícil de escalar,
sendo o ponto a própria morte - se quem és atendermos - caso fosses encontrado por um dos meus
parentes.
ROMEU - Do amor as lestes asas me fizeram transvoar o muro, pois barreira alguma conseguirá deter do
amor o curso, tentando o amor tudo o que o amor realiza. Teus parentes, assim, não poderiam desviar-me
do propósito.
JULIETA - No caso de seres visto, poderão matar-te.
ROMEU - Ai! Em teus olhos há maior perigo do que em vinte punhais de teus parentes. Olha-me com
doçura, e é quanto basta para deixar-me à prova do ódio deles.
JULIETA - Por nada deste mundo desejara que fosses visto aqui.
ROMEU - A capa tenho da noite para deles ocultar-me. Basta que me ames, e eles que me vejam! Prefiro
ter cerceada logo a vida pelo ódio deles, a ter morte longa, faltando o teu amor.
JULIETA - Com quem tomaste informações para até aqui chegares?
ROMEU - Com o amor, que a inquirir me deu coragem;. deu-me conselhos e eu lhe emprestei olhos. Não
sou piloto; mas se te encontrasses tão longe quanto a praia mais extensa que o mar longínquo banha,
aventurara-me para obter tão preciosa mercancia.
JULIETA - Sabe-lo bem: a máscara da noite me cobre agora o rosto; do contrário, um rubor virginal me
pintaria, de pronto, as faces, pelo que me ouviste dizer neste momento. Desejara - oh! minto! -
retratar-me do que disse. Mas fora! fora com as formalidades! Amas-me? Sei que vais dizer-me "sim", e
creio no que dizes. Se o jurares, porém, talvez te mostres inconstante, pois dos perjúrios dos amantes,
dizem, Jove sorri. Ó meu gentil Romeu! Se amas, proclama-o com sinceridade; ou se pensas, acaso, que
foi fácil minha conquista, vou tornar-me ríspida, franzir o sobrecenho e dizer "não", porque me faças
novamente a corte. Se não, por nada, nada deste mundo. Belo Montecchio, é certo: estou perdida, louca
de amor; daí poder pensares que meu procedimento é assaz leviano; mas podeis crer-me, cavalheiro, que
hei de mais fiel mostrar-me do que quantas têm bastante astúcia para serem cautas. Poderia ter sido mais
prudente, preciso confessá-lo, se não fosse teres ouvido sem que eu percebesse, minha veraz paixão.
Assim, perdoa-me, não imputando à leviandade, nunca, meu abandono pronto, descoberto tão facilmente
pela noite escura.
ROMEU - Senhora, juro pela santa lua que acairela de prata as belas frondes de todas estas árvores
frutíferas...
JULIETA - Não jures pela lua, essa inconstante, que seu contorno circular altera todos os meses, porque
não pareça que teu amor, também, é assim mudável.
ROMEU - Por que devo jurar?
JULIETA - Não jures nada, ou jura, se o quiseres, por ti mesmo, por tua nobre pessoa, que é o objeto de
minha idolatria. Assim, te creio.
ROMEU - Se o amor sincero deste coração...
JULIETA - Pára! não jures; muito embora sejas toda minha alegria, não me alegra a aliança desta noite;
irrefletida foi por demais, precipitada, súbita, tal qual como o relâmpago que deixa de existir antes que
dizer possamos: Ei-lo! brilhou! Boa noite, meu querido. Que o hálito do estio amadureça este botão de
amor, porque ele possa numa flor transformar-se delicada, quando outra vez nos virmos. Até à vista; boa
noite. Possas ter a mesma calma que neste instante se me apossa da alma.
ROMEU - Vais deixar-me sair mal satisfeito?
JULIETA - Que alegria querias esta noite?
ROMEU - Trocar contigo o voto fiel de amor.
JULIETA - Antes que mo pedisses, já to dera; mas desejara ter de dá-lo ainda.
ROMEU - Desejas retirá-lo? Com que intuito, querido amor?
JULIETA - Porque, mais generosa, de novo to ofertasse. No entretanto, não quero nada, afora o que
possuo. Minha bondade é como o mar: sem fim, e tão funda quanto ele. Posso dar-te sem medida, que
muito mais me sobra: ambos são infinitos.
(A ama chama dentro.)
Ouço bulha dentro de casa. Adeus, amor! Adeus! - Ama, vou já! - Sê fiel, doce Montecchio. Espera um
momentinho; volto logo.
(Retira-se da janela.)
ROMEU - Oh! que noite abençoada! Tenho medo, de um sonho, lisonjeiro em demasia para ser
realidade.
(Julieta torna a aparecer em cima.)
JULIETA - Romeu querido, só três palavrinhas, e boa noite outra vez. Se esse amoroso pendor for sério e
honesto, amanhã cedo me envia uma palavra pelo próprio que eu te mandar: em que lugar e quando
pretendes realizar a cerimônia, que a teus pés deporei minha ventura, para seguir-te pelo mundo todo
como a senhor e esposo.
AMA (dentro) - Senhorita!
JULIETA - Já vou! Já vou! - Porém se não for puro teu pensamento, peço-te...
AMA (dentro) - Menina!
JULIETA - Já vou! Neste momento! - ... que não sigas com tuas insistências e me deixes entregue à
minha dor. Amanhã cedo te mandarei recado por um próprio.
ROMEU - Por minha alma...
JULIETA - Boa noite vezes mil.
(Retira-se.)
ROMEU - Não, má noite, sem tua luz gentil. O amor procura o amor como o estudante que para a escola
corre: num instante. Mas, ao se afastar dele, o amor parece que se transforma em colegial refece.
(Faz menção de retirar-se.)
(Julieta torna a aparecer em cima.)
JULIETA - Psiu! Romeu, psiu! Oh! quem me dera o grito do falcoeiro, porque chamar pudesse esse
nobre gavião! O cativeiro tem voz rouca; não pode falar alto, senão eu forçaria a gruta de Eco, deixando
ainda mais rouca do que a minha sua voz aérea, à força de cem vezes o nome repetir do meu Romeu.
ROMEU - Minha alma é que me chama pelo nome. Que doce som de prata faz a língua dos amantes à
noite, tal qual música langorosa que ouvido atento escuta?
JULIETA - Romeu!
ROMEU - Minha querida?
JULIETA - A que horas, cedo, devo mandar alguém para falar-te?
ROMEU - Às nove horas.
JULIETA - Sem falta. Só parece que até lá são vinte anos. Esqueci-me do que tinha a dizer.
ROMEU - Deixa que eu fique parado aqui, até que te recordes.
JULIETA - Esquecê-lo-ia, só para que sempre ficasses ai parado, recordando-me de como adoro tua
companhia.
ROMEU - E eu ficaria, para que esquecesses, deixando de lembrar-me de outra casa que não fosse esta
aqui.
JULIETA - É quase dia; desejara que já tivesses ido, não mais longe, porém, do que travessa menina
deixa o meigo passarinho, que das mãos ela solta - tal qual pobre prisioneiro na corda bem torcida - para
logo puxá-lo novamente pelo fio de seda, tão ciumenta e amorosa é de sua liberdade.
ROMEU - Quisera ser teu passarinho.
JULIETA - O mesmo, querido, eu desejara; mas de tanto te acariciar, podia, até, matar-te. Adeus;
calca-me a dor com tanto afã, que boa-noite eu diria até amanhã.
ROMEU - Que aos teus olhos o sono baixe e ao peito. Fosse eu o sono e dormisse desse jeito! Vou
procurar meu pai espiritual, para um conselho lhe pedir leal.
(Sai.)
ROMEU - Só ri das cicatrizes quem ferida nunca sofreu no corpo.
(Julieta aparece na janela.)
Mas silêncio! Que luz se escoa agora da janela? Será Julieta o sol daquele oriente? Surge, formoso sol, e
mata a lua cheia de inveja, que se mostra pálida e doente de tristeza, por ter visto que, como serva, és
mais formosa que ela. Deixa, pois, de servi-la; ela é invejosa. Somente os tolos usam sua túnica de vestal,
verde e doente; joga-a fora. Eis minha dama. Oh, sim! é o meu amor. Se ela soubesse disso! Ela fala;
contudo, não diz nada. Que importa? Com o olhar está falando. Vou responder-lhe. Não; sou muito
ousado; não se dirige a mim: duas estrelas do céu, as mais formosas, tendo tido qualquer ocupação, aos
olhos dela pediram que brilhassem nas esferas, até que elas voltassem. Que se dera se ficassem lá no alto
os olhos dela, e na sua cabeça os dois luzeiros? Suas faces nitentes deixariam corridas as estrelas, como o
dia faz com a luz das candeias, e seus olhos tamanha luz no céu espalhariam, que os pássaros, despertos,
cantariam. Vede como ela apoia o rosto à mão. Ah! se eu fosse uma luva dessa mão, para poder tocar
naquela face!
JULIETA - Ai de mim!
ROMEU - Oh, falou! Fala de novo, anjo brilhante, porque és tão glorioso para esta noite, sobre a minha
fronte, como o emissário alado das alturas ser poderia para os olhos brancos e revirados dos mortais
atônitos, que, para vê-lo, se reviram, quando montado passa nas ociosas nuvens e veleja no seio do ar
sereno.
JULIETA - Romeu, Romeu! Ah! por que és tu Romeu? Renega o pai, despoja-te do nome; ou então, se
não quiseres, jura ao menos que amor me tens, porque uma Capuleto deixarei de ser logo.
ROMEU (à parte) - Continuo ouvindo-a mais um pouco, ou lhe respondo?
JULIETA - Meu inimigo é apenas o teu nome. Continuarias sendo o que és, se acaso Montecchio tu não
fosses. Que é Montecchio? Não será mão, nem pé, nem braço ou rosto, nem parte alguma que pertença
ao corpo. Sê outro nome. Que há num simples nome? O que chamamos rosa, sob uma outra designação
teria igual perfume. Assim Romeu, se não tivesse o nome de Romeu, conservara a tão preciosa perfeição
que dele é sem esse título. Romeu, risca teu nome, e, em troca dele, que não é parte alguma de ti mesmo,
fica comigo inteira.
ROMEU - Sim, aceito tua palavra. Dá-me o nome apenas de amor, que ficarei rebatizado. De agora em
diante não serei Romeu.
JULIETA - Quem és tu que, encoberto pela noite, entras em meu segredo?
ROMEU - Por um nome não sei como dizer-te quem eu seja. Meu nome, cara santa, me é odioso, por ser
teu inimigo; se o tivesse diante de mim, escrito, o rasgaria.
JULIETA - Minhas orelhas ainda não beberam cem palavras sequer de tua boca, mas reconheço o tom.
Não és Romeu, um dos Montecchios?
ROMEU - Não, bela menina; nem um nem outro, se isso te desgosta.
JULIETA - Dize-me como entraste e porque vieste. Muito alto é o muro do jardim, difícil de escalar,
sendo o ponto a própria morte - se quem és atendermos - caso fosses encontrado por um dos meus
parentes.
ROMEU - Do amor as lestes asas me fizeram transvoar o muro, pois barreira alguma conseguirá deter do
amor o curso, tentando o amor tudo o que o amor realiza. Teus parentes, assim, não poderiam desviar-me
do propósito.
JULIETA - No caso de seres visto, poderão matar-te.
ROMEU - Ai! Em teus olhos há maior perigo do que em vinte punhais de teus parentes. Olha-me com
doçura, e é quanto basta para deixar-me à prova do ódio deles.
JULIETA - Por nada deste mundo desejara que fosses visto aqui.
ROMEU - A capa tenho da noite para deles ocultar-me. Basta que me ames, e eles que me vejam! Prefiro
ter cerceada logo a vida pelo ódio deles, a ter morte longa, faltando o teu amor.
JULIETA - Com quem tomaste informações para até aqui chegares?
ROMEU - Com o amor, que a inquirir me deu coragem;. deu-me conselhos e eu lhe emprestei olhos. Não
sou piloto; mas se te encontrasses tão longe quanto a praia mais extensa que o mar longínquo banha,
aventurara-me para obter tão preciosa mercancia.
JULIETA - Sabe-lo bem: a máscara da noite me cobre agora o rosto; do contrário, um rubor virginal me
pintaria, de pronto, as faces, pelo que me ouviste dizer neste momento. Desejara - oh! minto! -
retratar-me do que disse. Mas fora! fora com as formalidades! Amas-me? Sei que vais dizer-me "sim", e
creio no que dizes. Se o jurares, porém, talvez te mostres inconstante, pois dos perjúrios dos amantes,
dizem, Jove sorri. Ó meu gentil Romeu! Se amas, proclama-o com sinceridade; ou se pensas, acaso, que
foi fácil minha conquista, vou tornar-me ríspida, franzir o sobrecenho e dizer "não", porque me faças
novamente a corte. Se não, por nada, nada deste mundo. Belo Montecchio, é certo: estou perdida, louca
de amor; daí poder pensares que meu procedimento é assaz leviano; mas podeis crer-me, cavalheiro, que
hei de mais fiel mostrar-me do que quantas têm bastante astúcia para serem cautas. Poderia ter sido mais
prudente, preciso confessá-lo, se não fosse teres ouvido sem que eu percebesse, minha veraz paixão.
Assim, perdoa-me, não imputando à leviandade, nunca, meu abandono pronto, descoberto tão facilmente
pela noite escura.
ROMEU - Senhora, juro pela santa lua que acairela de prata as belas frondes de todas estas árvores
frutíferas...
JULIETA - Não jures pela lua, essa inconstante, que seu contorno circular altera todos os meses, porque
não pareça que teu amor, também, é assim mudável.
ROMEU - Por que devo jurar?
JULIETA - Não jures nada, ou jura, se o quiseres, por ti mesmo, por tua nobre pessoa, que é o objeto de
minha idolatria. Assim, te creio.
ROMEU - Se o amor sincero deste coração...
JULIETA - Pára! não jures; muito embora sejas toda minha alegria, não me alegra a aliança desta noite;
irrefletida foi por demais, precipitada, súbita, tal qual como o relâmpago que deixa de existir antes que
dizer possamos: Ei-lo! brilhou! Boa noite, meu querido. Que o hálito do estio amadureça este botão de
amor, porque ele possa numa flor transformar-se delicada, quando outra vez nos virmos. Até à vista; boa
noite. Possas ter a mesma calma que neste instante se me apossa da alma.
ROMEU - Vais deixar-me sair mal satisfeito?
JULIETA - Que alegria querias esta noite?
ROMEU - Trocar contigo o voto fiel de amor.
JULIETA - Antes que mo pedisses, já to dera; mas desejara ter de dá-lo ainda.
ROMEU - Desejas retirá-lo? Com que intuito, querido amor?
JULIETA - Porque, mais generosa, de novo to ofertasse. No entretanto, não quero nada, afora o que
possuo. Minha bondade é como o mar: sem fim, e tão funda quanto ele. Posso dar-te sem medida, que
muito mais me sobra: ambos são infinitos.
(A ama chama dentro.)
Ouço bulha dentro de casa. Adeus, amor! Adeus! - Ama, vou já! - Sê fiel, doce Montecchio. Espera um
momentinho; volto logo.
(Retira-se da janela.)
ROMEU - Oh! que noite abençoada! Tenho medo, de um sonho, lisonjeiro em demasia para ser
realidade.
(Julieta torna a aparecer em cima.)
JULIETA - Romeu querido, só três palavrinhas, e boa noite outra vez. Se esse amoroso pendor for sério e
honesto, amanhã cedo me envia uma palavra pelo próprio que eu te mandar: em que lugar e quando
pretendes realizar a cerimônia, que a teus pés deporei minha ventura, para seguir-te pelo mundo todo
como a senhor e esposo.
AMA (dentro) - Senhorita!
JULIETA - Já vou! Já vou! - Porém se não for puro teu pensamento, peço-te...
AMA (dentro) - Menina!
JULIETA - Já vou! Neste momento! - ... que não sigas com tuas insistências e me deixes entregue à
minha dor. Amanhã cedo te mandarei recado por um próprio.
ROMEU - Por minha alma...
JULIETA - Boa noite vezes mil.
(Retira-se.)
ROMEU - Não, má noite, sem tua luz gentil. O amor procura o amor como o estudante que para a escola
corre: num instante. Mas, ao se afastar dele, o amor parece que se transforma em colegial refece.
(Faz menção de retirar-se.)
(Julieta torna a aparecer em cima.)
JULIETA - Psiu! Romeu, psiu! Oh! quem me dera o grito do falcoeiro, porque chamar pudesse esse
nobre gavião! O cativeiro tem voz rouca; não pode falar alto, senão eu forçaria a gruta de Eco, deixando
ainda mais rouca do que a minha sua voz aérea, à força de cem vezes o nome repetir do meu Romeu.
ROMEU - Minha alma é que me chama pelo nome. Que doce som de prata faz a língua dos amantes à
noite, tal qual música langorosa que ouvido atento escuta?
JULIETA - Romeu!
ROMEU - Minha querida?
JULIETA - A que horas, cedo, devo mandar alguém para falar-te?
ROMEU - Às nove horas.
JULIETA - Sem falta. Só parece que até lá são vinte anos. Esqueci-me do que tinha a dizer.
ROMEU - Deixa que eu fique parado aqui, até que te recordes.
JULIETA - Esquecê-lo-ia, só para que sempre ficasses ai parado, recordando-me de como adoro tua
companhia.
ROMEU - E eu ficaria, para que esquecesses, deixando de lembrar-me de outra casa que não fosse esta
aqui.
JULIETA - É quase dia; desejara que já tivesses ido, não mais longe, porém, do que travessa menina
deixa o meigo passarinho, que das mãos ela solta - tal qual pobre prisioneiro na corda bem torcida - para
logo puxá-lo novamente pelo fio de seda, tão ciumenta e amorosa é de sua liberdade.
ROMEU - Quisera ser teu passarinho.
JULIETA - O mesmo, querido, eu desejara; mas de tanto te acariciar, podia, até, matar-te. Adeus;
calca-me a dor com tanto afã, que boa-noite eu diria até amanhã.
ROMEU - Que aos teus olhos o sono baixe e ao peito. Fosse eu o sono e dormisse desse jeito! Vou
procurar meu pai espiritual, para um conselho lhe pedir leal.
(Sai.)
ROMEU E JULIETA, ATO II, Cena V
O mesmo. Jardim de Capuleto.
(Entra Julieta.)
JULIETA - Nove horas o relógio tinha soado, quando eu mandei a ama. Prometeu-me que voltaria dentro
de meia hora. Talvez não o encontrasse... Oh! ela é coxa. Como arautos do amor só deveriam servir os
pensamentos, que mais céleres dez vezes são que os raios do sol claro, quando as sombras expulsam das
colinas. É por isso que o amor sempre é levado por alígeras pombas, e Cupido, como o vento veloz, tem
asas lestes. Agora o sol está na altura máxima de seu curso diurno; há das nove horas até às doze três
horas demoradas. No entanto, ela não chega. Se dotada fosse ela de paixões e sangue moço, correria
veloz como uma bala; minhas palavras a teriam feito lançar-se contra o meu amor, e as dele para mim a
jogara. Mas gente velha nunca chega ao porto; é chumbo escuro e lerdo, quase morto.
(Entram a ama e Pedro.) Oh Deus! ei-la, afinal! Que novidades me trouxeste, doce ama? Acaso o viste?
Manda embora teu criado.
AMA - Pedro, espera lá fora.
(Sai Pedro.)
JULIETA - Então, mãezinha? Oh Deus! Por que estás triste? Se forem tristes tuas novidades, conta-as
alegremente; sendo alegres, não estragues a música, tocando-a com uma cara tão tétrica.
AMA - Deixai-me repousar um momento; estou cansada. Como os ossos me doem! Que corrida!
JULIETA - Quisera que tivesses os meus ossos, e eu, tuas novidades. Vamos; peço-te, boa ama: fala
logo.
AMA - Quanta pressa, Jesus! Não podereis esperar nada? Pois então não notais que estou sem fôlego?
JULIETA - Como sem fôlego, se estás com fôlego bastante para me dizer que fôlego não tens para falar?
Esse pretexto de tanta dilação é mais comprido do que a história a que serve de desculpa. Tuas notícias
são ruins ou boas? Responde-me logo isso, que as minúcias escutarei depois, com mais paciência.
Satisfaze-me nisso: más ou boas?
AMA - Bem; fizestes uma escolha muito simples; não sabeis escolher homem. Romeu... Não, ele não!
Conquanto ele tenha o rosto mais bonito do que não importa quem for, suas pernas levam vantagem
sobre as de todos os homens. Quanto às mãos, pés e o corpo, muito embora nada se tenha a dizer, estão
acima de qualquer confronto. Não é a flor da cortesia; mas, posso asseverar-vos, é manso como um
cordeiro. Prossegui nesse caminho, menina e continuai servindo a Deus. Como! já jantaram por aqui?
JULIETA - Não, não; mas isso tudo eu já sabia. E sobre o casamento, que disse ele?
AMA - Oh! que dor de cabeça! Que cabeça, senhor, a minha! Como bate! Creio que estalar vai em vinte
pedacinhos. E, do outro lado, as costas! Oh! as costas! Oh! que esse coração seja punido por me ter feito
procurar a morte, a galopar sem pausa.
JULIETA - Sim, contrista-me saber que não estás bem. Mas, minha doce, doce ama, que te disse meu
amor?
AMA - Vosso amor disse, como cavalheiro honesto e cortês, e bondoso, e belo, e - posso assegurá-lo -
virtuoso... Onde está vossa mãe?
JULIETA - Onde está minha mãe? Está lá dentro. Onde podia estar? Oh! que resposta! "Vosso amor diz,
qual cavalheiro honesto, onde está vossa mãe?"
AMA - Oh Santa Virgem! Por que tamanho ardor? Ide, vos digo; é essa, somente, vossa cataplasma para
meus pobres ossos? De hoje em diante, de vossas comissões cuidai vós mesma.
JULIETA - Quantos rodeios! E Romeu, que disse?
AMA - Podeis ir confessar? Tendes licença?
JULIETA - Tenho.
AMA - Não percais tempo, então, e à cela correi de frei Lourenço, onde um marido achareis que vos vai
deixar mulher. Ora vos sobe ao rosto o sangue lúbrico; a qualquer nova, torna-se escarlate. Correi à
igreja, que a outra parte eu tenho de ir depressa, prover-me de uma escada, para que vosso amor consiga
o ninho do pássaro alcançar, quando for noite. Besta de carga sou de vossa festa, mas a noite um bom
peso vos apresta. Vou jantar. Ide à cela bem contrita.
JULIETA - Adeus, querida; é para minha dita.
(Saem.)
(Entra Julieta.)
JULIETA - Nove horas o relógio tinha soado, quando eu mandei a ama. Prometeu-me que voltaria dentro
de meia hora. Talvez não o encontrasse... Oh! ela é coxa. Como arautos do amor só deveriam servir os
pensamentos, que mais céleres dez vezes são que os raios do sol claro, quando as sombras expulsam das
colinas. É por isso que o amor sempre é levado por alígeras pombas, e Cupido, como o vento veloz, tem
asas lestes. Agora o sol está na altura máxima de seu curso diurno; há das nove horas até às doze três
horas demoradas. No entanto, ela não chega. Se dotada fosse ela de paixões e sangue moço, correria
veloz como uma bala; minhas palavras a teriam feito lançar-se contra o meu amor, e as dele para mim a
jogara. Mas gente velha nunca chega ao porto; é chumbo escuro e lerdo, quase morto.
(Entram a ama e Pedro.) Oh Deus! ei-la, afinal! Que novidades me trouxeste, doce ama? Acaso o viste?
Manda embora teu criado.
AMA - Pedro, espera lá fora.
(Sai Pedro.)
JULIETA - Então, mãezinha? Oh Deus! Por que estás triste? Se forem tristes tuas novidades, conta-as
alegremente; sendo alegres, não estragues a música, tocando-a com uma cara tão tétrica.
AMA - Deixai-me repousar um momento; estou cansada. Como os ossos me doem! Que corrida!
JULIETA - Quisera que tivesses os meus ossos, e eu, tuas novidades. Vamos; peço-te, boa ama: fala
logo.
AMA - Quanta pressa, Jesus! Não podereis esperar nada? Pois então não notais que estou sem fôlego?
JULIETA - Como sem fôlego, se estás com fôlego bastante para me dizer que fôlego não tens para falar?
Esse pretexto de tanta dilação é mais comprido do que a história a que serve de desculpa. Tuas notícias
são ruins ou boas? Responde-me logo isso, que as minúcias escutarei depois, com mais paciência.
Satisfaze-me nisso: más ou boas?
AMA - Bem; fizestes uma escolha muito simples; não sabeis escolher homem. Romeu... Não, ele não!
Conquanto ele tenha o rosto mais bonito do que não importa quem for, suas pernas levam vantagem
sobre as de todos os homens. Quanto às mãos, pés e o corpo, muito embora nada se tenha a dizer, estão
acima de qualquer confronto. Não é a flor da cortesia; mas, posso asseverar-vos, é manso como um
cordeiro. Prossegui nesse caminho, menina e continuai servindo a Deus. Como! já jantaram por aqui?
JULIETA - Não, não; mas isso tudo eu já sabia. E sobre o casamento, que disse ele?
AMA - Oh! que dor de cabeça! Que cabeça, senhor, a minha! Como bate! Creio que estalar vai em vinte
pedacinhos. E, do outro lado, as costas! Oh! as costas! Oh! que esse coração seja punido por me ter feito
procurar a morte, a galopar sem pausa.
JULIETA - Sim, contrista-me saber que não estás bem. Mas, minha doce, doce ama, que te disse meu
amor?
AMA - Vosso amor disse, como cavalheiro honesto e cortês, e bondoso, e belo, e - posso assegurá-lo -
virtuoso... Onde está vossa mãe?
JULIETA - Onde está minha mãe? Está lá dentro. Onde podia estar? Oh! que resposta! "Vosso amor diz,
qual cavalheiro honesto, onde está vossa mãe?"
AMA - Oh Santa Virgem! Por que tamanho ardor? Ide, vos digo; é essa, somente, vossa cataplasma para
meus pobres ossos? De hoje em diante, de vossas comissões cuidai vós mesma.
JULIETA - Quantos rodeios! E Romeu, que disse?
AMA - Podeis ir confessar? Tendes licença?
JULIETA - Tenho.
AMA - Não percais tempo, então, e à cela correi de frei Lourenço, onde um marido achareis que vos vai
deixar mulher. Ora vos sobe ao rosto o sangue lúbrico; a qualquer nova, torna-se escarlate. Correi à
igreja, que a outra parte eu tenho de ir depressa, prover-me de uma escada, para que vosso amor consiga
o ninho do pássaro alcançar, quando for noite. Besta de carga sou de vossa festa, mas a noite um bom
peso vos apresta. Vou jantar. Ide à cela bem contrita.
JULIETA - Adeus, querida; é para minha dita.
(Saem.)
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