MACBETH,William Shakespeare, ATO III, Cena II
O mesmo
Outro quarto no palácio
Entram Lady Macbeth e um criado
LADY MACBETH - Banquo deixou o pátio?
CRIADO - Deixou, senhora; mas retorna à noite.
LADY MACBETH - Vai, dize ao rei que eu quero ter com ele uma conversa rápida.
CRIADO - Isso mesmo, senhora, lhe direi.
(Sai.)
LADY MACBETH - Tudo é perdido, quando o desejo fica repartido toca ao morto decerto melhor sorte que a de alegrar-se assim quem lhe deu morte(Entra Macbeth.) Então, marido, por que só ficardes,
tendo por companhia as fantasias mais desconsoladoras e ocupando-vos com pensamentos que já deveriam ter morrido com quem se relacionam? O que não tem remédio, não devera ser pensado sequer.
O que está feito, não está por fazer.
MACBETH - Nós só talhamos a serpe, sem matá-la; Em pouco tempo se refará e volta a ser o que era,ficando o nosso miserável ódio de novo exposto ao seu antigo dente; Que a estalar venham todas as
junturas das coisas e a gemer ambos os mundos, antes de termos de tomar os nossos alimentos com medo e de dormirmos na aflição desses sonhos pavorosos que nos têm abalado as noites todas; Muito melhor nos fora estar com o morto que, para nossa própria paz, mandamos para o seio da paz, do que vivermos no banco de tormento de nossa alma, numa angústia sem fim; Duncan descansa no sepulcro; tranqüilo dorme, agora, depois das convulsões febris da vida; A traição lhe fez tudo o que podia; a perfídia
doméstica, o veneno, o aço, a invasão de fora, nada pode, doravante, atingi-lo.
LADY MACBETH - Caro esposo, saiamos; Alisai esse olhar crespo; sede claro e jovial com todos hoje.
MACBETH - Sê-lo-ei, amor; o mesmo vos desejo; A Banquo dedicai todas as vossas atenções,
distinguindo-o dentre todos com palavras e olhares; Pouco firme é nossa situação, enquanto for preciso lavar nossas honras nessa corrente aduladora e as feições empregarmos como máscara do coração, que os traços lhe disfarce.
LADY MACBETH - Precisais deixar isso.
MACBETH - Oh! tenho o espírito cheio de escorpiões, querida esposa! Sabeis que vivem Banquo e seu
Fleance.
LADY MACBETH - Mas eterna não é neles a cópia da natureza.
MACBETH - É o que consola a gente; são vulneráveis; Fica, pois, alegre antes de completar o vôo em torno do convento o morcego e Hécate negra ter ordenado que o besouro córneo com seu zumbido surdo dê o toque sonolento da noite, será feito algo aqui de memória pavorosa.
LADY MACBETH - O que é que vai ser feito?
MACBETH - Não macules tua inocência com saberes isso, minha pombinha, até saudares o ato; Vem, noite cega, tapa os olhos ternos do dia compassivo, e com sangrentas mãos e invisíveis rasga o grande pacto que me deixa tão pálido! Escurece; para a mata sombria voa a gralha; Vacila o claro agente, de fraqueza; mas a noite se atira para a presa; Admiras-te; mas fica sossegada, que o mal reforça a ação mal começada. Por favor, acompanha-me.
(Saem.)
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ROMEU E JULIETA, ATO III, Cena I
Verona. Uma praça pública. Entram Mercúcio, Benvólio, pajem e criados.
BENVÓLIO - Peço-te, bom Mercúcio: retiremo-nos. Quente está o dia; os Capuletos andam pela cidade.
Caso os encontremos, não poderemos evitar contendas. O sangue ferve nestes dias quentes.
MERCÚCIO - Tu te assemelhas a esses tipos que, mal entram numa taberna, batem com a espada em
cima da mesa e gritam: "Queira Deus que eu não venha a ter necessidade de ti!" e que após o efeito do
segundo copo, sacam-na contra o taberneiro sem a menor necessidade.
BENVÓLIO - Serei, acaso, um tipo desse gênero?
MERCÚCIO - Vamos, vamos; és tão esquentado como quem mais o for em toda a Itália; muito
prontamente raivoso para ser arrebatado.
BENVÓLIO - E a propósito de quê?
MERCÚCIO - Se houvesse mais outro tipo como tu, dentro de pouco tempo não existiria nenhum,
porque vos mataríeis mutuamente. És capaz de brigar com um homem por que tem um fio a mais ou a
menos na barba do que tu; brigarás com quem estiver quebrando nozes, sem outro motivo além do de
teres os olhos cor de nozes. Que olhos, a não serem esses mesmos, seriam capazes de descobrir
semelhante briga? Tua cabeça é tão cheia de rixas como de alimento o ovo, se bem que, por causa de
brigas, tenha sido batida tantas vezes como clara de ovo. Já brigaste com um homem que tossiu na rua e
despertou o teu cão, que dormia ao sol. Pois não tiveste uma rixa com um alfaiate, só por ter ele vestido
um casaco novo, antes da Páscoa? E com outro, por ter amarrado os sapatos novos com cordões usados?
Sendo, pois, o que és, pretendes dar-me lições de prudência?
BENVÓLIO - Se eu fosse tão briguento como tu, ninguém compraria os bens alodiais de minha vida,
simplesmente por uma hora e um quarto.
MERCÚCIO - Simplesmente? Que simplicidade!
BENVÓLIO - Por minha cabeça, ai vem vindo um Capuleto.
MERCÚCIO - Por meu pé, a mim isso pouco importa.
(Entram Tebaldo e outros.)
TEBALDO - Ficai perto de mim, pois vou falar-lhe. Cavalheiros, bom dia; uma palavra com qualquer
um de vós.
MERCÚCIO - Só uma palavra com um de nós? Acrescentai mais alguma coisa; que seja uma palavra e
uma estocada.
TEBALDO - Haveis de encontrar-me disposto para isso, quando me fornecerdes oportunidade.
MERCÚCIO - Não achais oportunidade, sem que vo-la ofereçam?
TEBALDO - Mercúcio, tu estás concertado com Romeu...
MERCÚCIO - Concertado? Como! Tomas-nos por músicos? Se nos tomares por músicos, prepara-te
para ouvir só desarmonias. Aqui está o arco da minha rabeca, que vos fará dançar. A-la-fé! Concertado!
BENVÓLIO - Estamos conversando numa praça bastante freqüentada. Retiremo-nos para algum ponto à
parte ou ide embora, que sobre nós os olhos estão fixos.
MERCÚCIO - Para ver é que os olhos foram feitos. Que nos vejam. Daqui não dou um passo.
(Entra Romeu.)
TEBALDO - Ficai em paz, senhores; eis meu homem.
MERCÚCIO - Que me enforquem se ele usa vossa farda. Para o campo segui, que ele irá junto. Nesse
sentido, é certo: ele é vosso homem.
TEBALDO - O ódio, Romeu, que me despertas, sabe dizer-te apenas isto: és um vilão.
ROMEU - A razão de te amar, que eu tenho agora, Tebaldo, escusa à saciedade a raiva de uma tal
saudação. Não sou o que dizes. Adeus; bem vejo que não me conheces.
TEBALDO - Isso, rapaz, não basta como escusa para quantas injúrias me tens feito. Faze, pois,
meia-volta e arranca a espada.
ROMEU - Protesto que jamais te fiz injúria. Tenho-te mais amor do que imaginas, até que saibas o
motivo disso. Assim, bom Capuleto - oh nome caro! tão caro quanto o meu - fica contente.
MERCÚCIO - Oh calma submissão, vil e insultuosa! Alla stoccata! Decidamos logo.
(Saca da espada.)
Tebaldo, caçador de rato, queres dar voltazinhas?
TEBALDO - Que desejas?
MERCÚCIO - Nada mais, meu bom rei dos gatos, além de uma das vossas nove vidas, que tomarei a
liberdade de tirar, deixando as outras oito para malhar depois, conforme o tratamento que me derdes. Não
vos resolveis a puxar vossa espada pela orelha e tirá-la da bainha? Mas ponde pressa nisso, para que a
minha não vos atinja as orelhas antes de ficar de fora a vossa.
TEBALDO - (sacando da espada) - Estou ao vosso dispor.
ROMEU - Gentil Mercúcio, guarda a espada.
MERCÚCIO - Vamos, senhor; vosso passado.
(Batem-se.)
ROMEU - Benvólio, saca a espada; desarmemo-los. Cavalheiros, que opróbrio! Evitai isso. Oh
Mercúcio! Tebaldo! O príncipe proibiu expressamente essas brigas nas ruas de Verona. Tebaldo! Bom
Mercúcio!
(Sai Tebaldo com seus partidários.)
MERCÚCIO - Estou ferido. A peste caia em vossas casas. Morto! E ele não teve nada? Foi embora?
BENVÓLIO - Como! Foste ferido?
MERCÚCIO - Um arranhão, um arranhão somente; mas já chega. Que leve a breca! E o pajem, onde se
acha? Patife, vai buscar um cirurgião.
(Sai o pajem.)
ROMEU - Coragem, homem! O ferimento não deve ser profundo.
MERCÚCIO- Não; não é tão fundo quanto um poço, nem tão largo quanto porta de igreja. Mas é o
suficiente e quanto basta. Perguntai por mim amanhã, que haveis de encontrar-me bem quieto. Para este
mundo já estou salgado, posso afiançar-vos! Um cão, um rato, um camundongo, um pulha, um biltre, que
briga segundo as regras da aritmética! Por que diabo vos metestes entre nós? Fui ferido por baixo de
vosso braço.
ROMEU - Eu estava bem-intencionado.
MERCÚCIO - Conduze-me, Benvólio, a alguma casa; senão, desmaio. A peste em vossas casas! De mim
fizeram pasto para os vermes. Já tenho a minha parte. Vossas casas!
(Saem Mercúcio e Benvólio.)
ROMEU - Este fidalgo, próximo parente do príncipe, sincero amigo meu, por mim, tão-só, ferido foi de
morte. Minha reputação está manchada com o insulto de Tebaldo, esse Tebaldo que meu parente foi
durante uma hora. Doce Julieta! Tua formosura fez de mim um maricas; a coragem do aço se abranda e
verga no meu peito.
(Volta Benvólio.)
BENVÓLIO - Romeu, Romeu, o bom Mercúcio é morto! Foi para as nuvens esse bravo espírito que
desprezou tão cedo o pó terreno.
ROMEU - Hoje o fado somente dá o rebate para que o tempo as dores arremate.
(Volta Tebaldo.)
BENVÓLIO - O furioso Tebaldo está de volta.
ROMEU - Vivo! Em triunfo! E morto o bom Mercúcio? Vai para o céu, brandura respeitosa! Fúria de
olhar de fogo, sê meu guia! Tebaldo, ora recebe de retorno o "vilão" que me deste não faz muito, pois a
alma de Mercúcio ainda se encontra perto de nossas fontes, aguardando que a tua vá fazer-lhe
companhia. Um de nós dois terá, pois, de ir com ele.
TEBALDO - Pobre rapaz, que estavas de seu lado, és tu que vais partir.
ROMEU - Pois decidamos.
(Batem-se; Tebaldo cai.)
BENVÓLIO - Romeu, foge depressa! Os cidadãos se amotinaram. Morto está Tebaldo. Não fiques
aturdido, pois o príncipe vai condenar-te à morte, se encontrado fores aqui. Despacha-te depressa!
ROMEU - Sou o bobo da fortuna.
BENVÓLIO - Foge! Ora essa!
(Sai Romeu.)
PRIMEIRO CIDADÃO - Para onde foi o que matou Mercúcio? O assassino, Tebaldo, onde se encontra?
BENVÓLIO - Tebaldo? Aqui.
PRIMEIRO CIDADÃO - Em nome, então, do príncipe, vos intimo, senhor; vinde comigo.
(Entra o príncipe, com séqüito; Montecchio, Capuleto, suas esposas e outras pessoas.) PRÍNCIPE -
Quem desafiou, assim, o meu castigo?
BENVÓLIO - Dizer-te posso, ó príncipe, a maneira por que teve começo esta cegueira. Pelo jovem
Romeu ali se encontra morto o homem que matou o teu parente, nosso bravo Mercúcio.
SENHORA CAPULETO - Como! O primo Tebaldo? O filho do meu caro irmão? Primo, marido,
príncipe, no chão vejo o sangue correr de um meu parente. Se veraz fores, príncipe, realmente, sangue
desses Montecchios há de, agora, ser também derramado, sem demora. Oh primo! primo!
PRÍNCIPE - Quem deu começo à luta dolorida?
BENVÓLIO - Tebaldo, que Romeu deixou sem vida; Romeu, que lhe falou com termos brandos, com ele
instando para que pensasse na ausência de motivo da querela, tendo invocado, até, vosso desgosto, tudo
isso com voz doce, olhar tranqüilo e ademanes corteses, sem que tréguas conseguisse alcançar da grande
cólera do furioso Tebaldo, que com aço pontiagudo visava uma e mais vezes o peito de Mercúcio
valoroso. Este, só chamas, ponta opõe a ponta; com desprezo marcial, a fria morte faz afastar com uma
das mãos, ao tempo em que com a outra a devolvia célere ao peito de Tebaldo que, habilmente, de
retorno lha enviava. Em altas vozes Romeu gritava: "Amigos, separai-vos !" E mais rápido, ainda, que
sua língua, seu ágil braço desviava as pontas, entre ambos se interpondo. Mas por baixo do braço dele
um golpe malfadado de Tebaldo a existência atinge em cheio do valente Mercúcio. Então Tebaldo se põe
em fuga, mas retorna logo para Romeu, que, nesse instante, havia concebido a vingança. Mais velozes
que o raio se engalfinham e, assim, antes de eu poder separá-los, cai sem vida o valente Tebaldo, a cuja
vista Romeu fugiu. Se nisto houver maldade, vivo Benvólio prosseguir não há de.
SENHORA CAPULETO - Parente é dos Montecchios; bom serviço presta aos seus com mentir-vos em
tudo isso. Foi de vinte, no mínimo, a sortida, para tirar apenas uma vida. Justiça, príncipe! e que seja
breve: Romeu matou Tebaldo; morrer deve.
PRÍNCIPE - Matou quem a Mercúcio antes matara. Quem paga o preço dessa vida cara?
MONTECCHIO - Príncipe, não Romeu; ele era amigo de Mercúcio; só fez dar o castigo que a própria lei
impunha: incontinenti dando a morte a Tebaldo imprevidente.
PRINCIPE - Por essa transgressão de nosso edito ficará de Verona já proscrito. Vosso ódio atinge a mim,
também, de perto; sangra-me o coração por ele aberto. Mas hei de vos impor a. pena dura que minha dor
desde hoje vos augura. Surdo serei a escusas e pedidos; nem lágrimas nem preces os ouvidos poderão
abalar-me. Assim, com pressa fazei Romeu partir; ordem é expressa. Porque se acaso nisso houver
demora, ouvido ele terá sua última hora. Levai o corpo. O excesso de demência causa mortes também,
por imprudência.
(Saem.)
BENVÓLIO - Peço-te, bom Mercúcio: retiremo-nos. Quente está o dia; os Capuletos andam pela cidade.
Caso os encontremos, não poderemos evitar contendas. O sangue ferve nestes dias quentes.
MERCÚCIO - Tu te assemelhas a esses tipos que, mal entram numa taberna, batem com a espada em
cima da mesa e gritam: "Queira Deus que eu não venha a ter necessidade de ti!" e que após o efeito do
segundo copo, sacam-na contra o taberneiro sem a menor necessidade.
BENVÓLIO - Serei, acaso, um tipo desse gênero?
MERCÚCIO - Vamos, vamos; és tão esquentado como quem mais o for em toda a Itália; muito
prontamente raivoso para ser arrebatado.
BENVÓLIO - E a propósito de quê?
MERCÚCIO - Se houvesse mais outro tipo como tu, dentro de pouco tempo não existiria nenhum,
porque vos mataríeis mutuamente. És capaz de brigar com um homem por que tem um fio a mais ou a
menos na barba do que tu; brigarás com quem estiver quebrando nozes, sem outro motivo além do de
teres os olhos cor de nozes. Que olhos, a não serem esses mesmos, seriam capazes de descobrir
semelhante briga? Tua cabeça é tão cheia de rixas como de alimento o ovo, se bem que, por causa de
brigas, tenha sido batida tantas vezes como clara de ovo. Já brigaste com um homem que tossiu na rua e
despertou o teu cão, que dormia ao sol. Pois não tiveste uma rixa com um alfaiate, só por ter ele vestido
um casaco novo, antes da Páscoa? E com outro, por ter amarrado os sapatos novos com cordões usados?
Sendo, pois, o que és, pretendes dar-me lições de prudência?
BENVÓLIO - Se eu fosse tão briguento como tu, ninguém compraria os bens alodiais de minha vida,
simplesmente por uma hora e um quarto.
MERCÚCIO - Simplesmente? Que simplicidade!
BENVÓLIO - Por minha cabeça, ai vem vindo um Capuleto.
MERCÚCIO - Por meu pé, a mim isso pouco importa.
(Entram Tebaldo e outros.)
TEBALDO - Ficai perto de mim, pois vou falar-lhe. Cavalheiros, bom dia; uma palavra com qualquer
um de vós.
MERCÚCIO - Só uma palavra com um de nós? Acrescentai mais alguma coisa; que seja uma palavra e
uma estocada.
TEBALDO - Haveis de encontrar-me disposto para isso, quando me fornecerdes oportunidade.
MERCÚCIO - Não achais oportunidade, sem que vo-la ofereçam?
TEBALDO - Mercúcio, tu estás concertado com Romeu...
MERCÚCIO - Concertado? Como! Tomas-nos por músicos? Se nos tomares por músicos, prepara-te
para ouvir só desarmonias. Aqui está o arco da minha rabeca, que vos fará dançar. A-la-fé! Concertado!
BENVÓLIO - Estamos conversando numa praça bastante freqüentada. Retiremo-nos para algum ponto à
parte ou ide embora, que sobre nós os olhos estão fixos.
MERCÚCIO - Para ver é que os olhos foram feitos. Que nos vejam. Daqui não dou um passo.
(Entra Romeu.)
TEBALDO - Ficai em paz, senhores; eis meu homem.
MERCÚCIO - Que me enforquem se ele usa vossa farda. Para o campo segui, que ele irá junto. Nesse
sentido, é certo: ele é vosso homem.
TEBALDO - O ódio, Romeu, que me despertas, sabe dizer-te apenas isto: és um vilão.
ROMEU - A razão de te amar, que eu tenho agora, Tebaldo, escusa à saciedade a raiva de uma tal
saudação. Não sou o que dizes. Adeus; bem vejo que não me conheces.
TEBALDO - Isso, rapaz, não basta como escusa para quantas injúrias me tens feito. Faze, pois,
meia-volta e arranca a espada.
ROMEU - Protesto que jamais te fiz injúria. Tenho-te mais amor do que imaginas, até que saibas o
motivo disso. Assim, bom Capuleto - oh nome caro! tão caro quanto o meu - fica contente.
MERCÚCIO - Oh calma submissão, vil e insultuosa! Alla stoccata! Decidamos logo.
(Saca da espada.)
Tebaldo, caçador de rato, queres dar voltazinhas?
TEBALDO - Que desejas?
MERCÚCIO - Nada mais, meu bom rei dos gatos, além de uma das vossas nove vidas, que tomarei a
liberdade de tirar, deixando as outras oito para malhar depois, conforme o tratamento que me derdes. Não
vos resolveis a puxar vossa espada pela orelha e tirá-la da bainha? Mas ponde pressa nisso, para que a
minha não vos atinja as orelhas antes de ficar de fora a vossa.
TEBALDO - (sacando da espada) - Estou ao vosso dispor.
ROMEU - Gentil Mercúcio, guarda a espada.
MERCÚCIO - Vamos, senhor; vosso passado.
(Batem-se.)
ROMEU - Benvólio, saca a espada; desarmemo-los. Cavalheiros, que opróbrio! Evitai isso. Oh
Mercúcio! Tebaldo! O príncipe proibiu expressamente essas brigas nas ruas de Verona. Tebaldo! Bom
Mercúcio!
(Sai Tebaldo com seus partidários.)
MERCÚCIO - Estou ferido. A peste caia em vossas casas. Morto! E ele não teve nada? Foi embora?
BENVÓLIO - Como! Foste ferido?
MERCÚCIO - Um arranhão, um arranhão somente; mas já chega. Que leve a breca! E o pajem, onde se
acha? Patife, vai buscar um cirurgião.
(Sai o pajem.)
ROMEU - Coragem, homem! O ferimento não deve ser profundo.
MERCÚCIO- Não; não é tão fundo quanto um poço, nem tão largo quanto porta de igreja. Mas é o
suficiente e quanto basta. Perguntai por mim amanhã, que haveis de encontrar-me bem quieto. Para este
mundo já estou salgado, posso afiançar-vos! Um cão, um rato, um camundongo, um pulha, um biltre, que
briga segundo as regras da aritmética! Por que diabo vos metestes entre nós? Fui ferido por baixo de
vosso braço.
ROMEU - Eu estava bem-intencionado.
MERCÚCIO - Conduze-me, Benvólio, a alguma casa; senão, desmaio. A peste em vossas casas! De mim
fizeram pasto para os vermes. Já tenho a minha parte. Vossas casas!
(Saem Mercúcio e Benvólio.)
ROMEU - Este fidalgo, próximo parente do príncipe, sincero amigo meu, por mim, tão-só, ferido foi de
morte. Minha reputação está manchada com o insulto de Tebaldo, esse Tebaldo que meu parente foi
durante uma hora. Doce Julieta! Tua formosura fez de mim um maricas; a coragem do aço se abranda e
verga no meu peito.
(Volta Benvólio.)
BENVÓLIO - Romeu, Romeu, o bom Mercúcio é morto! Foi para as nuvens esse bravo espírito que
desprezou tão cedo o pó terreno.
ROMEU - Hoje o fado somente dá o rebate para que o tempo as dores arremate.
(Volta Tebaldo.)
BENVÓLIO - O furioso Tebaldo está de volta.
ROMEU - Vivo! Em triunfo! E morto o bom Mercúcio? Vai para o céu, brandura respeitosa! Fúria de
olhar de fogo, sê meu guia! Tebaldo, ora recebe de retorno o "vilão" que me deste não faz muito, pois a
alma de Mercúcio ainda se encontra perto de nossas fontes, aguardando que a tua vá fazer-lhe
companhia. Um de nós dois terá, pois, de ir com ele.
TEBALDO - Pobre rapaz, que estavas de seu lado, és tu que vais partir.
ROMEU - Pois decidamos.
(Batem-se; Tebaldo cai.)
BENVÓLIO - Romeu, foge depressa! Os cidadãos se amotinaram. Morto está Tebaldo. Não fiques
aturdido, pois o príncipe vai condenar-te à morte, se encontrado fores aqui. Despacha-te depressa!
ROMEU - Sou o bobo da fortuna.
BENVÓLIO - Foge! Ora essa!
(Sai Romeu.)
PRIMEIRO CIDADÃO - Para onde foi o que matou Mercúcio? O assassino, Tebaldo, onde se encontra?
BENVÓLIO - Tebaldo? Aqui.
PRIMEIRO CIDADÃO - Em nome, então, do príncipe, vos intimo, senhor; vinde comigo.
(Entra o príncipe, com séqüito; Montecchio, Capuleto, suas esposas e outras pessoas.) PRÍNCIPE -
Quem desafiou, assim, o meu castigo?
BENVÓLIO - Dizer-te posso, ó príncipe, a maneira por que teve começo esta cegueira. Pelo jovem
Romeu ali se encontra morto o homem que matou o teu parente, nosso bravo Mercúcio.
SENHORA CAPULETO - Como! O primo Tebaldo? O filho do meu caro irmão? Primo, marido,
príncipe, no chão vejo o sangue correr de um meu parente. Se veraz fores, príncipe, realmente, sangue
desses Montecchios há de, agora, ser também derramado, sem demora. Oh primo! primo!
PRÍNCIPE - Quem deu começo à luta dolorida?
BENVÓLIO - Tebaldo, que Romeu deixou sem vida; Romeu, que lhe falou com termos brandos, com ele
instando para que pensasse na ausência de motivo da querela, tendo invocado, até, vosso desgosto, tudo
isso com voz doce, olhar tranqüilo e ademanes corteses, sem que tréguas conseguisse alcançar da grande
cólera do furioso Tebaldo, que com aço pontiagudo visava uma e mais vezes o peito de Mercúcio
valoroso. Este, só chamas, ponta opõe a ponta; com desprezo marcial, a fria morte faz afastar com uma
das mãos, ao tempo em que com a outra a devolvia célere ao peito de Tebaldo que, habilmente, de
retorno lha enviava. Em altas vozes Romeu gritava: "Amigos, separai-vos !" E mais rápido, ainda, que
sua língua, seu ágil braço desviava as pontas, entre ambos se interpondo. Mas por baixo do braço dele
um golpe malfadado de Tebaldo a existência atinge em cheio do valente Mercúcio. Então Tebaldo se põe
em fuga, mas retorna logo para Romeu, que, nesse instante, havia concebido a vingança. Mais velozes
que o raio se engalfinham e, assim, antes de eu poder separá-los, cai sem vida o valente Tebaldo, a cuja
vista Romeu fugiu. Se nisto houver maldade, vivo Benvólio prosseguir não há de.
SENHORA CAPULETO - Parente é dos Montecchios; bom serviço presta aos seus com mentir-vos em
tudo isso. Foi de vinte, no mínimo, a sortida, para tirar apenas uma vida. Justiça, príncipe! e que seja
breve: Romeu matou Tebaldo; morrer deve.
PRÍNCIPE - Matou quem a Mercúcio antes matara. Quem paga o preço dessa vida cara?
MONTECCHIO - Príncipe, não Romeu; ele era amigo de Mercúcio; só fez dar o castigo que a própria lei
impunha: incontinenti dando a morte a Tebaldo imprevidente.
PRINCIPE - Por essa transgressão de nosso edito ficará de Verona já proscrito. Vosso ódio atinge a mim,
também, de perto; sangra-me o coração por ele aberto. Mas hei de vos impor a. pena dura que minha dor
desde hoje vos augura. Surdo serei a escusas e pedidos; nem lágrimas nem preces os ouvidos poderão
abalar-me. Assim, com pressa fazei Romeu partir; ordem é expressa. Porque se acaso nisso houver
demora, ouvido ele terá sua última hora. Levai o corpo. O excesso de demência causa mortes também,
por imprudência.
(Saem.)
ROMEU E JULIETA, ATO V, Cena I
Mântua. Uma rua. Entra Romeu.
ROMEU - Se eu tiver de dar crédito à verdade do sono aduladora, os sonhos dizem-me que está iminente
alguma alegre nova. Em seu trono sentado está de leve o senhor do meu peito, e o dia todo com risonhas
imagens um espírito desconhecido me ergue do chão duro. Sonhei que meu amor tinha chegado e me
encontrara morto. Estranho sonho, que não destrói no morto o pensamento! E com beijos tal vida me
insuflava que eu revivi e imperador tornei-me. Quão doce deve ser o amor possuído, se assim tão
venturoso é sua sombra!
(Entra Baltasar, de botas.)
Notícias de Verona! Que acontece, Baltasar? Frei Lourenço mandou carta? E meu pai, está bem? Minha
Julieta, como a deixaste? Torno a perguntar-te, nada irá mal, se bem ela estiver.
BALTASAR - Então ela está bem; nada está mal. Seu corpo está dormindo no sepulcro dos Capuletos e a
imortal essência vive agora entre os anjos. Vi quando ela foi deposta na tumba da família. Perdoai-me
por trazer-vos tais notícias; mas destes-me, senhor, essa incumbência.
ROMEU - É assim? Então, estrelas, desafio-vos! Sabes bem onde eu moro; vai buscar-me papel e tinta e
aluga-me uns cavalos. Partirei esta noite.
BALTASAR - Revesti-vos de paciência, senhor, vos peço; tendes pálidas as feições e desvairadas,
pressagiando desgraça.
ROMEU - Não; enganas-te. Vai logo e faze o que te disse há pouco. Não me mandou o monge alguma
carta?
BALTASAR - Nenhuma, bom senhor.
ROMEU - Bem; não importa. Vai tratar logo de alugar cavalos; irei já para casa.
(Sai Baltasar.)
Bem, Julieta; deitar-me-ei ao teu lado ainda esta noite. Procuremos os meios... Ó desgraça! como
rapidamente te intrometes nos pensamentos dos desesperados! Lembro-me de ter visto um boticário -
mora aqui perto - não faz muito tempo, maltrapilho, de cenho carregado, a separar suas ervas. Rosto
esquálido, tinha-o roído até aos ossos a miséria. Pendida via-se uma tartaruga em sua pobre loja, um
crocodilo morto e empalhado, e muitas outras peles de peixes desconformes; pelas sujas prateleiras, uns
montes miseráveis de caixinhas vazias, potes verdes, bexigas e sementes bolorentas, restos de fios,
velhos pães de rosas, magramente espalhados para efeito. Vendo tanta miséria, a sós comigo observei
que se alguém necessitasse algum dia veneno que, sob pena de morte agora não se vende em Mântua, ali
vivia um desgraçado escravo que decerto o vendera. Oh! essa idéia veio muito antes da necessidade. Esse
coitado vai vender-me a droga. Se não me engano, a casa é aqui defronte. Sendo feriado, a loja está
fechada. Olá! oh!... Boticário!
(Entra o boticário.)
BOTICÁRIO - Quem me chama com tanta força?
ROMEU - Vem aqui, amigo. Vejo que és pobre; toma estes quarenta ducados, mas arranja-me uma
dracma de veneno, mas droga tão violenta que tão veloz se espalhe pelas veias, que a pessoa cansada
desta vida, bebendo-a, caia morta, e que do corpo o fôlego se aparte tão depressa como pólvora acesa, ao
desprender-se do fatal ventre do canhão medonho.
BOTICÁRIO - Possuo esse veneno perigoso; porém as leis de Mântua morte certa cominam para quantos
o venderem.
ROMEU - És tão nu e tão cheio de misérias, e a morte ainda receias? Tens a fome nas faces; as angústias
e o infortúnio de fome em teu olhar estão morrendo; do dorso pendem-te a miséria e a ofensa. Não se te
mostra amigo o mundo e, menos ainda, a lei do mundo. Em todo o mundo não há uma lei para deixar-te
rico. Não sejas pobre, então; passa por cima da lei e toma isto.
BOTICÁRIO - Aceita a minha pobreza o que me dás, não a vontade.
ROMEU - Não a vontade, pago-te a pobreza.
BOTICÁRIO - Ponde isto em qualquer líquido; tomando-o, embora a resistência possuirdes de vinte
homens, caireis de pronto morto.
ROMEU - Eis teu ouro, veneno mais nocivo para as almas dos homens, que mais crimes tem cometido
neste mundo sujo, do que essas pobres drogas misturadas que não podes vender. Dei-te veneno; não tu a
mim. Adeus. Compra alimento e engorda um pouco mais. Vamos, cordial, não veneno. Ao sepulcro vem
comigo de Julieta, mostrar que és meu amigo.
(Saem.)
ROMEU - Se eu tiver de dar crédito à verdade do sono aduladora, os sonhos dizem-me que está iminente
alguma alegre nova. Em seu trono sentado está de leve o senhor do meu peito, e o dia todo com risonhas
imagens um espírito desconhecido me ergue do chão duro. Sonhei que meu amor tinha chegado e me
encontrara morto. Estranho sonho, que não destrói no morto o pensamento! E com beijos tal vida me
insuflava que eu revivi e imperador tornei-me. Quão doce deve ser o amor possuído, se assim tão
venturoso é sua sombra!
(Entra Baltasar, de botas.)
Notícias de Verona! Que acontece, Baltasar? Frei Lourenço mandou carta? E meu pai, está bem? Minha
Julieta, como a deixaste? Torno a perguntar-te, nada irá mal, se bem ela estiver.
BALTASAR - Então ela está bem; nada está mal. Seu corpo está dormindo no sepulcro dos Capuletos e a
imortal essência vive agora entre os anjos. Vi quando ela foi deposta na tumba da família. Perdoai-me
por trazer-vos tais notícias; mas destes-me, senhor, essa incumbência.
ROMEU - É assim? Então, estrelas, desafio-vos! Sabes bem onde eu moro; vai buscar-me papel e tinta e
aluga-me uns cavalos. Partirei esta noite.
BALTASAR - Revesti-vos de paciência, senhor, vos peço; tendes pálidas as feições e desvairadas,
pressagiando desgraça.
ROMEU - Não; enganas-te. Vai logo e faze o que te disse há pouco. Não me mandou o monge alguma
carta?
BALTASAR - Nenhuma, bom senhor.
ROMEU - Bem; não importa. Vai tratar logo de alugar cavalos; irei já para casa.
(Sai Baltasar.)
Bem, Julieta; deitar-me-ei ao teu lado ainda esta noite. Procuremos os meios... Ó desgraça! como
rapidamente te intrometes nos pensamentos dos desesperados! Lembro-me de ter visto um boticário -
mora aqui perto - não faz muito tempo, maltrapilho, de cenho carregado, a separar suas ervas. Rosto
esquálido, tinha-o roído até aos ossos a miséria. Pendida via-se uma tartaruga em sua pobre loja, um
crocodilo morto e empalhado, e muitas outras peles de peixes desconformes; pelas sujas prateleiras, uns
montes miseráveis de caixinhas vazias, potes verdes, bexigas e sementes bolorentas, restos de fios,
velhos pães de rosas, magramente espalhados para efeito. Vendo tanta miséria, a sós comigo observei
que se alguém necessitasse algum dia veneno que, sob pena de morte agora não se vende em Mântua, ali
vivia um desgraçado escravo que decerto o vendera. Oh! essa idéia veio muito antes da necessidade. Esse
coitado vai vender-me a droga. Se não me engano, a casa é aqui defronte. Sendo feriado, a loja está
fechada. Olá! oh!... Boticário!
(Entra o boticário.)
BOTICÁRIO - Quem me chama com tanta força?
ROMEU - Vem aqui, amigo. Vejo que és pobre; toma estes quarenta ducados, mas arranja-me uma
dracma de veneno, mas droga tão violenta que tão veloz se espalhe pelas veias, que a pessoa cansada
desta vida, bebendo-a, caia morta, e que do corpo o fôlego se aparte tão depressa como pólvora acesa, ao
desprender-se do fatal ventre do canhão medonho.
BOTICÁRIO - Possuo esse veneno perigoso; porém as leis de Mântua morte certa cominam para quantos
o venderem.
ROMEU - És tão nu e tão cheio de misérias, e a morte ainda receias? Tens a fome nas faces; as angústias
e o infortúnio de fome em teu olhar estão morrendo; do dorso pendem-te a miséria e a ofensa. Não se te
mostra amigo o mundo e, menos ainda, a lei do mundo. Em todo o mundo não há uma lei para deixar-te
rico. Não sejas pobre, então; passa por cima da lei e toma isto.
BOTICÁRIO - Aceita a minha pobreza o que me dás, não a vontade.
ROMEU - Não a vontade, pago-te a pobreza.
BOTICÁRIO - Ponde isto em qualquer líquido; tomando-o, embora a resistência possuirdes de vinte
homens, caireis de pronto morto.
ROMEU - Eis teu ouro, veneno mais nocivo para as almas dos homens, que mais crimes tem cometido
neste mundo sujo, do que essas pobres drogas misturadas que não podes vender. Dei-te veneno; não tu a
mim. Adeus. Compra alimento e engorda um pouco mais. Vamos, cordial, não veneno. Ao sepulcro vem
comigo de Julieta, mostrar que és meu amigo.
(Saem.)
ROMEU E JULIETA, ATO V, Cena III
O mesmo. Um cemitério, com o túmulo dos Capuletos. Entram Páris e seu pajem, trazendo flores e uma
tocha.
PÁRIS - Dá-me a tocha, rapaz, e fica à parte. Não, apaga-a; não quero que me vejam. Deita-te ali
embaixo do cipreste e o ouvido encosta junto do oco solo. Assim, não pisará o cemitério nenhum pé,
sendo o solo pouco firme, frouxo e escavado pelas sepulturas, sem que o percebas. Deves assobiar-me,
em sinal de que vem chegando gente. Dá-me essas flores. Faze o que te disse.
PAJEM (à parte) - Sinto um pouco de medo, por sozinho me ver no cemitério. Mas que seja.
(Sai.)
PÁRIS - Minha querida flor, espalho flores em teu leito - Oh! de pedras é o dossel! - De água à noite
trarei irrigadores ou o pranto amargo de meu fado cruel. Os funerais de nossa desventura flores far-te-ão
nascer na sepultura.
(O pajem assobia.)
O menino me avisa que vem gente. Que pé maldito pisa estes caminhos durante a noite, para
perturbar-me nos funerais e ritos do amor puro? Como! Traz uma tocha? Noite, esconde-me durante
alguns instantes.
(Retira-se.)
(Entram Romeu e Baltasar, com uma tocha, enxadão, etc.)
ROMEU - Dá-me o ferro e o enxadão. Toma esta carta. Logo que amanhecer tens de entregá-la ao meu
senhor e pai. Agora, a tocha. Por tua vida te exorto: embora vejas e ouças seja o que for, fica a de parte,
sem vires perturbar-me. Se ora desço a este leito de morte, em parte é apenas para o rosto ainda ver de
minha esposa, mas, sobretudo, para de seu dedo de morta o anel tirar muito precioso que necessito para
um caso extremo. Por isso, parte logo. Mas se, acaso só por curiosidade retornares para espiar o que fazer
pretendo: pelo céu! quebrar-te-ei todas as juntas e encherei o faminto cemitério com partes de teu corpo.
Meus intuitos a esta hora são selvagens, mais violentos e inexoráveis ainda do que o tigre faminto e o
mar revolto.
BALTASAR - Vou-me embora, senhor, sem vos atrapalhar em nada.
ROMEU - Assim, me provarás tua amizade. Toma isto para ti; vive e prospera. E agora, bom amigo,
passa bem.
BALTASAR (à parte) - Mas apesar de tudo, vou esconder-me por aqui mesmo. Não confio nele e temo
seu olhar.
(Retira-se.)
ROMEU - Matriz da morte. detestável maxila, que estás cheia da mais cara partícula da terra: assim te
forço os maxilares podres
(Abre a sepultura.)
e te obrigo a aceitar mais alimento. PÁRIS - Este é o Montecchio altivo, que banido foi por ter morto o
primo de Julieta, por cuja dor a morrer veio aquela criatura incomparável. Ei-lo agora que vem para fazer
nesses cadáveres alguma vilania oprobriosa. Vou prendê-lo.
(Adianta-se.) Interrompe teu maldito trabalho, vil Montecchio! Como! É crível que a vingança vá além
da própria morte? Estás preso, banido desprezível. Obedece e me segue; morrer deves.
ROMEU - Devo morrer, é fato; foi para isso que vim aqui. Mancebo generoso, tentar não queiras um
desesperado. Foge daqui e deixa-me; reflete nestes mortos e que eles te amedrontem. Suplico-te,
mancebo, não me faças arcar com o peso de mais um pecado, pois aqui vim contra mim próprio armado.
Não fiques; vai-te e dize no porvir que foi um louco que te fez fugir.
PÁRIS - Importância não dou a teu pedido e prendo-te por seres criminoso.
ROMEU - Queres me provocar? Então defende-te.
(Batem-se.)
PAJEM - Batem-se, oh Deus! Vou já chamar a guarda.
(Sai.)
PÁRIS (cai) - Estou morto! Se fores compassivo, abre a tumba e me deita com Julieta.
(Morre.)
ROMEU - Em verdade o farei. Porém vejamos estas feições: o nobre conde Páris, parente de Mercúcio!
Que me disse meu criado, quando juntos caminhávamos para cá e minha alma atormentada não escutava
nada? Não me disse que Páris e Julieta iam casar-se? Não foi assim, ou terá sido sonho? Ou então, por
estar louco, pensei nisso, quando ele me falava de Julieta? Dá-me essa mão, ó tu que estás inscrito, como
eu também, no livro do infortúnio. Vou depor-te num túmulo glorioso. Túmulo? Não, mancebo
assassinado; uma lanterna, pois Julieta se acha deitada aí e sua formosura faz desta abóbada uma sala
régia, transbordante de luz. Repousa, morto, por um morto enterrado.
(Coloca no túmulo o corpo de Páris.)
Quantas vezes, no ponto de morrer, ledos se mostram os homens? É o clarão da despedida, dizem
quantos o doente estão velando. Oh! poderei chamar clarão a esta hora? Ó meu amor! querida esposa! A
morte que sugou todo o mel de teu doce hálito poder não teve em tua formosura. Não; conquistada ainda
não foste; a insígnia da beleza em teus lábios e nas faces ainda está carmesim, não tendo feito progresso
o pálido pendão da morte. Tebaldo, jazes num lençol de sangue? Oh! que maior favor fazer-te posso do
que com esta mesma mão que a tua mocidade cortou, destruir, agora, também, a do que foi teu inimigo?
Primo, perdoa-me. Ah! querida esposa, por que ainda és tão formosa? Pensar devo que a morte
insubstancial se apaixonasse de ti e que esse monstro magro e horrível para amante nas trevas te
conserve? Com medo disso, ficarei contigo, sem nunca mais deixar os aposentos da tenebrosa noite; aqui
desejo permanecer, com os vermes, teus serventes. Aqui, sim, aqui mesmo fixar quero meu eterno
repouso, e desta carne lassa do mundo sacudir o jugo das estrelas funestas. Olhos, vede mais uma vez; é a
última. Um abraço permiti-vos também, ó braços! Lábios, que sois a porta do hálito, com um beijo
legítimo selai este contrato sempiterno com a morte exorbitante. Vem, condutor amargo! Vem, meu guia
de gosto repugnante! Ó tu, piloto desesperado! lança de um só golpe contra a rocha escarpada teu
barquinho tão cansado da viagem trabalhosa. Eis para meu amor.
(Bebe.)
Ó boticário veraz e honesto! tua droga é rápida. Deste modo, com um beijo, deixo a vida.
(Morre.)
(Entra pelo outro lado do cemitério frei Lourenço com lanterna, alavanca e uma pá.)
FREI LOURENÇO - São Francisco me ajude! Quantas vezes esta noite meus pés enfraquecidos
tropeçaram em túmulos? Quem vive?
BALTASAR - É um amigo, que muito vos conhece.
FREI LOURENÇO - Deus te abençoe. Querido amigo, dize-me que tocha é aquela ali que embalde a sua
luz aos vermes empresta e aos crânios cegos? Ao que parece, está no monumento dos Capuletos.
BALTASAR - Sim, é lá, santo homem. Lá se acha meu senhor, de quem gostais.
FREI LOURENÇO - Quem é ele?
BALTASAR - Romeu.
FREI LOURENÇO - Há quanto tempo está ele lá?
BALTASAR - Há cerca de meia hora.
FREI LOURENÇO - Vem comigo até o túmulo.
BALTASAR - Não ouso fazer isso, senhor; meu amo pensa que eu fui embora e me ameaçou de morte se
eu ficasse a espreitá-lo.
FREI LOURENÇO - Então espera; irei só; já começo a sentir medo. Oh! receio algum caso desastrado.
BALTASAR - Tendo dormido sob aquele teixo, vi em sonhos, parece, que meu amo se batia com outro,
tendo-o morto.
FREI LOURENÇO
(adiantando-se)
-
Romeu! Romeu! Oh dor! Que sangue é este que mancha a entrada pétrea do sepulcro? Que quererão
dizer estas espadas sem dono, a estilar sangue e descoradas, neste lugar de paz?
(Entra no túmulo.)
Romeu! Oh, pálido! Quem mais? Quê! Também Páris? E encharcado de sangue? Oh! que hora dura teve
culpa deste acontecimento lamentável? A senhora se mexe.
(Julieta desperta.)
JULIETA - Ó meu bom frade, onde está meu senhor? Sei muito bem onde eu devia estar, onde me
encontro. Mas onde está Romeu?
(Barulho dentro.)
FREI LOURENÇO - Ouço bulha. Saí, senhora, desse ninho de morte, de contágio e sono contrário à
natureza. Uma potência por demais forte para que a vençamos frustrou nossos intentos. Vem, bem logo!
Teu marido em teu seio se acha morto; Páris também. Vem logo; vou levar-te para um convento de
piedosas freiras. Não percas tempo com perguntas; vamos; a guarda está chegando. Vem, bondosa
Julieta; não me atrevo a esperar mais.
JULIETA - Vai, que eu daqui não sairei jamais.
(Sai frei Lourenço.)
Que vejo aqui? Um copo bem fechado na mão de meu amor? Certo: veneno foi seu fim prematuro. Oh!
que sovina! Bebeste tudo, sem que me deixasses uma só gota amiga, para alivio. Vou beijar esses lábios;
é possível que algum veneno ainda se ache neles, para me dar alento e dar a morte.
(Beija-o.)
Teus lábios estão quentes.
PRIMEIRO GUARDA (dentro) - Vamos, guia-me, rapaz; qual é o caminho?
JULIETA - Ouço barulho. Preciso andar depressa. Oh! sê bem-vindo, punhal!
(Apodera-se do punhal de Romeu.)
Tua bainha é aqui. Repousa ai bem quieto e deixa-me morrer.
(Cai sobre o corpo de Romeu e morre.)
(Entram os homens da guarda, com o pajem de Páris.)
PAJEM - É ali o ponto, onde está acesa a tocha.
PRIMEIRO GUARDA - Há sangue pelo chão. Passai revista em todo o cemitério, e se encontrardes
alguém, prendei-o.
(Saem alguns guardas.)
Oh vista dolorosa! Aqui se encontra, assassinado, o conde, e Julieta a sangrar de novo e morta
recentemente, que há dois dias fora posta neste sepulcro. Ide depressa chamar os Capuletos e os
Montecchios. Na busca prossegui vós outros.
(Saem outros guardas.)
Vemos o terreno de tantas desventuras; mas o terreno verdadeiro destas desgraças lastimáveis, só
podemos ficar sabendo após maior estudo.
(Voltam alguns guardas com Baltasar.)
SEGUNDO GUARDA - É o criado de Romeu; fomos achá-lo dentro do cemitério.
PRIMEIRO GUARDA - Segurai-o com bem cautela, até que chegue o príncipe.
(Volta outro guarda, com frei Lourenço.)
TERCEIRO GUARDA - Aqui está um frade que suspira e chora, sem parar de tremer. Nas mãos trazia
uma pá e este ferro, e deste lado vinha do cemitério.
PRIMEIRO GUARDA - São indícios suspeitos; segurai também o frade.
(Entra o príncipe com seu séqüito.)
PRÍNCIPE - Que desgraça se deu aqui tão cedo, para tirar assim nossa pessoa de seu sono habitual?
(Entram Capuleto, a senhora Capuleto e outros.)
CAPULETO - Por que esses gritos por toda parte? Que houve?
SENHORA CAPULETO - Pelas praças o nome de Romeu o povo grita; outros, o de Julieta; outros, de
Páris, correndo com clamores toda a gente para o lado do nosso monumento.
PRÍNCIPE - Que horror é esse que nos fere a vista?
PRIMEIRO GUARDA - Príncipe, aqui está, morto o conde Páris; morto, Romeu; e a que antes falecera,
Julieta, quente está e outra vez morta.
PRÍNCIPE - Investigai por outra parte como se deu este horroroso morticínio.
PRIMEIRO GUARDA - Aqui está um frade e aqui, também, o criado de Romeu; instrumentos
carregavam para arrombar o túmulo dos mortos.
CAPULETO - Oh céus! Mulher, vê nossa filha: sangra! Enganou-se o punhal; sua bainha se acha vazia
ao lado de Montecchio. Está mal colocado em nossa filha.
SENHORA CAPULETO - Ai de mim! Este quadro só de mortes é como um toque fúnebre que a minha
velhice chama para a sepultura.
(Entram Montecchio e outros.)
PRÍNCIPE - Vem cá, Montecchio; cedo te levantas para mais cedo ver baixar teu filho.
MONTECCHIO - O meu senhor! durante a noite a minha senhora faleceu; cortou-lhe o fôlego a tristeza
do exílio de meu filho. Que mais conspira contra minha idade?
PRÍNCIPE - Olha e verás.
MONTECCHIO - O néscio! néscio! que costume é esse de, antes do pai, entrar na sepultura?
PRÍNCIPE - Sela a boca do ultraje por um pouco, até que este mistério esclareçamos e fiquemos sabendo
sua origem e verdadeiro curso. Depois disso, comandante serei de vossas dores e conduzir-vos-ei à
própria morte. Até lá sossegai e que a desgraça se submeta à paciência. Apresentai-nos as pessoas
suspeitas.
FREI LOURENÇO - Dos presentes sou eu o mais suspeito, muito embora seja o que menos pode fazer
algo, visto acusarem-me o lugar e a hora. Eis-me a acusar-me, a um tempo, e a defender-me, num só
momento condenado e absolto.
PRÍNCIPE - Dize então logo o que sobre isto sabes.
FREI LOURENÇO - Serei breve, porque meu curto fôlego não é mais longo do que história insípida.
Romeu, aqui sem vida, era marido desta Julieta, assim como ela, morta também aqui, era a fiel consorte
deste Romeu. Fui eu que os desposei. O dia dessas núpcias clandestinas foi o do final juízo de Tebaldo,
cuja morte baniu de nosso burgo o recente marido. Era por causa dele, não por Tebaldo, que Julieta se
vinha definhando. Vós, com o fito de expulsar-lhe do peito essa tristeza, ao conde a prometestes,
tencionando casá-la a contragosto. Procurou-me desvairada e pediu-me que inventasse qualquer recurso
que a livrasse desse segundo casamento, ou então lá mesmo, sem vacilar, poria termo à vida. Dei-lhe
então - por minha arte aconselhado - um estupefaciente que sobre ela o efeito produziu por mim visado, a
aparência emprestando-lhe da morte. A Romeu escrevi nesse entrementes, para que ele aqui viesse nesta
noite de horrores ajudar-me a retirá-la de seu falso sepulcro, pois o efeito do veneno nessa hora cessaria.
Mas a pessoa que levou a carta, Frei João, detido foi por acidente, tendo-ma devolvido ontem à noite.
Então, sozinho, na hora prefixada para ela despertar, vim retirá-la do túmulo dos seus, a idéia tendo de
escondê-la na minha pobre cela, até chamar Romeu. Aqui chegando, porém - alguns minutos antes da
hora de Julieta acordar - encontrei mortos antes de tempo o nobre conde Páris e o fiel Romeu. Julieta
despertou. Roguei-lhe que fugisse e que aceitasse com paciência o que o céu lhe -destinara. Nisso, um
barulho me afastou do túmulo, sem que, em seu desespero, ela comigo se retirasse, tendo, ao que parece,
posto termo à existência. Sei só isso. A ama se achava a par do casamento. Se algo nisto falhou por
minha culpa, que minha velha vida, algumas horas antes do tempo, o expie em sacrifício, sob o rigor da
mais severa pena.
PRÍNCIPE - Por um santo homem sempre te tivemos. E o criado de Romeu, que nos informa?
BALTASAR - Fui portador a meu senhor da nova da morte de Julieta. Ele, apressado, veio de Mântua
para cá, para este mesmo túmulo, tendo-me ordenado que esta carta a seu pai desse bem cedo. Ao
penetrar no túmulo, ameaçou-me de morte se eu não fosse logo embora e não o deixasse aqui.
PRÍNCIPE - Dá-me essa carta; quero ver o que diz. E onde está o pajem do conde Páris, que chamou a
guarda? Que fazia teu amo aqui, pequeno?
PAJEM - Veio com flores para a sepultura de sua noiva, tendo-me ordenado que ficasse de parte.
Obedeci-lhe. Depois, com luz, chegou um homem, para violar a sepultura, tendo logo sacado meu senhor
contra ele a espada. Saí correndo e fui chamar a guarda.
PRÍNCIPE - Confirma a carta o que nos disse o monge: como o amor decorreu, a falsa nova da morte
dela. Aqui ele nos conta que veneno comprou de um boticário e que vinha morrer neste sepulcro, para
ficar ao lado de Julieta. Onde se encontram esses inimigos? Capuleto! Montecchio! Vede como sobre
vosso ódio a maldição caiu e como o céu vos mata as alegrias valendo-se do amor. Por minha parte, por
ter condescendido com vós todos, dois parentes perdi. Fomos punidos.
CAPULETO - Dá-me tua irmão, irmão Montecchio; é o dote de minha filha. Mais, pedir não posso.
MONTECCHIO - Mas eu posso dar mais, pois hei de a estátua dela mandar fazer do mais puro ouro.
Enquanto for Verona conhecida, nenhuma imagem terá tanto preço como a da fiel e mui veraz Julieta.
CAPULETO - Romeu fama também dará à cidade; vítimas são de nossa inimizade.
PRÍNCIPE - Esta manhã nos trouxe paz sombria: esconde o sol, de pesadume, o rosto. Ide; falai dos fatos
deste dia; serei clemente, ou rijo, a contragosto, que há de viver de todos na memória de Romeu e Julieta
a triste história.
(Saem.)
tocha.
PÁRIS - Dá-me a tocha, rapaz, e fica à parte. Não, apaga-a; não quero que me vejam. Deita-te ali
embaixo do cipreste e o ouvido encosta junto do oco solo. Assim, não pisará o cemitério nenhum pé,
sendo o solo pouco firme, frouxo e escavado pelas sepulturas, sem que o percebas. Deves assobiar-me,
em sinal de que vem chegando gente. Dá-me essas flores. Faze o que te disse.
PAJEM (à parte) - Sinto um pouco de medo, por sozinho me ver no cemitério. Mas que seja.
(Sai.)
PÁRIS - Minha querida flor, espalho flores em teu leito - Oh! de pedras é o dossel! - De água à noite
trarei irrigadores ou o pranto amargo de meu fado cruel. Os funerais de nossa desventura flores far-te-ão
nascer na sepultura.
(O pajem assobia.)
O menino me avisa que vem gente. Que pé maldito pisa estes caminhos durante a noite, para
perturbar-me nos funerais e ritos do amor puro? Como! Traz uma tocha? Noite, esconde-me durante
alguns instantes.
(Retira-se.)
(Entram Romeu e Baltasar, com uma tocha, enxadão, etc.)
ROMEU - Dá-me o ferro e o enxadão. Toma esta carta. Logo que amanhecer tens de entregá-la ao meu
senhor e pai. Agora, a tocha. Por tua vida te exorto: embora vejas e ouças seja o que for, fica a de parte,
sem vires perturbar-me. Se ora desço a este leito de morte, em parte é apenas para o rosto ainda ver de
minha esposa, mas, sobretudo, para de seu dedo de morta o anel tirar muito precioso que necessito para
um caso extremo. Por isso, parte logo. Mas se, acaso só por curiosidade retornares para espiar o que fazer
pretendo: pelo céu! quebrar-te-ei todas as juntas e encherei o faminto cemitério com partes de teu corpo.
Meus intuitos a esta hora são selvagens, mais violentos e inexoráveis ainda do que o tigre faminto e o
mar revolto.
BALTASAR - Vou-me embora, senhor, sem vos atrapalhar em nada.
ROMEU - Assim, me provarás tua amizade. Toma isto para ti; vive e prospera. E agora, bom amigo,
passa bem.
BALTASAR (à parte) - Mas apesar de tudo, vou esconder-me por aqui mesmo. Não confio nele e temo
seu olhar.
(Retira-se.)
ROMEU - Matriz da morte. detestável maxila, que estás cheia da mais cara partícula da terra: assim te
forço os maxilares podres
(Abre a sepultura.)
e te obrigo a aceitar mais alimento. PÁRIS - Este é o Montecchio altivo, que banido foi por ter morto o
primo de Julieta, por cuja dor a morrer veio aquela criatura incomparável. Ei-lo agora que vem para fazer
nesses cadáveres alguma vilania oprobriosa. Vou prendê-lo.
(Adianta-se.) Interrompe teu maldito trabalho, vil Montecchio! Como! É crível que a vingança vá além
da própria morte? Estás preso, banido desprezível. Obedece e me segue; morrer deves.
ROMEU - Devo morrer, é fato; foi para isso que vim aqui. Mancebo generoso, tentar não queiras um
desesperado. Foge daqui e deixa-me; reflete nestes mortos e que eles te amedrontem. Suplico-te,
mancebo, não me faças arcar com o peso de mais um pecado, pois aqui vim contra mim próprio armado.
Não fiques; vai-te e dize no porvir que foi um louco que te fez fugir.
PÁRIS - Importância não dou a teu pedido e prendo-te por seres criminoso.
ROMEU - Queres me provocar? Então defende-te.
(Batem-se.)
PAJEM - Batem-se, oh Deus! Vou já chamar a guarda.
(Sai.)
PÁRIS (cai) - Estou morto! Se fores compassivo, abre a tumba e me deita com Julieta.
(Morre.)
ROMEU - Em verdade o farei. Porém vejamos estas feições: o nobre conde Páris, parente de Mercúcio!
Que me disse meu criado, quando juntos caminhávamos para cá e minha alma atormentada não escutava
nada? Não me disse que Páris e Julieta iam casar-se? Não foi assim, ou terá sido sonho? Ou então, por
estar louco, pensei nisso, quando ele me falava de Julieta? Dá-me essa mão, ó tu que estás inscrito, como
eu também, no livro do infortúnio. Vou depor-te num túmulo glorioso. Túmulo? Não, mancebo
assassinado; uma lanterna, pois Julieta se acha deitada aí e sua formosura faz desta abóbada uma sala
régia, transbordante de luz. Repousa, morto, por um morto enterrado.
(Coloca no túmulo o corpo de Páris.)
Quantas vezes, no ponto de morrer, ledos se mostram os homens? É o clarão da despedida, dizem
quantos o doente estão velando. Oh! poderei chamar clarão a esta hora? Ó meu amor! querida esposa! A
morte que sugou todo o mel de teu doce hálito poder não teve em tua formosura. Não; conquistada ainda
não foste; a insígnia da beleza em teus lábios e nas faces ainda está carmesim, não tendo feito progresso
o pálido pendão da morte. Tebaldo, jazes num lençol de sangue? Oh! que maior favor fazer-te posso do
que com esta mesma mão que a tua mocidade cortou, destruir, agora, também, a do que foi teu inimigo?
Primo, perdoa-me. Ah! querida esposa, por que ainda és tão formosa? Pensar devo que a morte
insubstancial se apaixonasse de ti e que esse monstro magro e horrível para amante nas trevas te
conserve? Com medo disso, ficarei contigo, sem nunca mais deixar os aposentos da tenebrosa noite; aqui
desejo permanecer, com os vermes, teus serventes. Aqui, sim, aqui mesmo fixar quero meu eterno
repouso, e desta carne lassa do mundo sacudir o jugo das estrelas funestas. Olhos, vede mais uma vez; é a
última. Um abraço permiti-vos também, ó braços! Lábios, que sois a porta do hálito, com um beijo
legítimo selai este contrato sempiterno com a morte exorbitante. Vem, condutor amargo! Vem, meu guia
de gosto repugnante! Ó tu, piloto desesperado! lança de um só golpe contra a rocha escarpada teu
barquinho tão cansado da viagem trabalhosa. Eis para meu amor.
(Bebe.)
Ó boticário veraz e honesto! tua droga é rápida. Deste modo, com um beijo, deixo a vida.
(Morre.)
(Entra pelo outro lado do cemitério frei Lourenço com lanterna, alavanca e uma pá.)
FREI LOURENÇO - São Francisco me ajude! Quantas vezes esta noite meus pés enfraquecidos
tropeçaram em túmulos? Quem vive?
BALTASAR - É um amigo, que muito vos conhece.
FREI LOURENÇO - Deus te abençoe. Querido amigo, dize-me que tocha é aquela ali que embalde a sua
luz aos vermes empresta e aos crânios cegos? Ao que parece, está no monumento dos Capuletos.
BALTASAR - Sim, é lá, santo homem. Lá se acha meu senhor, de quem gostais.
FREI LOURENÇO - Quem é ele?
BALTASAR - Romeu.
FREI LOURENÇO - Há quanto tempo está ele lá?
BALTASAR - Há cerca de meia hora.
FREI LOURENÇO - Vem comigo até o túmulo.
BALTASAR - Não ouso fazer isso, senhor; meu amo pensa que eu fui embora e me ameaçou de morte se
eu ficasse a espreitá-lo.
FREI LOURENÇO - Então espera; irei só; já começo a sentir medo. Oh! receio algum caso desastrado.
BALTASAR - Tendo dormido sob aquele teixo, vi em sonhos, parece, que meu amo se batia com outro,
tendo-o morto.
FREI LOURENÇO
(adiantando-se)
-
Romeu! Romeu! Oh dor! Que sangue é este que mancha a entrada pétrea do sepulcro? Que quererão
dizer estas espadas sem dono, a estilar sangue e descoradas, neste lugar de paz?
(Entra no túmulo.)
Romeu! Oh, pálido! Quem mais? Quê! Também Páris? E encharcado de sangue? Oh! que hora dura teve
culpa deste acontecimento lamentável? A senhora se mexe.
(Julieta desperta.)
JULIETA - Ó meu bom frade, onde está meu senhor? Sei muito bem onde eu devia estar, onde me
encontro. Mas onde está Romeu?
(Barulho dentro.)
FREI LOURENÇO - Ouço bulha. Saí, senhora, desse ninho de morte, de contágio e sono contrário à
natureza. Uma potência por demais forte para que a vençamos frustrou nossos intentos. Vem, bem logo!
Teu marido em teu seio se acha morto; Páris também. Vem logo; vou levar-te para um convento de
piedosas freiras. Não percas tempo com perguntas; vamos; a guarda está chegando. Vem, bondosa
Julieta; não me atrevo a esperar mais.
JULIETA - Vai, que eu daqui não sairei jamais.
(Sai frei Lourenço.)
Que vejo aqui? Um copo bem fechado na mão de meu amor? Certo: veneno foi seu fim prematuro. Oh!
que sovina! Bebeste tudo, sem que me deixasses uma só gota amiga, para alivio. Vou beijar esses lábios;
é possível que algum veneno ainda se ache neles, para me dar alento e dar a morte.
(Beija-o.)
Teus lábios estão quentes.
PRIMEIRO GUARDA (dentro) - Vamos, guia-me, rapaz; qual é o caminho?
JULIETA - Ouço barulho. Preciso andar depressa. Oh! sê bem-vindo, punhal!
(Apodera-se do punhal de Romeu.)
Tua bainha é aqui. Repousa ai bem quieto e deixa-me morrer.
(Cai sobre o corpo de Romeu e morre.)
(Entram os homens da guarda, com o pajem de Páris.)
PAJEM - É ali o ponto, onde está acesa a tocha.
PRIMEIRO GUARDA - Há sangue pelo chão. Passai revista em todo o cemitério, e se encontrardes
alguém, prendei-o.
(Saem alguns guardas.)
Oh vista dolorosa! Aqui se encontra, assassinado, o conde, e Julieta a sangrar de novo e morta
recentemente, que há dois dias fora posta neste sepulcro. Ide depressa chamar os Capuletos e os
Montecchios. Na busca prossegui vós outros.
(Saem outros guardas.)
Vemos o terreno de tantas desventuras; mas o terreno verdadeiro destas desgraças lastimáveis, só
podemos ficar sabendo após maior estudo.
(Voltam alguns guardas com Baltasar.)
SEGUNDO GUARDA - É o criado de Romeu; fomos achá-lo dentro do cemitério.
PRIMEIRO GUARDA - Segurai-o com bem cautela, até que chegue o príncipe.
(Volta outro guarda, com frei Lourenço.)
TERCEIRO GUARDA - Aqui está um frade que suspira e chora, sem parar de tremer. Nas mãos trazia
uma pá e este ferro, e deste lado vinha do cemitério.
PRIMEIRO GUARDA - São indícios suspeitos; segurai também o frade.
(Entra o príncipe com seu séqüito.)
PRÍNCIPE - Que desgraça se deu aqui tão cedo, para tirar assim nossa pessoa de seu sono habitual?
(Entram Capuleto, a senhora Capuleto e outros.)
CAPULETO - Por que esses gritos por toda parte? Que houve?
SENHORA CAPULETO - Pelas praças o nome de Romeu o povo grita; outros, o de Julieta; outros, de
Páris, correndo com clamores toda a gente para o lado do nosso monumento.
PRÍNCIPE - Que horror é esse que nos fere a vista?
PRIMEIRO GUARDA - Príncipe, aqui está, morto o conde Páris; morto, Romeu; e a que antes falecera,
Julieta, quente está e outra vez morta.
PRÍNCIPE - Investigai por outra parte como se deu este horroroso morticínio.
PRIMEIRO GUARDA - Aqui está um frade e aqui, também, o criado de Romeu; instrumentos
carregavam para arrombar o túmulo dos mortos.
CAPULETO - Oh céus! Mulher, vê nossa filha: sangra! Enganou-se o punhal; sua bainha se acha vazia
ao lado de Montecchio. Está mal colocado em nossa filha.
SENHORA CAPULETO - Ai de mim! Este quadro só de mortes é como um toque fúnebre que a minha
velhice chama para a sepultura.
(Entram Montecchio e outros.)
PRÍNCIPE - Vem cá, Montecchio; cedo te levantas para mais cedo ver baixar teu filho.
MONTECCHIO - O meu senhor! durante a noite a minha senhora faleceu; cortou-lhe o fôlego a tristeza
do exílio de meu filho. Que mais conspira contra minha idade?
PRÍNCIPE - Olha e verás.
MONTECCHIO - O néscio! néscio! que costume é esse de, antes do pai, entrar na sepultura?
PRÍNCIPE - Sela a boca do ultraje por um pouco, até que este mistério esclareçamos e fiquemos sabendo
sua origem e verdadeiro curso. Depois disso, comandante serei de vossas dores e conduzir-vos-ei à
própria morte. Até lá sossegai e que a desgraça se submeta à paciência. Apresentai-nos as pessoas
suspeitas.
FREI LOURENÇO - Dos presentes sou eu o mais suspeito, muito embora seja o que menos pode fazer
algo, visto acusarem-me o lugar e a hora. Eis-me a acusar-me, a um tempo, e a defender-me, num só
momento condenado e absolto.
PRÍNCIPE - Dize então logo o que sobre isto sabes.
FREI LOURENÇO - Serei breve, porque meu curto fôlego não é mais longo do que história insípida.
Romeu, aqui sem vida, era marido desta Julieta, assim como ela, morta também aqui, era a fiel consorte
deste Romeu. Fui eu que os desposei. O dia dessas núpcias clandestinas foi o do final juízo de Tebaldo,
cuja morte baniu de nosso burgo o recente marido. Era por causa dele, não por Tebaldo, que Julieta se
vinha definhando. Vós, com o fito de expulsar-lhe do peito essa tristeza, ao conde a prometestes,
tencionando casá-la a contragosto. Procurou-me desvairada e pediu-me que inventasse qualquer recurso
que a livrasse desse segundo casamento, ou então lá mesmo, sem vacilar, poria termo à vida. Dei-lhe
então - por minha arte aconselhado - um estupefaciente que sobre ela o efeito produziu por mim visado, a
aparência emprestando-lhe da morte. A Romeu escrevi nesse entrementes, para que ele aqui viesse nesta
noite de horrores ajudar-me a retirá-la de seu falso sepulcro, pois o efeito do veneno nessa hora cessaria.
Mas a pessoa que levou a carta, Frei João, detido foi por acidente, tendo-ma devolvido ontem à noite.
Então, sozinho, na hora prefixada para ela despertar, vim retirá-la do túmulo dos seus, a idéia tendo de
escondê-la na minha pobre cela, até chamar Romeu. Aqui chegando, porém - alguns minutos antes da
hora de Julieta acordar - encontrei mortos antes de tempo o nobre conde Páris e o fiel Romeu. Julieta
despertou. Roguei-lhe que fugisse e que aceitasse com paciência o que o céu lhe -destinara. Nisso, um
barulho me afastou do túmulo, sem que, em seu desespero, ela comigo se retirasse, tendo, ao que parece,
posto termo à existência. Sei só isso. A ama se achava a par do casamento. Se algo nisto falhou por
minha culpa, que minha velha vida, algumas horas antes do tempo, o expie em sacrifício, sob o rigor da
mais severa pena.
PRÍNCIPE - Por um santo homem sempre te tivemos. E o criado de Romeu, que nos informa?
BALTASAR - Fui portador a meu senhor da nova da morte de Julieta. Ele, apressado, veio de Mântua
para cá, para este mesmo túmulo, tendo-me ordenado que esta carta a seu pai desse bem cedo. Ao
penetrar no túmulo, ameaçou-me de morte se eu não fosse logo embora e não o deixasse aqui.
PRÍNCIPE - Dá-me essa carta; quero ver o que diz. E onde está o pajem do conde Páris, que chamou a
guarda? Que fazia teu amo aqui, pequeno?
PAJEM - Veio com flores para a sepultura de sua noiva, tendo-me ordenado que ficasse de parte.
Obedeci-lhe. Depois, com luz, chegou um homem, para violar a sepultura, tendo logo sacado meu senhor
contra ele a espada. Saí correndo e fui chamar a guarda.
PRÍNCIPE - Confirma a carta o que nos disse o monge: como o amor decorreu, a falsa nova da morte
dela. Aqui ele nos conta que veneno comprou de um boticário e que vinha morrer neste sepulcro, para
ficar ao lado de Julieta. Onde se encontram esses inimigos? Capuleto! Montecchio! Vede como sobre
vosso ódio a maldição caiu e como o céu vos mata as alegrias valendo-se do amor. Por minha parte, por
ter condescendido com vós todos, dois parentes perdi. Fomos punidos.
CAPULETO - Dá-me tua irmão, irmão Montecchio; é o dote de minha filha. Mais, pedir não posso.
MONTECCHIO - Mas eu posso dar mais, pois hei de a estátua dela mandar fazer do mais puro ouro.
Enquanto for Verona conhecida, nenhuma imagem terá tanto preço como a da fiel e mui veraz Julieta.
CAPULETO - Romeu fama também dará à cidade; vítimas são de nossa inimizade.
PRÍNCIPE - Esta manhã nos trouxe paz sombria: esconde o sol, de pesadume, o rosto. Ide; falai dos fatos
deste dia; serei clemente, ou rijo, a contragosto, que há de viver de todos na memória de Romeu e Julieta
a triste história.
(Saem.)
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